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segunda-feira, 7 de julho de 2014

AO SOM DOS... FESTIVAIS DE VERÃO

Com a chegada do verão chegam também os concertos que vão acontecendo um pouco por toda a parte e nos mais variados géneros. Uns são ao ar livre e juntam milhares de jovens que acampam durante dias num determinado local para não perderem os espetáculos e todo o ambiente envolvente, outros acontecem em recintos fechados, sejam salas de concertos, igrejas ou monumentos do nosso património arquitetónico. Há de tudo para todos os gostos.
Na música clássica temos festivais de norte a sul tais como: Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim; Festival Internacional de Música de Espinho; Cistermúsica, Festival de Música de Alcobaça e Festival de Música do Estoril. Todos eles apresentam uma variada e interessante programação, contando com excelentes intérpretes estrangeiros e nacionais, uns já consagrados e outros ainda jovens promessas.
O Festival de Música da Póvoa este ano tem uma novidade que decerto irá agradar ao público e com toda a certeza dará ainda mais brilho ao festival, que é o facto de alguns dos concertos se realizarem no recentemente reaberto Cine-Teatro Garrett. Como em anos anteriores, a Igreja Matriz, a Igreja românica de S. Pedro de Rates e o Auditório Municipal serão também palco de muitos dos concertos do Festival. Seguindo uma linha programática que o caracteriza desde o início, já lá vão 36 anos, este Festival continua a apostar na divulgação da música antiga e na sua interpretação com instrumentos da época, o que é sempre um fator de interesse. O preço dos bilhetes é muito acessível e um passeio até à Póvoa na época balnear vale sempre a pena, sobretudo se terminarmos o dia assistindo a um bom concerto num dos vários locais onde se realiza o festival.

Aqui ficam as sugestões de festivais para este mês, com a respetiva programação.


Margarida Assis

domingo, 6 de julho de 2014

WIMBLEDON



Neste fim-de-semana Inglaterra é o centro do desporto mundial. Acaba mais uma edição do mítico torneio de ténis de Wimbledon e começa o 101.º Tour de France. As duas centenárias provas desportivas são símbolos culturais da França e da Inglaterra, as duas nações mais relevantes na Europa e das mais importantes no mundo. Falar de ciclismo é falar do Tour e falar de ténis sem falar de Wimbledon é impossível, pois ambas as competições constituem o expoente máximo de cada modalidade.

Hoje falarei do torneio de Wimbledon e daqui a algumas semanas abordaremos o Tour.

O torneio de Wimbledon existe há mais 130 anos e só as guerras mundiais o pararam. Durante 90 anos era jogado entre amadores, mais no final da década de sessenta, o ténis e Wimbledon tiveram de aceitar o inevitável: o deporto tinha-se tornado profissional. Mas o glamour de Wimbledon reside no facto de ser um torneio jogado sobre relva, onde a técnica e o virtuosismo dos jogadores é mais evidente do que noutro qualquer torneio do Grande Slam. 

Vencer Wimbledon é um marco na carreira de qualquer tenista, um momento de consagração só ao alcance de grandes campeões. A nossa memória coletiva recorda campeões como Peter Sampras, Roger Federer, Martina Navratilova, Steffi Graf ou mais recentemente as Manas Williams (Venus e Serena), porque triunfaram no torneio inglês. 



Nenhum outro torneio traz tanta glória e fama ao seu vencedor como Wimbledon. Os ingleses sabem como ninguém organizar e valorizar uma competição desportiva porque são intransigentes e respeitadores dos valores essenciais do desporto. 

Também nenhum outro torneio de ténis é tão rigoroso com as “suas” regras como a prova que os ingleses organizam. Nos jogos, não existe qualquer tipo de propaganda ou patrocínio, um ponto bastante diferente dos demais torneios.

Os jogadores são obrigados a usar equipamento branco e só. Todos os itens de vestuários, incluindo chapéus, meias e sapatos, devem ser inteiramente brancos. Roger Federer chegou a ser repreendido pelos organizadores porque os seus sapatos em tons de laranja desrespeitavam as normas. Durante o torneio, os morangos e cremes são comidas típicas e são oferecidas aos espectadores e jogadores. Essa tradição existe desde 1877, tanto que, atualmente, morangos e ténis simbolizam a chegada do verão para os ingleses. Em Wimbledon, os meninos e meninas que recolhem as bolas são chamados de BBGs. Eles não devem ser vistos, precisam de ser discretos e prosseguir o trabalho sempre em voz baixa. Durante o evento os jogadores são referidos como Mr. e Miss, seja qual for o estado civil, especialmente no caso das mulheres.



Mas as curiosidades são mais do que muitas. Em 1877, o torneio só teve 22 participantes (todos homens) e a única modalidade praticada foi singulares masculinos. Assistiram à vitória de Spencer Gore duas centenas de pessoas enquanto hoje podem assistir, ao vivo, aos jogos de todo o torneio, quase 500 mil pessoas. Apesar das regras sobre o uso de equipamento branco se manterem inalteradas, o corte dos fatos foi mudando. Até 1919 as senhoras jogavam com vestidos que as cobriam desde o queixo ao chão. Nesse ano apareceram os primeiros vestidos que mostravam os tornozelos e os braços provocando uma enorme polémica. Nos homens, o primeiro jogador a usar calções num jogo de ténis em Wimbledon foi Henry “Bunny” Austin, em 1932. Na altura foi um choque para quem assistia ao jogo incluindo a Rainha Maria. Ao longo das décadas, as roupas usadas pelos jogadores foram-se reduzindo em tamanho para estes conseguirem mover-se mais livremente.

Quanto à parte técnica, o torneio envolve grande quantidade de meios materiais. Só a título de curiosidade, são usadas cerca de 50.000 bolas de ténis durante as três semanas em que a competição decorre. 

Também relevante, são os prémios monetários envolvidos. Desde 1968 (altura em que a competição passou a profissional) são atribuídos prémios cada vez mais significativos. Em 2012, por exemplo, o prémio em dinheiro para os vencedores singles femininos e masculinos foi de mais de 1,300.000€. Em 1968, o prémio foi de 2.300€ para singles masculinos e 870 € para femininos.


Quanto à competição em si, os grandes momentos estão cheios de pequenas histórias. O jogador mais jovem a consagrar-se campeão em Wimbledon foi o alemão Boris Becker, em 1985, com 17 anos, numa partida contra Kevin Curren e que teve a duração de 3 horas e 18 minutos. Por falar em duração, a final mais longa da história de Wimbledon aconteceu em 2010, na primeira ronda de Wimbledon que pôs frente a frente John Isner e Nicolas Mahut. Isner ganhou por 6-4, 3-6, 6-7(7), 7-6(3), 70-68. O jogo durou 11 horas e 5 minutos, ao longo de 3 dias.

Se este jogo entrou na história pela sua duração, muitos outros ficam registados pela sua espetacularidade. Uma das melhores finais de sempre (senão mesmo a melhor) ocorreu em 2008. A final de Wimbledon de 2008 é mesmo considerada a melhor final da história deste deporto. Rafael Nadal derrotou Roger Federer na luta pelo título. Os duelos entre Federer e o rival Nadal tornaram-se épicos ao longo dos anos, com inúmeras disputas de grande qualidade.

Quanto aos heróis, Wimbledon criou vários. O jogador com mais participações é o francês Jean Borotra que marcou presença em 35 torneios de wimbledon entre 1922 e 1964. Conquistou o seu último título com 41 anos. Em 1977 fez uma aparição na categoria doubles de Veteranos, com 78 anos, fazendo assim uma carreira em Wimbledon de 55 anos.

Wimbledon consagrou vários campeões. Nas mulheres, a checa Martina Navratilova venceu oito torneios, fazendo da sua rival de sempre, Chris Evert, a maior perdedora do torneio com sete finais perdidas. Felizmente, Evert havia de vencer Wimbledon por uma vez. Na era amadora, Helen Willis Modis também conseguiu oito vitórias e mais recentemente Steffi Graf chegou aos sete títulos. Nos homens, William Renshaw, ainda no século XIX, conseguiu oito vitórias na final de singles masculinos. O grande Peter Sampras, entre 1993 e 2000, conseguiu igualá-lo. Desde que começou o século XXI, Roger Federer tem quebrado todos os recordes e hoje poucos são aqueles que duvidam que ele seja o melhor tenista de todos os tempos.



Wimbledon é especial e mágico. É o único torneio do Grande Slam frequentado por uma família real. 

Hoje, perante o olhar do príncipe William e da pincesa Kate Middleton, o sérvio Djokovic repetiu o triunfo de 2011 e impediu que Federer atingisse a imortalidade em Wimbledon, ultrapassando definitivamente o seu ídolo de juventude: Peter Sampras.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 5 de julho de 2014

AL PACINO



Na semana passada falei-vos do primeiro filme da trilogia “O PADRINHO”, hoje falo-vos do ator que ficou indubitavelmente ligado aos filmes que melhor retrataram o fenómeno da Máfia: Al Pacino. Ainda não tinham passado três anos sobre a sua estreia em cinema, já Coppola reparava no seu talento e convocava-o para o Padrinho I, onde brilhou com tanta intensidade que foi indicado para Óscar pela Academia de Hollywood, na categoria de Melhor Ator Secundário. Não venceu, mas convenceu e nas sequelas que se seguiram Al Pacino assumiu o principal papel.
A ascendência siciliana de Al Pacino ter-lhe-à dado a veia necessária para encarnar a saga dos Corleone e de O Padrinho, que fez do ator americano um astro do cinema.

 Nascido a 2 de abril de 1940, Al Pacino viveu a infância no Bronx. O interesse pelo teatro levou-o a inscrever-se na High School for Performing Arts que abandonou aos dezassete anos. Depois de uma sucessão de empregos como paquete, arrumador e porteiro, entrou na Broadway e foi admitido na Actors Studio. Foi aí que afinou o enorme talento.
 Aos 33 anos conquistou Hollywood após a sua memorável atuação em O Padrinho, desempenho que lhe valeu a nomeação para Óscar de Melhor Ator. Era o primeiro dos filmes da célebre trilogia de Coppola e deu corpo, voz e coração a Michael Corleone, filho mais novo de Don Corleone (Marlon Brando). No segundo filme da saga, estreado em 1974, o portentoso Al Pacino foi já o rosto da “famiglia”, o que se repetiu no terceiro capítulo, exibido em 1990.


Nascido para a interpretação e a vitória, Al Pacino esteve soberbo no seu segundo filme, Pânico em Needle Park (1971), e deu vida a personagens que se colocaram ora de um lado ora do outro da barricada da justiça. Foi um polícia incorruptível em “Serpico” (1973), encarnou um vilão em Um dia de Cão, sempre com o mesmo realizador: Sidney Lumet. Em 1979, voltou à carga com “… E Justiça para Todos” de Norman Jewinson. Nestes três filmes residirá um dos temas mais importantes dos filmes de Al Pacino: a denúncia da corrupção no seio do sistema judicial e policial dos Estados Unidos.
Seguiu-se a participação em filmes polémicos e não muito bem sucedidos como “A caça” (1980), de William Frieldkin, um drama moralista sobre homossexualidade ou “Scarface, a face do poder”, de Brian De Palma, uma tentativa gorada de criar um Don Corleone de origem cubana.
       “Perigosa Sedução” (1989), filme de Harold Becker, no qual contracenou com Ellen Barkin em escaldantes cenas de sexo, marcou o regresso do ator ao seu mais alto nível. Em Dick Tracy (1990), perante Madonna, confirmou a boa forma, sobrepondo-se a um Warren Beatty, realizador e ator.
Em 1992, após seis nomeações para os Óscares, Al Pacino recebeu finalmente a estatueta de melhor ator pela sua fabulosa interpretação em “Perfume de Mulher”.
Al Pacino continuou a derramar talento em filmes marcantes como “Advogado do Diabo” (1997), “O Informador” (1999), “Mercador de Veneza” (2004) ou “A dupla face da lei” (2008), entre outros. No entanto, o melhor por agora é rever um pouco de um filme que lhe valeu um dos momentos mais altos da sua carreira.

Gabriel Vilas Boas


sexta-feira, 4 de julho de 2014

CASAS QUE MARCAM A ARQUITETURA DO SÉCULO XX (IV) - Casa Cascata

Na continuação da temática sobre casas que considero mais importantes do séc. XX, escolhi para análise a casa da cascata, que para mim tem particular interesse.


 









 Fallingwater, de 1935-39, da autoria de Frank Lloyd Wright, na Pensilvânia (E.UA.) 
A Casa da Cascata, projetada por Frank Lloyd Wright (1869-1959), sobre uma queda de água do rio Bear Run, é um dos maiores ícones das teorias de Wright sobre a Arquitetura Orgânica, que defendia ser a mais apropriada para o tempo, o lugar e o homem. A Arquitetura Orgânica, ou Organicista ou ainda Organicismo foi uma vertente da arquitetura moderna influenciada pelas ideias de Wright, que acreditava que uma casa deve nascer para atender às necessidades das pessoas como um organismo vivo, em perfeita integração com a natureza. Nesta casa de férias, podemos ver como o declive do terreno é aproveitado completamente. O edifício está assente sobre rochas que estão lá desde sempre e, além disso, a construção não se sobrepõe à paisagem, mas é visualizada no contexto da envolvente, onde a vegetação foi removida criteriosamente e o menos possível.
Nas suas construções, Wright utilizava um “sistema de unidades”, criado pelo próprio, em que “as dimensões e situação dos diversos elementos definidores de espaço (painéis, vidraças, pilares, tetos e chaminés)” eram determinadas em função desse sistema. No caso da Fallingwater, alem deste sistema, foi igualmente aplicada a supressão das esquinas, que “eliminam visualmente o ângulo reto neste ponto”, conseguindo uma desmaterialização do volume, uma maior profundidade e variedade de vistas do espaço e portanto uma continuidade visual.

Vistas exteriores da Casa da Cascata

A Casa da Cascata, projetada a partir de uma planta cruciforme, desenvolve-se em três pisos, assentando numa placa de betão armado sobre as rochas por cima da cascata. Os terraços e varandas suspensas desenvolvem-se também como uma cascata, estes elementos horizontais em betão contrapõem-se aos elementos verticais em pedra, produzindo um equilíbrio na composição volumétrica do edifício.
Frank Lloyd Wright foi influenciado pela arquitetura japonesa, o que está patente nos espaços interiores fluidos, nas paredes “biombo”, nos terraços sobrepostos e nos telhados baixos e longos.
Wright também usou o “passeio arquitetónico”, onde o percurso não se faz em linha reta, mas vai progredindo, obrigando a desvios para conseguir a descoberta progressiva da envolvente, criando espaços intermédios onde o interior se prolonga até ao exterior entre a arquitetura e a natureza, através das fachadas totalmente envidraçadas. A procura da integração total com a natureza é notória nos materiais usados que aliam o betão armado e a pedra aparente nas paredes remetendo para as rochas em que a casa assenta. Há uma leveza obtida pelos materiais e pelas formas puras: a casa parece flutuar sobre a cascata.

 Vistas do interior da Casa da Cascata

Na organização do espaço, o arquiteto desenhou o rés-do-chão contendo as zonas comuns nomeadamente a sala de estar com a chaminé, que é a parte central da casa e foi construída ao lado da rocha, ela mesma fazendo parte da sala. Nos pisos superiores ficam os quartos e quartos de banho.
 






Plantas das Casa Cascata


A obra de Frank Lloyd Wright é um legado para a arquitetura, não só pelas teorias sobre a Arquitetura Orgânica, mas também pela introdução de novas técnicas e métodos, pela elegância e serenidade das suas obras, pela valorização dos materiais tradicionais e da região, pelo uso de novos materiais, pelo desenho, muitas vezes inovador e arrojado, e, sobretudo, pela defesa da natureza e da integração dos edifícios no ambiente. Fallingwater é o expoente máximo de tudo isto e por tal é um museu desde 1964. 
Teresa Beyer



quinta-feira, 3 de julho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DA RAPARIGA COM BRINCO DE PÉROLA


Rapariga com Brinco de Pérola ou  Rapariga comTurbante, Johannes Vermeer,
n. datado, óleo s/ tela, Mauritshuis, Haia
Chamou-me a atenção uma notícia, já com algumas semanas, de que a tela de Vermeer, “Rapariga com Brinco de Pérola”, havia regressado a Haia, ao Museu Mauritshuis, depois de ter estado exposta em vários museus internacionais. Esta é uma das obras mais apetecidas do nosso pintor de hoje, apelidada de “A Gioconda do Norte”, graças à aura de mistério que a envolve, a recordar as personagens de Leonardo, à inimitável cor destacada pelo fundo escuro, em modo Caravaggio, à sua textura suave e delicada tão preciosa em Vermeer.
Vermeer. Mestre da luz. Nascido em 1632,em Delft, este pintor contribuiu em definitivo para a afirmação da idade de ouro da pintura holandesa. Consegue como ninguém dotar os seus quadros de uma tranquilidade especial graças às qualidades que incute na luz com que os ilumina, uma luz misteriosa, natural, serena, envolvente. O caráter intimista com que trata as suas personagens trazem às suas obras uma poética invulgar de luz e de cor ,de sentimento e de mistério.
Cézanne, seu fiel admirador, provocou nos críticos de arte uma curiosidade e busca incessantes pela obra deste artista, ”escondido” durante dois séculos, absolutamente esmagado por Rembrandt e outros pintores do célebre século de ouro holandês.
Mas o primeiro a “descobrir” Vermeer foi o crítico francês Thoré Burger, em 1866.O conhecimento da sua obra aprofunda-se então de tal modo que a crítica de arte não hesita em reconhecer “ a perspetiva de Vermeer como fonte de inspiração das abstrações de Mondrian e dos interiores de Fernand Léger”.
O Museu Mauritshuis ocupa um belo edifício do século XVII, em Haia, e reabriu há poucos dias atrás, após importantes obras de restauro e expansão. Visita obrigatória para os admiradores, como eu, da designada Idade de Ouro da pintura holandesa, onde podem ser apreciadas obras de Rembrandt como A Lição de Anatomia do Dr Tulp ou a Vista de Delft de Vermeer, quase impressionista, senão a primeira obra verdadeiramente impressionista, tem no entanto, como centro principal das atenções uma rapariga e um pintassilgo, duas telas celebrizadas graças ao simples facto de terem sido o pretexto para dois romances de sucesso. Tracy Chevalier publicou , em 1999 ,um romance histórico centrado na tela de Vermeer, no qual a musa do pintor é uma empregada chamada Griet, que Scarlett Johansson depois interpretará no filme Rapariga Com Brinco de Pérola, de Peter Webber. O mistério permanece, no entanto. Quem é a linda serviçal? E porque usará ela um brinco tão nobre, reservado apenas às senhoras de alta estirpe? Tracy Chevalier percorre com criatividade e imaginação o trilho de vida desta misteriosa personagem e descreve de forma ficcionada os seus encontros e desencontros com o pintor.

Já O Pintassilgo, óleo de pequenas dimensões de Carel Fabritius, discípulo de Rembrandt e mestre de Vermeer, e o súbito interesse do público por esta pintura, também no centro de um romance intitulado The Goldfinch, de Donna Tartt, causa maior estranheza. Mas o que é certo é que estas duas obras convidam à visita e estão em destaque numa das salas mais nobres daquele museu imperdível de Haia. 

Museu de Mauritshuis, Haia
As férias tão desejadas estão aí à espreita. Boa altura para uma incursão pela pintura de ouro holandesa, numa das cidades mais cosmopolitas da Europa. Fica a sugestão. Entretanto, deliciem-se, como eu, com a banda sonora do filme “Girl  With a Pearl Earring” do compositor Alexandre Desplat, que deu o mote a este humilde texto de hoje. Há músicas que tem o dom de nos acalmar e esta é uma delas.

Rosa Maria Fonseca

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Hemingway

"A felicidade, em pessoas inteligentes, é das coisas mais raras que conheço."
                                                                                                                        Ernest Hemingway 


    Passam 53 anos desde que desapareceu Ernest Hemingway, um dos maiores escritores norte-americanos de sempre e um dos mais significativos do século XX. As circunstâncias que envolveram a sua morte (suicídio) não são as mais felizes, no entanto a vida deste americano que simpatizava com o comunismo é tão cheia e brilhante que facilmente a podemos classificar como fabulosa. 

    Hemingway não viveu durante muito tempo, mas todo o tempo que passou pelo mundo foi sorvido como uma intensidade que se aproximou sempre do limite. Aliás, Hemingway não sabia fazer nada que não fosse de maneira apaixonada e absoluta. Escreveu com um talento e um fulgor invulgares, fez questão de estar presente nos conflitos bélicos que marcaram o século XX, foi repórter de guerra, amou várias mulheres e casou com quatro, ofereceu-se para espião americano em Cuba contra fascistas e nazis, simpatizou com os comunistas, terminou com a própria vida quando viver se tornou um tédio insuportável.


    Podemos mergulhar na vida deste americano seguindo vários ângulos: os livros, as mulheres, as guerras mundiais, o jornalismo, os locais por onde passou. Tudo foi impressionante na sua vida. 

    No campo da literatura, Hemingway atinge o Olimpo em 1954 quando ganha o Nobel da Literatura "pela mestria da sua arte narrativa, demonstrada em O Velho e O Mar, e pela influência que exerceu no estilo contemporâneo." Para além deste romance, o escritor nascido no estado do Illinois assinou “Por quem os sinos dobram” (fruto da sua marcante experiência enquanto repórter, durante a Guerra Civil espanhola), “O Adeus às Armas” e “O Jardim do Éden”. O romance foi o seu género de eleição embora também tenha publicado contos e pequenas histórias. 

    As mulheres são outro eixo fundamental da vida de Hemingway. Casou com quatro: Elizabeth Hadley Richardson, a jornalista de moda Pauline Pfeiffer, a destemida repórter Martha Gellhorn e, finalmente, a pacífica - também jornalista - Mary Welsh. Pelo meio, há ainda a registar alguns casos amorosos, uns mais tórridos que outros. Razão tinha o seu amigo Scott Fitzgerald quando lhe disse: “você precisa duma mulher para cada livro”. Não era bem o caso, mas quase…


Hemingway e Gelhorn

     Hemingway amava a adrenalina dos grandes acontecimentos. Tinha que estar presente, vivê-los e depois contá-los. Alistou-se no exército americano para estar presente na I Guerra Mundial, mas um problema de saúde afastou-o. Não se deu por vencido e conseguiu chegar ao teatro de operações como… motorista duma ambulância da Cruz Vermelha. Quando a Guerra Civil espanhola eclode, ele faz questão de a cobrir como repórter de guerra. É desse tempo a sua relação com a excitante Martha Gelhorn que trazia à sua vida afetiva uma animação digna de nota. Durante a II Guerra Mundial monta, em Cuba, uma rede de espiões com o objetivo de munir os Aliados de informações sobre os fascistas europeus.

   Além da literatura, Hemingway amava o jornalismo. Escrever histórias reais, que interessavam ao quotidiano dos seus contemporâneo empolgava-o muito. Tirou o curso de jornalismo e exerceu a profissão durante praticamente toda a sua vida. Premiando a sua categoria enquanto repórter mas também o seu indisfarçável talento literário, ganhou em 1953 o Prémio Pulitzer, o mais conceituado galardão norte-americano que premeia trabalhos nas áreas do jornalismo, literatura e música.

Hemingway e Fidel Castro

    Falar de Hemingway sem falar de Havana (Cuba) e Pamplona (Espanha) é um lapso que não se pode cometer. Na cidade espanhola aprendeu a gostar de touradas e a entender os castelhanos, com quem estabeleceu uma relação afetiva e ideológica, pois aí afirmou a sua simpatia pelo republicanismo de esquerda. Cuba desperta-lhe a paixão pelo mar, pelos amigos, pelo rum e inspira-o a escrever “O Velho e Mar”.
     Quando decidiu terminar com a sua vida, Hemingway não era velho, mas já tinha vivido muito.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 1 de julho de 2014

MONTY PYTHON



Os Monty Python regressam aos palcos trinta e quatro anos após a sua última atuação!
Não se trata de humor nonsense, mas duma notícia. O grupo está de regresso aos palcos para alguns espetáculos em Londres. O primeiro será hoje e “esgotou” em 44 segundos.

O grupo de comediantes deliciou o público britânico entre 1969 e 1980 com os seus sketches dum humor inesperado, ousado e sem sentido. São eles que vendem a ideia duma loja de queijo que tem tudo menos queijo ou que põem um homem (John Cleese) numa loja de animais para reclamar do papagaio que ele comprara e estava morto, enquanto o dono da loja (Michael Palin) tenta provar que o papagaio estava apenas a descansansar. Haverá muitos de nós que recordam o sketche em que Hitler visita Inglaterra ou a cena em que mostra um homem (John Cleese), presumidamente rico, a dar a sua opinião sobre o que fazer com os menos favorecidos.

O grupo dos cinco (John Cleese, Terry Giliam, Michael Palin, Terry Jones, Eric Idle) era inicialmente um sexteto, mas em 1989, Graham Chapman acabou por falecer. Além dos sketches televisivos onde criaram uma inovadora maneira de fazer comédia do absurdo, também cantavam canções por si compostas e fizeram cinema. Monty Python e o Cálice Sagrado (1975) ainda hoje é considerado um dos melhores filmes de sempre do cinema britânico. Nele, o grupo fazia humor com algumas cenas da história de Cristo. Também são de assinalar os filmes A Vida de Brian (1979) e O Sentimento da Vida.

No entanto foi na televisão que o grupo constituído por quatro ingleses, um galês e um norte-americano conquistou legiões de fãs quer na Grã-Bretanha quer nos EUA. A série “Malucos do Circo” esteve em cena durante cinco anos (1969-1974) e marcou um antes e um depois dos Monty Python. A comédia e o humor passaram a ter que considerar o nonsense com uma forma inteligente de fazer rir o público. Pelo inesperado, pelo absurdo, pelo arrojo, o público rendia-se e continuou a render-se!

Os Monty Python influenciaram centenas de humoristas. Em Portugal, os Gato Fedorento são confessos admiradores deste estilo de fazer comédia. Há algumas décadas, Mário Viegas tinha atuações profundamente marcadas pelo nonsense.

Hoje, o grupo honra a sua matriz de comediantes do absurdo e… regressa ao palco. Mais hilariante é os seus membros marcarem apenas uma atuação por pensarem que o seu regresso seria um desastre. 

Gabriel Vilas Boas