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quinta-feira, 11 de junho de 2015

A CRIADA DE COZINHA, de VERMEER


Johannes Vermeer é um famoso pintor holandês do século XVII. Não são muitos os dados que dispomos sobre a vida do famoso autor de “Rapariga com Brinco de Pérola”. Sabemos que ingressou no Grémio de São Lucas de Delft ainda antes de fazer vinte anos. Pintava à razão de dois quadros por ano e por isso a obra deste pintor que chegou até nós é apenas composta por 34 telas, muitas delas estão em mãos de particulares.
As suas obras representam interiores domésticos holandeses, protagonizados sobretudo por mulheres a trabalhar, a ler ou a tocar um instrumento.
O seu domínio da pintura a óleo dotou as suas composições de um ambiente leve e atemporal que o diferencia de outros autores do género, como é o caso do seu contemporâneo Pieter de Hooch.
Uma das obras de Vermeer que o Museu de Rijks de Amesterdão mais se orgulha de possuir é a CRIADA DE COZINHA, propriedade do museu há mais de um século e adquirida com a ajuda da Sociedade de Rembrandt.
Este quadro é um dos mais célebres deste artista. Em 1719, o quadro ficou conhecido como “A famosa leiteira de Vermeer van Delft, artística”, pois o seu preço, nesse ano, atingiu importantes 175 florins, um valor muito elevado para a época.


Há outros autores, como Gerard Dou ou Nicolas Naes, que também abordam o tema das criadas nas suas pinturas, mas fazem-no com uma mordacidade ausente das composições de Vermeer. O pintor holandês, à semelhança de Pieter de Hooch, gosta de composições mais delicadas.
Nesta tela pode ver-se a criada deitar o leite de um jarro para uma grande tijela de barro de duas asas, de uma forma muito asseada. A criada, vestida com o seu vestido de trabalho, com uma touca, está a olhar para baixo completamente concentrada na sua tarefa, sem que nada a distraia.
A sala é de uma simplicidade acolhedora, estando todos os elementos relacionados com as tarefas da criada: na mesa está um pequeno pano azul que condiz com a saia da criada. Junto à tijela está um jarro de porcelana branca e azul, típico de Delft, que contrasta com a rusticidade dos restantes objetos, como a cesta de vime que está pendurada numa das paredes da divisão.
É interessante observar como Vermeer utilizava aquelas que seriam as suas cores preferidas: o azul e o amarelo nas suas diversas variações, alcançando a sua expressão máxima no já citado “Rapariga com Brinco de Pérola”.

Nesta composição do pintor holandês cabe salientar três pormenores. Junto à cesta de vime pendurada na parede, vê-se uma tijela dourada que, apresenta brilhos intensos, acentuando a capacidade de Vermeer para a recriação de qualquer elemento.
Por outro lado, o jorro de leite, vertendo para dentro da tijela de barro, é notável, pois possui uma espessura e textura quase táteis. Naquela época, o leite possuía conotações religiosas, sendo reconhecido como um alimento “puro”, na Bíblia.


Por último, a cesta, que se encontra sobre a mesa, e os pães, que estão espalhados sobre a mesma, têm um grande realismo, podendo o espetador ver as tranças da cesta, assim como as diversas texturas do pão. Este também possui alusões de caráter espiritual, pois Cristo chamou a si próprio “o Pão da Vida”.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DA RAPARIGA COM BRINCO DE PÉROLA


Rapariga com Brinco de Pérola ou  Rapariga comTurbante, Johannes Vermeer,
n. datado, óleo s/ tela, Mauritshuis, Haia
Chamou-me a atenção uma notícia, já com algumas semanas, de que a tela de Vermeer, “Rapariga com Brinco de Pérola”, havia regressado a Haia, ao Museu Mauritshuis, depois de ter estado exposta em vários museus internacionais. Esta é uma das obras mais apetecidas do nosso pintor de hoje, apelidada de “A Gioconda do Norte”, graças à aura de mistério que a envolve, a recordar as personagens de Leonardo, à inimitável cor destacada pelo fundo escuro, em modo Caravaggio, à sua textura suave e delicada tão preciosa em Vermeer.
Vermeer. Mestre da luz. Nascido em 1632,em Delft, este pintor contribuiu em definitivo para a afirmação da idade de ouro da pintura holandesa. Consegue como ninguém dotar os seus quadros de uma tranquilidade especial graças às qualidades que incute na luz com que os ilumina, uma luz misteriosa, natural, serena, envolvente. O caráter intimista com que trata as suas personagens trazem às suas obras uma poética invulgar de luz e de cor ,de sentimento e de mistério.
Cézanne, seu fiel admirador, provocou nos críticos de arte uma curiosidade e busca incessantes pela obra deste artista, ”escondido” durante dois séculos, absolutamente esmagado por Rembrandt e outros pintores do célebre século de ouro holandês.
Mas o primeiro a “descobrir” Vermeer foi o crítico francês Thoré Burger, em 1866.O conhecimento da sua obra aprofunda-se então de tal modo que a crítica de arte não hesita em reconhecer “ a perspetiva de Vermeer como fonte de inspiração das abstrações de Mondrian e dos interiores de Fernand Léger”.
O Museu Mauritshuis ocupa um belo edifício do século XVII, em Haia, e reabriu há poucos dias atrás, após importantes obras de restauro e expansão. Visita obrigatória para os admiradores, como eu, da designada Idade de Ouro da pintura holandesa, onde podem ser apreciadas obras de Rembrandt como A Lição de Anatomia do Dr Tulp ou a Vista de Delft de Vermeer, quase impressionista, senão a primeira obra verdadeiramente impressionista, tem no entanto, como centro principal das atenções uma rapariga e um pintassilgo, duas telas celebrizadas graças ao simples facto de terem sido o pretexto para dois romances de sucesso. Tracy Chevalier publicou , em 1999 ,um romance histórico centrado na tela de Vermeer, no qual a musa do pintor é uma empregada chamada Griet, que Scarlett Johansson depois interpretará no filme Rapariga Com Brinco de Pérola, de Peter Webber. O mistério permanece, no entanto. Quem é a linda serviçal? E porque usará ela um brinco tão nobre, reservado apenas às senhoras de alta estirpe? Tracy Chevalier percorre com criatividade e imaginação o trilho de vida desta misteriosa personagem e descreve de forma ficcionada os seus encontros e desencontros com o pintor.

Já O Pintassilgo, óleo de pequenas dimensões de Carel Fabritius, discípulo de Rembrandt e mestre de Vermeer, e o súbito interesse do público por esta pintura, também no centro de um romance intitulado The Goldfinch, de Donna Tartt, causa maior estranheza. Mas o que é certo é que estas duas obras convidam à visita e estão em destaque numa das salas mais nobres daquele museu imperdível de Haia. 

Museu de Mauritshuis, Haia
As férias tão desejadas estão aí à espreita. Boa altura para uma incursão pela pintura de ouro holandesa, numa das cidades mais cosmopolitas da Europa. Fica a sugestão. Entretanto, deliciem-se, como eu, com a banda sonora do filme “Girl  With a Pearl Earring” do compositor Alexandre Desplat, que deu o mote a este humilde texto de hoje. Há músicas que tem o dom de nos acalmar e esta é uma delas.

Rosa Maria Fonseca