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sábado, 15 de maio de 2021

MÁ INFLUENCER

 


poucos dias, um casal de influencers comunicou aos seus influenciados que, afinal, já não ia adotar uma criança tailandesa, como planeava, porque foram informados que não podiam expor o rosto da criança, nas redes sociais, durante o primeiro ano da adoção. Sorte da criança, pois, apesar de não ganhar uns pais adotivos tolos, não perdeu o estatuto de ser humano. 

Na  sua superficialidade, este casal confessou o que os move: a publicidade, a imagem, a aparência. Ia adotar uma criança tailandesa, porque isso lhe pareceu bem para a sua imagem de influencers e de youtubers, e não porque quisessem ser pais tivessem  ou um genuíno desejo de cuidar daquela criança. 

Os influencers são uma das imagens de marca da sociedade do século XXI, que assume a imagem e a aparência como conteúdo fundamental. Faz-se isto ou aquilo porque supostamente é cool ou alguém tipificou aquela atitude como "de grande valor social". 

Um influencer vive mais do desejo de reconhecimento do outro do que da vaidade própria. Há um absurdo desejo de ser reconhecido, amado, considerado, que se aceita seguir tendências, gostos ou atitudes dos outros acriticamente e que nada têm que ver connosco. Aceita-se sem pensar e sem sentir. Aceita-se ser carneiro com o sonho de um dia ser pastor do rebanho, sem pensar que está na coragem de seguir o seu próprio estilo o  caminho para ser definido como único, admirado e considerado.

Não sei que futuro terá aquele bebé, mas sei que, para já, não desceu ao estatuto de «coisa fofa», pronta a render muitos likes, muita publicidade a marcas de roupa de bebé, muitas ideias tolas sobre qual deve ser o papel de um pai ou de uma mãe.

Gabriel Vilas Boas  

sábado, 16 de março de 2019

SE DEREM OS FILHOS PARA ADOÇÃO, MÃES IMIGRANTES NÃO SERÃO EXPULSAS DE ESPANHA

Leio o título e ficou automaticamente chocado. Tenho de voltar a ler com cuidado, pois parece-me irreal. Abro a notícia e leio-a com cuidado. Não há engano. Procuro outras fontes, mas as piores expectativas confirmam-se. Nada há de faccioso no título.

"O Partido Popular (PP) espanhol propõe que as imigrantes ilegais em Espanha que deem os seus filhos para a adoção não sejam expulsas do país. A medida polémica faz parte da estratégia do PP para combater a descida da natalidade em Espanha, e está a ser anunciada na campanha do líder do partido, Pablo Casado. 
Segundo a proposta, se uma mulher que estiver em Espanha sem documentação decidir entregar o seu filho para a adoção, passa a ficar protegida da deportação, ainda que por tempo limitado (podendo ainda, no futuro, vir a ser mandada para o seu país de origem, apesar de já ter abdicado do filho), adianta o jornal La Vanguardia . 
Atualmente, a lei prevê um mecanismo que conduz, automaticamente, as mulheres para fora do país, se, estando em situação irregular, esta entregar o seu filho - e é este mecanismo que o PP pretende desativar, se vencer as eleições. 
O partido argumenta que a medida está a ser bem-sucedida na Comunidade de Madrid (uma comunidades autónomas da Espanha, localizada no centro do país), e que deve ser alargada a nível nacional.", TSF

Quando um partido, como o PP, com as responsabilidades sociais e políticas que tem na sociedade espanhola, faz uma propostas destas algo vai muito mal na cabeça daquela gente. 
Há no mundo muitos países com um deficiente grau de desenvolvimento humano, onde não há democracia, liberdade de expressão nem os direitos são iguais entre homens e mulheres ou para todos os grupos sociais, étnicos ou religiosos, mas não me lembro de nenhum que criasse uma lei onde as mulheres/mães europeias a residir ilegalmente no país pudesseM adiar alguns meses a deportação se dessem os seus filhos para adoção.

Quem propõe aquilo que o PP espanhol propõe não sabe o valor de um filho, não percebe nada de dignidade humana, não pode almejar ser o representante de povo nenhum.
A melhor resposta a esta abjeta proposta do partido de Pablo Casado deu-a a presidente da Câmara de Barcelona, Ada Calau: "Machistas. Racistas. Classicistas. Só nos faltava sequestradores de crianças. Fascistas."

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

AQUELES QUE NINGUÉM QUER



Apesar de haver muitos casais que querem adotar crianças, cerca de metade das elegíveis ficam por adotar. A verdade é que há uma imensa maioria de crianças institucionalizadas que ninguém quer. Na maioria dos casos, a razão não se diz mas pressente-se: não corresponde aos padrões idealizados pelas famílias que querem adotar.
A adoção é um processo de empatia mútuo que se constrói lentamente e não é possível constranger ninguém a aceitar quem não quer, portanto, o melhor é pensar noutro instituto (que não a adoção) para as crianças institucionalizadas.

As instituições de acolhimento fazem o melhor que podem, mas podem pouco e delas não podemos esperar o amor que uma família pode dar. É verdade que as instituições estão pejadas de crianças difíceis  e cheias de problemas, mas temos de ser mental e culturalmente abertos a outras realidades.


Não sendo possível cativar famílias para adotar crianças mais velhas, talvez seja possível encontrar famílias que ajudem numa integração parcial das crianças institucionalizadas, na sociedade, ou seja, que assumam um compromisso intermédio de inserção.
É óbvio que esse processo de aproximação a uma realidade familiar pode fracassar e tem alguns contras, mas também é verdade que pode permitir que milhares de crianças institucionalizadas crescem de maneira mais saudável e harmónica.

Estas famílias de acolhimento temporário podiam evoluir para famílias definitivas e adotantes, mas não teriam obrigação de o fazer.
Esperar que a instituição dê tudo aquilo que um adolescente/jovem precisa é utópico; achar que uma família de acolhimento temporário redunda quase sempre em maior perda emocional futura é um preconceito. Precisamos de tentar novas fórmulas, porque há muitas crianças que ninguém quer e a quem o Estado dá uma resposta… pequenina.

GAVB

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ADOTAR À EXPERIÊNCIA


No Dia Mundial da Criança, o jornal «O Público» trazia, num canto da primeira página, uma notícia triste, inesperada… chocante: “no último ano, 43 crianças adotadas foram devolvidas! Cerca de metade delas tinha menos de dois anos”.
DEVOLVIDAS! Exatamente como um objeto a quem detetamos um defeito ou sobre o qual perdemos o interesse.

“Eh pá! Desculpem lá, mas enganei-me! Já não queremos brincar mais às mães e aos pais! Esta coisa dá muito trabalho! A criança chora muito; não nos deixa sair com os amigos; dá uma despesa danada! Olhem, já não o quero mais! Fiquem com ele! Foi uma experiência gira, mas ser pai e mãe não é para mim!”


Quarenta e três devoluções! O número não está errado! Dá quase uma devolução por semana!
O problema não pode estar só nas instituições que decidem confiar naquele casal que tanto queria adotar aquele bebé. O problema tem de estar em quem acha que quer adotar e poucos meses depois muda radicalmente de opinião. Decidir adotar uma criança tem de ser uma decisão ponderada, amadurecida, consciente de todas as implicações emocionais, sociais, financeiras envolvidas. Está em causa a vida de alguém que já sofreu uma separação afetiva e não pode, não deve sofrer mais nenhuma.

Quem brinca às adoções como se de uma peça de vestuário se tratasse não merece muito respeito da comunidade, ainda que a sua ação não constitua crime algum.
O inusitado número de crianças adotadas devolvidas no último ano deve merecer das instituições que promovem a adoção uma reflexão sobre os critérios de atribuição da adoção a casais candidatos.
Só num ano mais de quatro dezenas de crianças ficaram emocionalmente marcadas por mais uma rejeição. Ninguém é capaz de calcular a extensão dos danos, mas certamente eles serão grandes.
«Se não podes ajudar, não prejudiques!»

GAVB 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

NÃO TEM CASA NEM EMPREGO? ENTÃO, FICA SEM A FILHA


“Sinto-me pequenino perante tamanha onde de solidariedade. Tenho orgulho de pertencer a este povo.”

Num momento de dor e revolta, ao ver um tribunal retirar-lhe a filha porque não tinha casa nem emprego, um pai conseguiu salientar a nobreza de carácter da gente anónima que o ajudou a encontrar casa e emprego rapidamente, de molde a obstar à monstruosa decisão do Tribunal de Família do Porto, que decretou a retirada de uma criança ao seu progenitor, enviando-a para adoção.
O Tribunal podia argumentar com o desleixo do pai, com a sua impreparação para cuidar da filha, com a sua conduta moral… mas não podia invocar a falta de casa e a situação de desemprego do pai.
Quantas mães e pais não estão na mesma situação? Onde na lei está escrito que se deve retirar uma filha a um pai ou mãe por falta de habitação e emprego? Um juiz que decide de tal maneira não pode estar à frente de um tribunal que determina o futuro de menores, tamanha é a insensibilidade e desumanidade revela.

Portugal tem centenas, milhares de crianças abandonadas pelos pais, maltratadas, abusadas, que merecem a atenção e a intervenção judicial, em sua defesa, mas esta criança tinha um pai que queria cuidar dela, que a queria acolher e bem tratar, apesar da sua débil situação económica. Este pai não rejeitava a sua filha, não a tinha maltratado e foi honesto, ao relatar ao tribunal a sua situação. Em vez de decretar um apoio social extraordinário a este pai, o tribunal decide dar a sua filha para adoção. Não consigo entender, aceitar, perdoar uma atitude destas.
Felizmente, temos uma população com um sentido de justiça e de humanidade superior a alguns juízes, que não deixou os valores essenciais da nossa sociedade à mercê de uma atitude incompreensível, para ser eufemístico...

Não é o senhor Armando Sousa (pai) que tem de se sentir pequenino, mas o seu orgulho nas pessoas que corrigiram esta injustiça é perfeitamente justificável. 
Gabriel Vilas Boas

domingo, 10 de abril de 2016

SER DE ALGUÉM


Há umas semanas a “Notícias Magazine” publicava um interessante trabalho sobre as crianças abandonadas que ninguém quer adotar nem sequer acolher. Nessa reportagem referia-se que as famílias portuguesas estão menos disponíveis para acolher crianças em risco. E perde-se por quê – estas crianças vêm cheias de “defeitos”: umas consomem drogas, outras têm um passado ligado ao roubo, quase todas têm a escola da rua, nenhuma cresceu numa família minimamente estruturada.

O trabalho é muito mais profundo e difícil do que educar - é preciso reeducá-las! Trabalho hercúleo e muitas vezes inglório, pois não é nada certo que estas crianças/adolescentes adiram ao “programa” nem que o “programa reeducacional” seja o mais adequado às suas necessidades.
Quando reflito em alguns casos, cuja realidade conheço, há duas/três ideias que se repetem: estas crianças precisam de Amor incondicional; estas crianças precisam de limpar as dolorosas mágoas deixadas pela família que as abandonou; estas crianças precisam de pertencer a alguém. É mais do que ser amadas por alguém, é ser de alguém! Uma espécie de casa afetiva de onde nunca terão de partir; um refúgio onde encontrem aconchego emocional após mais uma recaída.

Estas crianças / adolescentes almejam contar para a vida de alguém, fazer parte dela e tornarem-se vitais. A maioria de nós só experimenta este estado de orfandade na velhice, quando a morte levou todos aqueles que amávamos e nos impôs a solidão. É horrível crescermos conscientes da nossa total e absoluta irrelevância afetiva. Ninguém nos espera para jantar; ninguém sofre por causa dos nossos insucessos; ninguém se preocupa connosco. É inevitável que mais dia, menos dia perguntemos: Para onde corremos? Por que corremos?
Uma criança abandonada, daquelas que ninguém quer sequer acolher, sente tudo isto ao cubo!
Ser de alguém, contar como elemento estrutural na vida de alguém é fundamental. Carregamos imensos tesouros todos os dias e não nos damos conta do seu valor. Umas vezes cometemos a loucura de os desprezar, outras vezes depreciámo-los ou simplesmente desbaratámo-los. Há experiências que não vale a pena viver – só de ver já marca o suficiente.

GAVB