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quinta-feira, 28 de abril de 2016

O PEDITÓRIO CULTURAL



Um jornal titulava «Já é nosso», outro agradecia com um sentido «Obrigado» - no mundo da cultura portuguesa vai uma alegria pueril e incontida pelo sucesso do peditório nacional para a compra, por parte do Museu Nacional de Arte Antiga, do quadro de Domingos Sequeira “A Adoração dos Magos”.
É, de facto, uma boa notícia, mas a satisfação generalizada que perpassa nos jornais e nas redes sociais é cruelmente esclarecedora quanto à realidade da cultura portuguesa.
O sucesso desta operação pública de mecenato popular mostra que a sensibilidade artística dos portugueses tem uma base social mais alargada, que a sociedade se consegue mobilizar economicamente para aquisição de uma obra de arte de autor português. E não há nada de melhor quando o público “constrói” o espólio dos seus museus porque isso revela interesse, amor à arte, capacidade de decisão quanto aquilo que é importante para o bem comum.

No entanto, a “salvação” do quadro de Domingos Sequeira expõe também toda a fragilidade económica do mais importante museu português assim como a inexistência de uma política cultural, por parte do governo, que evitasse este espetáculo deprimente de um peditório nacional para comprar um quadro de pouco mais de meio milhão de euros. Pode até ser enternecedor, mas certamente também é caricato e humilhante.
Estamos a falar de 600 mil euros! Como é possível um ministério da cultura não ter um plano de investimentos que permita aos museus nacionais adquirir obras de arte com algum valor de mercado, de molde a enriquecer o seu acervo e assim atrair mais visitantes? O valor em causa era tão baixo que que o MNAA nem deveria precisar de qualquer ajuda estatal ou privada para fazer esta aquisição, mas a nossa realidade económica, quando falamos de cultura, é esta.

Quando comparo este heroísmo popular na aquisição da tela de Domingos Sequeira com os “azares” dos nossos bancos privados (que fomos obrigados a resgatar), não deixo de sentir uma enorme revolta, porque Portugal só não tem dinheiro para investimentos necessários e úteis, já que para acorrer a trafulhices que correram mal há sempre verba.

Hoje passam 151 anos que nasceu o grande pintor naturalista José Malhoa. A sua obra-prima, Fado, datada de 1910 ilustra bem o seu génio e essa mentalidade pequenina e submissa dos portugueses, que os impede de avançar.
Mantemos aquele fatalismo e saudade que Malhoa pintou há cem anos e por muito cosmopolitas que sejam os nossos banqueiros não deixamos de ser uns pobres magos enganados que continuam a adorar o menino errado.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 21 de março de 2016

O MELHOR DE MIM, de Mariza



O final do ano de 2015 trouxe um novo álbum de Mariza, após cinco anos de paragem, e a expetativa era enorme entre todos aqueles que apreciam a cantora assim como no mundo do fado nacional.
O álbum “Mundo”, produzido por Javier Limón, cumpre mas não deslumbra. A canção mais emblemática do novo trabalho de Mariza – O Melhor de Mim – concentra toda a sua força na letra e na voz de Mariza.

No refrão, Mariza proclama que o seu melhor "ainda está para vir" e talvez seja verdade. 
Mariza não sabe cantar mal e a interpretação desta música traz aquela voz triste e doce que identifica a alma lusitana que canta o fado. A letra acompanha essa ideia quando anuncia que “É preciso perder / para depois se ganhar / E mesmo sem ver / Acreditar”, como se a dor, a provação fizessem obrigatoriamente parte da felicidade ou toda a alegria tivesse que ter sempre o seu quinhão de tristeza. Não tem que ser obrigatoriamente assim! Qualquer dia destes, alguém conseguirá quebrar este fado mental que nos apouca…

Ainda que se proclame uma fé inabalável em melhores dias ("O Melhor de mim ainda está para chegar” / “Acreditar”), esse otimismo parece ser pouco sustentado em qualquer atitude proactiva ou ação do ser humana. Talvez não fosse má ideia que as canções dos nossos melhores artistas procurassem desafiar esta lógica de tristeza congénita que espera sentada na margem a chegada de novos e melhores dias e decreta que pouco mais se pode fazer do que esperar.
A potente e límpida voz de Mariza não nasceu apenas para o fado. O melhor registo de Mariza está no álbum “Terra”, onde a cantora se aproxima mais de um registo de World music e presenteia o público com músicas belíssimas onde as raízes africanas de “Beijo de Saudade” se cruza com a alma fadista lisboeta de “Alfama” e “Minha Alma”, ao mesmo tempo que revela uma Mariza confiante no seu peculiar registo como acontece em “Se eu mandasse nas palavras”.
Vale a pena ouvirmos “O Melhor de Mim”. Não é o melhor de Mariza, mas é uma bela canção. Lá encontramos parte da nossa alma e da nossa tristeza sem razão que parece que nos impulsiona mas na verdade apenas justifica antecipadamente o nosso fracasso presente.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 27 de abril de 2015

ANTÓNIO ZAMBUJO


Despertei para o "fenómeno musical" António Zambujo há três anos, através de dois amigos, a Rosa Maria Pereira e o António Augusto, que me mostraram a música de um alentejano de voz delicada, doce e cristalina.
Num concerto realizado em Estarreja, verifiquei, in loco, toda a qualidade musical de um cantor excecional, que funda a sua música algures entre o cante alentejano e o fado.
Ao ouvir António Zambujo, repara-se logo naquela profunda serenidade alentejana que lhe transparece na voz, no à vontade com o público, na bela simplicidade das coisas bonitas e grandes, que jamais se confunde com banalidade.
Zambujo tem o alentejo na voz e o fado na alma. Da fusão destes dois mundos tão portugueses se faz a música do filho predileto de Beja.


A experiência dum concerto de Zambujo é algo de inolvidável, porque Zambujo tem simultaneamente uma música cheia de memória lusitana e de inovação, já que o cantor sabe, perfeitamente, quando deve emergir a personalidade única da sua voz, o som da guitarra portuguesa ou a ousadia marota das suas letras.
Sabe tão bem ao espírito ouvir “Modas Alentejanas” que damos por nós a entoar “fui a encontrar no jardim aquela mulher que eu amo”, que nem percebemos que já nos fundimos com a música e ela penetrou na nossa alma.
Depois há também o Zambujo que inocentemente nos convida a dar uma voltinha na sua “Lambreta”, num convite/pedido tão carinhoso e insinuante que é difícil resistir à sedução de uma música que nos conquista pela delicadeza, pela depuração sonora, pela facilidade com que mostra a simplicidade e beleza da vida.  
É difícil escolher qual a música de Zambujo que mais gosto. Entre a poesia da “Moda Alentejana”, o êxito de “Lambreta”, a ousadia de “Flagrante” e a preciosidade de “Em quatro Luas”, a escolha é muito difícil.
Como quase todos já deram uma voltinha na Lambreta do alentejano, proponho-vos a letra de Em “Quatro Luas” e a música de “Flagrante”.




“À janela corre o tempo
Na memória o esquecimento

E a vontade de ficar
Em teus braços distraídos
Entreabertos nos sentidos
Do teu corpo a meditar
O desejo que esqueci
Dorme agora ao pé de ti

No teu sonho a murmurar
Guardo a luz da tua pele
Duas rosas, vinho e mel
Quatro luas sobre o mar

Volto atrás nesta viagem
À procura da coragem

Que renasce de te ver
No regresso da saudade
 Eu encontro a felicidade
                                                                             Que por ti vou aprender”

Gabriel Vilas  Boas

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CARLOS DO CARMO, GRAMMY LATINO





“Gostava de vos dizer que sou português, um país muito antigo, com uma características muito particulares e com um povo para o qual dá muito prazer cantar” 

Foi com estas magníficas palavras que Carlos do Carmo se apresentou, há poucas horas, em Las Vegas para receber o Grammy Latino de Carreira, que premeia o fadista português pela excelência da sua carreira musical, o fado e a cultura portuguesa. 

É, talvez, o momento mais alto da cultura portuguesa durante este ano de 20014. No meu entender, este prémio consagra não apenas a voz extraordinária de Carlos do Carmo, mas também o fado, em todo o seu esplendor e beleza como uma das marcas indeléveis da cultura portuguesa.

Fiquei muito satisfeito por Carlos do Carmo ter centrado o seu discurso de agradecimento, deste relevante prémio, no seu povo. Gostemos ou não deste estilo musical, o fado é um pouco da alma portuguesa. Há nele toda a melancolia triste e doce dos portugueses, o seu destino sofrido, a beleza e profundidade dos seus sentimentos. Ligar o prémio aos portugueses foi duma enorme grandiosidade e generosidade por parte de Carlos do Carmo.



O homem que já canta o fado profissionalmente há mais de meio século não deixou também de falar do Fado e explicou que “Não é possível cantar o fado sem uma profunda paixão. Sem uma profunda dádiva do coração. Fala do amor. Da tristeza. Dos sentimentos. Da vida.”

Hoje, ouvi as várias entrevistas que Carlos do Carmo gravou para as principais rádios portuguesas. Surpreendeu-me quando referiu que este prémio não era a “cereja no topo do bolo” da sua carreira, pois considerava que esse momento foi alcançado há dois anos, quando a UNESCO considerou o Fado património imaterial da Humanidade. Também por isto o filho da grande fadista Lucília do Carmo merece o seu aplauso. 



No discurso de agradecimentos, o fadista português falou ainda da sua Lisboa, dos grandes poetas e dos excelentes compositores lusitanos, sem esquecer os notáveis músicos com que foi atuando ao longo da carreira. Convidou a audiência a vir a Lisboa e a visitar o museu do Fado. Disse tanto sobre nós, serenamente, apaixonadamente, comovedoramente… 

Hoje o Fado saiu engrandecido, a cultura portuguesa ficou mais rica e Portugal ganhou mais um motivo para sentir orgulho. O causador disso tudo foi um senhor de setenta e cinco anos que se chama Carlos do Carmo. Parabéns!

Gabriel Vilas Boas


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

AO SOM DE... AMÁLIA RODRIGUES


Faz hoje precisamente quinze anos que morreu Amália Rodrigues, o expoente máximo do fado. Amália trouxe para o fado poemas de grandes autores portugueses. Com a sua belíssima voz, cantou a poesia de Camões, Bocage, Pedro Homem de Mello, David Mourão Ferreira, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill e outros. Sem a voz de Amália nunca alguns poemas se tornariam tão conhecidos e populares. Alguns escreveram propositadamente para Amália cantar, enriquecendo o seu repertório e dando à sua voz as palavras certas e delicadas que a música acabava por adornar e emoldurar. A parceria com o compositor Alain Oulman, que compunha e musicava muitos dos poemas  que Amália cantava foi sempre muito profícua.
Amália teve uma grande projeção internacional, levando o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo e por isso mesmo lhe atribuíram o epíteto de melhor embaixadora de Portugal no mundo. Foi uma mulher forte, corajosa, lutadora e que cantava a saudade com a saudade que realmente sentia, com alma, entrega e determinação. Levou longe a nossa língua e a nossa cultura.
Tornou-se um ícone do fado, ao usar sempre vestidos compridos pretos e  xailes negros por cima. Esta imagem tornou-se uma imagem de marca das fadistas da época. Adoptou também uma nova postura no fado, ao interpretar as canções colocando-se em destaque, à frente dos guitarristas. 
A casa onde viveu, na Rua de S. Bento, em Lisboa está transformada em Casa-Museu e assim os seus visitantes podem conhecer o ambiente em que Amália viveu e apreciar os seus objetos pessoais tais como vestidos, joias, quadros e tapeçarias. Para além desta casa em Lisboa, Amália gostava muito do litoral alentejano e ali construiu uma casa com vista para o mar na aldeia do Brejão, onde descansava durante largas temporadas e após as suas extenuantes tournées pelo estrangeiro. Esta casa, projetada pelo arquiteto Conceição e Silva na década de 60 está agora aberta ao público como casa de turismo rural.
O que é importante hoje, após os 15 anos da sua morte, é que a sua voz continua a ouvir-se nas inúmeras gravações discográficas que nos deixou. E se há uma canção nacional, a nossa, sem dúvida nenhuma, é o fado. Amália continua a ser uma referência para os fadistas da atualidade e não raras vezes ouvimos as canções que Amália cantou na voz de jovens e talentosos fadistas.
Que se continue a ouvir Amália sempre.
Para audição, proponho Povo que lavas no rio, poema de Pedro Homem de Mello e música de Joaquim Campos para a voz única de Amália.
Margarida Assis