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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NOS OUTROS, O PODER É SEMPRE FABULOSO



Quem nunca teve grande poder pensa que se faz maravilhas com ele, que todos os problemas se resolvem através dele e, sobretudo, que se faz o que nos apetece com ele. Não é verdade.
Depois de o ter nas mãos, ele perde grande parte do seu fascínio. Afinal, não podemos fazer o que nos apetece e acrescentou-nos um terrível encargo – responsabilidade.
Quando o temos, todo o poder nos parece pouco, insuficiente, cheio de condicionantes, mas o verdadeiro desafio é saber usá-lo.
O poder que determina e muda a vida das pessoas não é nenhum brinquedo ou guloseima, mas o prato principal que alimentará a vida de muita gente. Deve ser usado com inteligência, sentido de justiça e oportunidade, ser consequente.

Um poder que se diverte a satisfazer egos é redutor e em pouco tempo se esfumará. 
Não é qualquer pessoa que tem capacidade para exercer o poder, ainda que isto não faça dessa pessoa melhor que ninguém. Embora nem toda a gente tenha talento para exercer o poder, há muita gente capaz de o fazer com competência. Por isso, devemos, sempre que possível, rodá-lo de mão, e saber rejeitá-lo quando insistem que peguemos o cetro mais tempo do que o recomendável.
Ao exercer o poder mais tempo do que o desejável, corremos o risco de nos tornarmos autistas, autoritários, burocratas, insensíveis, ditadores. 
Ter o poder não pode/não deve ser um projeto de vida. Quando tal acontece, a vida tornou-se num deserto sem esperança. O vento frio das noites gelar-nos-á o coração e tudo o que fizermos terá pouco sentido.

Antes que o poder te devore, entrega-o, como se ele fosse a tocha olímpica, consciente que fizeste a tua missão. Só assim terá sido um prazer, um privilégio, uma honra tê-lo possuído.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 18 de dezembro de 2016

BEBER É UM DIVERTIMENTO PEQUENINO


Nunca entendi o grande prazer de apanhar uma bebedeira. Beber até cair não é divertido e duvido que saiba realmente bem. No entanto, grande parte do convívio social faz-se à sombra de um copo. Para uns basta um; para outros quantos mais melhor.
Mas melhora o quê? A qualidade da conversa? Não me parece… Dir-me-ão que a bebida liberta, desinibe o corpo e a mente, todavia não é certo que seja agradável o resultado dessa libertação inconsciente. Faremos coisas ousadas, mas também algumas constrangedoras. Dificilmente levarão a sério o que dizemos ou fazemos; serão mais aqueles que terão pena do que aqueles que nos acharão uns heróis.

Não percebo os jovens que bebem. A alegria está neles e não na bebida. Há formas mais ousadas de sedução e transgressão.
É curioso perceber como eles bebem em quantidade e elas preferem a qualidade e a diversidade. Sempre achei que dificilmente um rapaz causaria boa impressão numa rapariga emborcando quinze cervejas numa noite. Já elas são mais exigentes com a oferta do barman, procurando fugir do álcool, quando conseguem dizer (e pagar) o que querem. O que poucos dizem é que beber foi o melhor da noite.

Beber não é o passaporte para nada! Beber é baixar o nível da diversão.

Nos dias de hoje, alguns restaurantes estão a implementar a prática da “refeição sem telemóvel”; gostava que houvesse um bar que tivesse a coragem de promover a “noite sem álcool”. Isso sim, seria verdadeiramente cool.
GAVB


sábado, 17 de dezembro de 2016

O PODER DESTRUTIVO DO “MAS”


A palavra “mas” é das palavras mais mal usadas na sintaxe do português. Usa-se muitas vezes sem critério, sem reflexão, sem  propósito, subvertendo por completo o seu sentido – introduzir uma ideia/oração de sentido contrário à antecedente.
         Mas pior que o seu mau uso é o efeito que ela produz. Quem já não experimentou o anticlímax, altamente destrutivo do “mas” ao ouvir:
Tens imenso talento, mas falta-te uma melhor afinação de voz; O seu curriculum é extraordinário, mas não estamos a contratar; Tens imensas qualidades, mas deixei de gostar de ti; Obtiveste ótimos resultados, mas não sabes tocar piano como a filha da minha colega…
Usamos o “mas” para nos desculparmos, para iludir a nossa falta de coragem, para assumir uma escolha, um gosto, um corte de relações.
Para quem ouve, aquele “mas” é igual a um “não”. Querem lá saber que apareça vestido caridosamente de “mas”.
Há momentos em que devemos deixar o “mas” no dicionário e começar a nossa frase pelo “Não” que queremos dizer.
A um adversário podemos dar luta, mas há “mas” que apenas têm pena de ti, que te tentam amaciar a tristeza ou a fúria.
Quem usa este “mas” não é nenhum tonto ou ignorante, antes conhece perfeitamente o sentido correto da conjunção. Saber usar as palavras certas no momento certo não pode ser apenas uma arte, também tem de ter um sentido ético e humano. Há momentos em que o “mas” não faz falta nenhuma.

Gavb  

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O ADEUS DE JÔ SOARES


Aos 78 anos Jô Soares, o popular humorista e entrevistador brasileiro, retira-se de cena.
Milhares de pessoas passaram pelo divã do “Gordo”, respondendo às suas perguntas: umas vezes provocatórias, outras incisivas, algumas paternalistas, muitas vezes “normais”.
Dos programas de Jô, o povo brasileiro esperava sempre o sumo doce de uma boa entrevista regada com humor. E normalmente, Jô Soares dispunha bem os seus convidados e o seu público.


No meio de mais de quinze mil entrevistas algumas correram mal. Nem sempre o humor corre bem aos humoristas e o público acha que “as suas piadas não tiveram graça” ou o entrevistado sentiu-se menosprezado. É um risco que o humorista corre, especialmente quando se mantém largos anos frente à câmara e todos os dias tem que “inventar a roda”, que é como quem diz criar a magia necessária que os faça rir, até da própria desgraça.
Jô Soares marcou um tempo e gerações, no Brasil do final do século XX. Um pouco à imagem do que aconteceu com Herman José, ele foi o “regime”, o status quo do humor e da entrevista no país do samba, do carnaval e do futebol.
Como seria natural o Brasil transformou-se. Talvez as piadas de Jô já não produzam o efeito do passado, mas é inegável a sua importância social e cultural, dentro da sociedade brasileira. Através dele, os brasileiros ouviram os seus ídolos, os seus presidentes, os seus artistas e desportistas e até figuras mundiais como Gorbachev. Ninguém seduziu tanto o povo como ele.
Agora que o caminho acabou, é obrigatório dizer-lhe “Muito Obrigado Jô, foi uma honra, um prazer tê-lo por companheiro estes últimos trinta anos!”
Gavb  




quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O JULGAMENTO DE ADOLF EICHMANN


Adolf Eichmann é daqueles homens que fica na História do século XX pelos piores motivos: ele foi o burocrata nazi, cujo trabalho era organizar o transporte do maior número de judeus para os campos de morte, no mínimo tempo possível. E nisso ele foi desgraçadamente competente.
Em 1942, Eichmann participara na célebre reunião em que se discutiu o tema da “Solução Final”, onde as altas patentes do regime nazi decidiram o assassínio massivo dos judeus.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Eichmann conseguiu escapar à captura dos Aliados e fugiu para a Argentina, onde viveu incógnito até 1961, altura em que foi capturado e levado para Israel para ser julgado.
Durante o julgamento, Eichmann alicerçou a sua defesa no argumento de que se limitou a seguir ordens, mas de nada lhe valeu, pois viria a ser condenado à morte, em 15 de Dezembro de 1961 e executado meio ano mais tarde.
A cobrir o julgamento para o New York Times, a filósofa alemã Hannah Arendt fez notar a vulgaridade de Eichmann assim como o seu não arrependimento.

«À beira da morte [Eichmann] encontrou o cliché usado na oratória fúnebre. Sob o patíbulo, a sua memória pregou-lhe uma última partida; estava «exultante» e esqueceu que aquele era o seu próprio funeral.»
Mais tarde, a mesma Hannah Arendt voltou a esta figura sinistra.
«O problema com Eichmann era precisamente o de muitos serem como ele, e não serem nem pervertidos nem sádicos, mas de serem terrível e assustadoramente normais. Do ponto de vista das nossas instituições legais e dos nossos padrões morais de julgamento, esta normalidade era muito mais aterradora do que todas as atrocidades no seu conjunto, porque tal implicava - como foi dito em Nuremberga vezes sem conta pela defesa e pelos seus advogados - que este tipo de criminoso, que é de facto um inimigo da humanidade, comete os seus crimes em circunstâncias que lhe tornam quase impossível saber ou sentir que aquilo que faz está errado.»  


Eichmann é o claro exemplo da banalidade do mal de que a filósofa alemã falava.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

VITÓRIA CHORA A MORTE DO PRÍNCIPE ALBERTO



O príncipe Alberto, marido da rainha Vitória, faleceu a 14 de Dezembro de 1861, supostamente vítima da febre tifoide, lançando a rainha num profundo desgosto, que durou até ao final da sua vida, pois vestiu de negro até ao último dos seus dias.
Depois de desabafar com seu tio Leopoldo I (sempre um grande confidente e apoio da rainha), Vitória decidiu afastar-se da vida pública. Saía pouco; visitava a capital inglesa raramente, o que lhe valeu muitas críticas da população, que não entendiam quanto aquele coração ficara destroçado com a morte do grande amor da sua vida.  

As ideias republicanas nasceram do descontentamento da população pelo luto extremo de Vitória.
À medida que o tempo foi passando, a rainha foi convencida a assumir uma postura mais atuante. O Parlamento atribuiu-lhe o título de «imperatriz da Índia», em 1877, tornando-a uma figura central do império e procurando reabilitá-la aos olhos da população.
Um amor como o de Vitória e Alberto é raro entre monarcas. Raramente os casamentos reais saíam do convencional “contrato de interesses” entre casas reais, mas Alberto e Vitória selaram o seu acordo com o carimbo do amor.
Durou pouco tempo o enlace (Vitória ficou viúva aos 42 anos), mas o suficiente para florescer um grande amor. Enquanto foi viva, Vitória procurou manter os projetos, os planos, os desejos, a perspetiva sobre as coisas que Alberto tinha, pois além do grande amor que os unia, a rainha admirava muitíssimo o seu esposo como pai, esposo e rei.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A CORAGEM E A CHANTAGEM



Embora pertençam a lados bem distintos, estas duas atitudes emparceiram muitas vezes. Quando se é corajoso, não há chantagista que se atreva; caso contrário, o caminho vai estar repleto de pedras. Quanto mais hesitares, mais violenta se torna a chantagem e nada ganharás em lhe ceder. Amanhã haverá outra condição, depois outra… os termos do acordo estarão sempre a mudar.
Quem não é muito decidido pensa sempre que a culpa é sua; que as exigências até são razoáveis. Muitas vezes não são! O problema é que aquele que é aparentemente pouco determinado sente-se sempre em falta; pensa que o problema é sempre seu.
O mais engraçado é que um chantagista não costuma ser um tipo muito corajoso, mas fareja muito bem a falta de coragem do outro. Enquanto põe a tónica na atitude do outro, não tem de se confrontar com as suas fraquezas.

Toda a chantagem tem um ponto fraco: a não cedência do outro. A falta de coragem também traz dissabores enormes: grandes oportunidades escapam-se mesmo à frente dos nossos olhos. No entanto, é bom ter presente que as grandes oportunidades não nascem de chantagens.


Não ceder ao “aqui e agora”, ao “ou é à minha maneira ou não é” é um ato de enorme coragem. Muitas vezes começa-se por perder muito, por sofrer imenso, vive-se muitos dias com a dúvida “e se eu tivesse cedido, não estava melhor?”. Não, não estava.
Se o negócio fosse realmente interessante para os dois, ele poderia ter esperado mais uns dias; se tu fosses realmente importante não te exigiam, mas ajudavam-te a decidir favoravelmente.

A chantagem é um enorme desafio para quem não gosta de cortar a direito e fazer cortes abruptos, mas, por vezes, é o click involuntário que liberta a coragem que muitos julgavam não ter.
GAVB