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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DOIS ANJOS ÀS PORTAS DO INFERNO


No domingo passado escapei, por pouco, a uma situação angustiante, potencialmente perigosa, e que me deixou muito revoltado.
Pouco depois do almoço, seguia descontraidamente para Aveiro, quando uma simples aviso nos painéis de informação da A29 me deixou sobressaltado: devia sair, na última saída antes da A25, pois a autoestrada estava cortada devido a incêndio. 
Quando cheguei à saída indicada, encontrei uns pinos na autoestrada a indicar o desvio, mas nenhum agente policial a impedir o meu avanço nem qualquer viatura da concessionária da autoestrada. Estranhei, mas lá segui pela  N109 até Aveiro, onde passei a tarde e à noite estive assistir à Supertaça de Futebol.

Entretanto, através de alguns amigos que chegaram muito para além do previsto a Aveiro, fui-me apercebendo que centenas de pessoas ficaram presas na A1 (sobretudo) e na A29 (muito menos), cercadas pelo perigo das chamas, pelo calor insuportável – mais de 40 graus - sem nenhuma ajuda da Brisa, entre o pânico e o sufoco.
Em conversa com alguns amigos, vários falaram-me de um casal que distribuía garrafões e garrafas de água pelos automobilistas e passageiros à beira do colapso físico na principal autoestrada do país. Todos louvaram e engrandeceram atitude humanitária daquele casal, mas também comentávamos o perigo em que aquelas pessoas estiveram durante mais de 300 minutos. 
Não apenas o perigo da desidratação, mas também a exposição à ameaça do incêndio. Como é que as autoridades policiais não criar uma válvula temporal de segurança de maneira a tirar aquelas centenas de carros do troço que queriam cortar? Se o fogo saísse fora de controlo dos bombeiros, como fugiriam aquelas centenas de pessoas exaustas, sem grandes pontos de fuga e com autênticas bombas relógio entre mãos?

No meu entender, a Brisa e a Brigada de Trânsito não falharam apenas na falta de auxílio humanitário às pessoas expostas ao calor infernal, mas também em terem exposto toda aquela gente ao perigo, porque do pânico não se livraram elas.
Sobre o casal que passou a toda a tarde de domingo a levar água, calma e esperança àquele inferno que se instalou na A1, há muita gente que jamais esquecerá o gesto tão tocante e sublime ele foi.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 9 de agosto de 2016

DOZE ANOS A TRABALHAR PARA O BRONZE


«EU VIM PARA FICAR»
Há muito tempo que Tema Monteiro está no coração e no orgulho dos portugueses. Tem uma carreira linda, recheada de medalhas de ouro, prata e bronze, obtidas em Campeonatos da Europa e do Mundo, e uma força de viver que transparece em cada combate.
Tal como Ronaldo, Telma não é um epifenómeno. Mais de uma década ao mais alto nível: umas vezes vencendo, outras subindo ao pódio, outras ainda perdendo claramente, mas nunca desistindo dos seus propósitos.
Quem acompanha minimamente a carreira de Telma Monteiro sabia como a judoca se sentia “incompleta” por não ter alcançado nenhuma medalha nas três olimpíadas em que participou. Ontem, finalmente, conseguiu pôr ao peito um bronze olímpico que lhe fica a matar. 

Comemorou-o como se tivesse sido campeã europeia ou mundial, o que revela bem o valor que ela dá aos Jogos Olímpicos. Para muitos atletas, as Olimpíadas ainda são a competição mais importante em que podem competir e ainda bem que assim é. 
Os Jogos Olímpicos têm uma dimensão pessoal, social e desportiva que mais nenhuma competição alcança, por mais mediática ou exigente que seja. Obter um pódio olímpico é mais que vencer, é triunfar, é obter a glória que aproxima da imortalidade.
Telma é um exemplo de talento, esforço, dedicação, positivismo. Com as devidas distâncias, que o mediatismo do futebol face ao do judo impõe, comparo-a muito a Cristiano Ronaldo. Os dois são um belo exemplo dos desportistas portugueses atuais: talentosos, lutadores, confiantes, consistentes, ambiciosos. Não descansam sobre os louros nem se deixam abater no inêxito.
O desporto de alta competição é feito de vitórias e de derrotas, não de triunfalismos bacocos nem de fatalismos irracionais. Com Telma e Ronaldo deixámos de ganhar “quando o rei faz anos” e começamos a vencer como os campeões: frequentemente.

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

AS PEGADAS DAS PESSOAS QUE ANDARAM JUNTAS NUNCA SE APAGAM



O título repete para um provérbio africano que nos recorda o extraordinário valor da amizade, do companheirismo, da saudade de um passado feliz.
Com muita frequência “metemos” a felicidade nessa infância/adolescência em que éramos felizes sem o sabermos, mas a verdade é que o nosso discurso já não consegue sair desse «eu» que nos perdeu. Uma das chaves da felicidade era muitas das nossas frases começavam em «nós». A nossa turma, o nosso grupo de amigos ia para o rio em manda, no verão; esperavam uns pelos outros; todos desejam o sucesso do parceiro… e por aí diante. Até que achámos que a nossa afirmação se devia pela exclusão dos menos qualquer coisa! E a vida fez-nos a vontade com requinte.

Olhámos com saudade as pegadas que fizemos, sabemos de cor os donos daquelas marcas no tempo, porque elas ficaram tatuadas na alma de cada um, mas achamos uma ingenuidade retomá-las. Não é ingenuidade, é pouca inteligência e medo de falhar.
Não se trata de recuperar literalmente os heróis do passado, procurando que eles nos façam novamente felizes, mas apenas restaurar a fórmula de sucesso. Não encontramos ninguém em quem confiar? Todos nos parecem maus e egoístas? Temos receio de fazer papel de tontos? Convém lembrar que o grupo que nos fez felizes não foi escolhido a dedo. Nele havia todo o tipo de camarada e na altura nem os achávamos nada de especial, todavia não eram…  egoístas, medrosos, traiçoeiros. Pois… temos mais medo daquilo em que nos tornámos que força e coragem em buscar aquilo que desejámos.
Ontem escrevi que para ser diferente é preciso coragem e para fazer diferença necessitamos de muita competência. Nunca descobriremos se temos ou não competência para voltarmos a «nós» se não tivermos coragem de tentar.

GAVB  

domingo, 7 de agosto de 2016

SER DIFERENTE: CORAGEM E COMPETÊNCIA

Uma vez ouvi de um amigo “É preciso coragem para se ser diferente e muita competência para se fazer a diferença”. Não aprofundámos a conversa, mas aquela frase ficou na memória como uma pequena joia que voltaria a olhar demoradamente.
Foi hoje que voltei a ela. Ser diferente não é uma questão de moda nem de conveniência, por isso costuma trazer mais problemas que elogios. Ser diferente é algo de intrínseco e genuíno, impõe-se à nossa vontade e bate de frente com a realidade que nos rodeia. Muitas vezes, uma realidade que amamos e por isso as críticas magoam.
Ser diferente é muito diferente de “ter a mania que se é diferente”. As manias passam ou acomodam-se, a diferença procura licença para sobreviver. Assumir a diferença é aceitar fazer o papel de um deficiente numa cidade cheia de barreiras arquitetónicas à plena mobilidade.
A assunção da diferença exige coragem, porque, ainda que a diferença seja nossa, ela inquieta e questiona os outros. Dificilmente a diferença pode fugir da luta, do constrangimento ou da inveja, no entanto ela é profundamente solitária.
Mais difícil do que ser diferente é fazer a diferença! Como dizia o meu amigo, mais do que coragem, exige competência. Se a temos, devemos ter a coragem de avançar, se não a temos devemos ter a humildade de não “inventar”. Não devemos confundir coragem com competência. A competência é a combinação certa entre trabalho e talento. Costumamos pensar que o talento é raro, mas os mais flagrantes casos de incompetência aconteceram por falta de esforço. Um talento sem trabalho é como um diamante por lapidar: às vezes, nem o próprio percebe a riqueza que tem entre mãos.  
Coragem e competência – atributos raros, preciosos e difíceis de encontrar na mesma pessoa. Não é por acaso que a DIFERENÇA as aprecia.

GAVB

sábado, 6 de agosto de 2016

VOCÊ TEM TODA A RAZÃO



Millôr Fernandes, o maior frasista brasileiro, costumava dizer que, por mais forte que fosse o argumento contrário, havia sempre uma resposta que calava a boca de qualquer um: você tem toda a razão.

Muitas vezes, esta é a maneira mais inteligente de terminar uma discussão que começa a ficar “feia”, manter a paz entre dois amigos ou simplesmente perceber que o outro tinha mesmo razão. Infelizmente, a última hipótese é a mais rara. 



Quando entramos numa dada discussão/debate sobre qualquer tema, raramente colocamos a hipótese (por mais académica que seja) dos nossos argumentos serem mais fracos ou de “o outro ter razão”. Ora, é tão possível termos razão como aquele com quem debatemos. Erradamente, entendemos a fraqueza dos nossos argumentos como como frouxidão pessoal e lutamos por eles como se a nossa honra estivesse em jogo. E está, mas apenas quando não somos capazes de perceber o óbvio e sinceramente dizer “Você tem toda a razão”. Claro que a troca de argumentos deixa de fazer sentido; evidentemente que o nosso interlocutor “ganhou” o debate, mas há mais debates para vencer e a conversa não conhece apenas a faceta da controvérsia. 

Normalmente só quando não somos parte envolvida, vemos que, por vezes, há mais grandiosidade no reconhecimento da vitória do outro que no consciente teimar de uma posição errónea. 

No entanto, Millôr quis chamar a nossa atenção para o lado perverso da expressão “Você tem razão”. Na maioria dos casos, ela não é o reconhecimento do mérito do outro, mas uma maneira de o menorizar, chamando a atenção dos outros para a forma cega como é incapaz de ver a razão do seu interlocutor. 
Admiravelmente, a estratégia resulta, porque a nossa vaidade excede largamente o discernimento e torna-nos motivo de chacota. Somos muito permeáveis ao elogio alheio e nem tratamos de discernir sobre a sua autenticidade. Como poderia dizer alguém que discutia connosco violentamente há segundos atrás “Você tem toda a razão”? A vaidade daquela pseudo vitória ofusca-nos o entendimento e não damos conta do logro. 

Se estivéssemos naturalmente habituados a ganhar e a perder debates, não nos sentiríamos com a nossa honra constantemente em xeque e talvez ninguém tivesse a coragem de nos desrespeitar tanto, fingindo dar-nos razão.
gavb

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

RIO 2016 - Citius, Altius, Fortius


Daqui a pouco, ao som da lindíssima «Garota de Ipanema» de Tom Jobim, ficam oficialmente abertos os Jogos Olímpicos do Rio -2016. Pela primeira vez na história do olimpismo, um país de língua portuguesa organiza o maior evento desportivo do planeta. Essa honra cabe ao Brasil.
Apesar do trauma desportivo do Mundial de 2014, da crise económica que o país atravessa, da corrupção politica que derrubou Dima e Lula, hoje, o Brasil tem que maquilhar a tristeza e sorrir para o mundo. “Deixar a tristeza pra lá”, ainda que a vida não vá melhorar, pois há três semanas de festa em que os brasileiros têm de mostrar de que alma são feitos.


Claro que as perspetivas não são as melhores. Em termos organizativos, o caos é enorme e a possibilidade de descalabro está ao virar da esquina. Se pensarmos no impacto económico dos Jogos, os brasileiros apenas esperam que não seja negativo, quando o balanço se fizer.


Nos últimos tempos, tudo parece correr mal ao Rio 2016: a classe política chafurda na espessa lama da corrupção e envergonha o país; o vírus Zika põe a proverbial fogacidade brasileira em sentido; a criminalidade afia os dentes; os atrasos e falhanços organizativos não param de ser notícia; o povo anda triste e deprimido… mas os Jogos são uma oportunidade única e irrepetível. Mais do que as medalhas que o orgulho brasileiro possa conseguir, mais do que uma organização exemplar que os brasileiros nunca conseguiriam, a única maneira de tornar os Jogos do Rio grandes e maravilhosos (como a cidade) é os brasileiros envolverem-se neles. Assistirem às diversas modalidades, lotarem os eventos, prestigiarem o espírito olímpico com o seu entusiasmo e a sua alegria de viver que tanto cativa quem os visita.


Os brasileiros, que nasceram com um sorriso no rosto e alegria na alma, têm uma oportunidade única de se mostrar ao mundo, colorindo as bancadas, fazendo a festa, glorificando os vencedores, honrando os vencidos. Quando os Jogos passam o que fica é atmosfera que se criou durante três semanas. Londres foi uma desilusão pela envolvente comercial; o Rio pode ser um descalabro organizativo ou um carnaval inesquecível. Cabe aos brasileiros escolher.

P.S. Na cerimónia de abertura estará uma comitiva de dez elementos, que participam nestes Jogos debaixo da bandeira Olímpica. São Refugiados. Dois nadadores sírios, dois judocas congoleses, um corredor etíope e cinco sudaneses participam nestes jogos sob a bandeira do COI (Comité Olímpico Internacional). Todos eles tiveram de deixaram os seus países devido a perseguições e à guerra. Além dos portugueses, são aqueles por quem torcerei.

Gabriel Vilas Boas   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

PONTUALIDADE FEMININA


Todas as mulheres são pontuais, mas cada uma tem a sua. Tenho uma colega que costuma dizer, com graça, que “antes atrasada do que mal-arranjada” e provavelmente esta é a razão principal da ausência de pontualidade de muitas mulheres.
Claro que há os filhos (eternamente pequenos), a loiça do pequeno-almoço, uma última arrumação de qualquer bibelô pretensamente fora de sítio, o trânsito caótico (ainda que tenha vindo de metro), mas a verdadeira razão para a maioria dos atrasos foi a indecisão quanto ao vestido a usar naquela manhã, um último retoque na maquilhagem, a tortuosa escolha dos sapatos adequados…

Qualquer marido ou namorado já passou pela inesquecível experiência de ver os minutos a passar, a hora do compromisso a chegar enquanto a sua companheira dava mais um retoque na pintura ou decidia à última hora trocar de visual. Alguns ainda tentam o famoso truque de sugerir que o evento «afinal, começa uma hora mais cedo», mas raramente resulta, porque horário de festa é como receita de bolo, mulher sabe de cor. Também há aquelas que gastam qualquer reserva de tempo, por mais larga que ela seja.
O problema da pontualidade feminina, quando em causa está uma festa, um encontro com amigos, um jantar especial, não se resolve – aceita-se. Até porque se evapora por completo quando há um avião para apanhar, um livro de ponto para picar, uma multa para pagar.
Um homem que se habitua ao ritmo do relógio da sua companheira ganha anos de vida. Convém é manter a pose de algum aborrecimento, não vá ela achar que “até se demorou pouco” e da próxima vez alargar o conceito de “já te disse há meia hora que eram só cinco minutos!”
Gavb