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sábado, 10 de dezembro de 2016

ACEITAR A DERROTA


Há uns anos, poucos antes de entrar para uma conferência, Mário Soares, em tom descontraído, perguntou a Carlos Magno:
- Ouça lá, quantos anos você tem?
- Quarenta.
- Quarenta?! Aos quarenta, eu era imortal!
Sim, a sensação de imortalidade é o grande truque que nos faz viver enquanto o mundo dos outros se desmorona. No entanto, ao contrário do que Mário Soares dizia, é por volta do quarenta anos que a nossa imortalidade fica mais relativa. Aqueles que amamos abanam, alguns caem, e percebemos o que significa perder.

E há derrotas que não têm nenhuma lição como brinde, que sabem profundamente mal, que não encaixamos nem queremos encaixar, que nos deixam sem grande vontade de levantar e prosseguir caminho.

Não há amigo que nos levante ou companheiro que nos alegre, porque elas não têm remédio. Na melhor das hipóteses deixam uma grande cicatriz na alma.
Sabes A., gostava imenso de ter escrito sobre a Fénix Renascida, de aludir à maravilhosa e incrível história de mais um milagre, mas não sinto que os tempos sejam de milagres apesar de estarmos no Natal.


Florbela Espanca escreveu, certo dia, o belíssimo soneto “Perdi os meus fantásticos castelos” que termina de uma maneira sublime:



“Sobem aos meus lábios súplicas estranhas…
Sobre o meu coração pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas mãos vazias…”

Quando se perde alguém ou simplesmente se sente que essa perda está por horas e é inevitável, a sensação de vazio é tão real quanto insuportavelmente dolorosa. E no entanto, a nossa rainha tinha gostado imenso que apanhássemos o cetro tombado no chão e mantivéssemos, ao vento, a bandeira do reino, na mais alta torre do castelo.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

AS PEGADAS DAS PESSOAS QUE ANDARAM JUNTAS NUNCA SE APAGAM



O título repete para um provérbio africano que nos recorda o extraordinário valor da amizade, do companheirismo, da saudade de um passado feliz.
Com muita frequência “metemos” a felicidade nessa infância/adolescência em que éramos felizes sem o sabermos, mas a verdade é que o nosso discurso já não consegue sair desse «eu» que nos perdeu. Uma das chaves da felicidade era muitas das nossas frases começavam em «nós». A nossa turma, o nosso grupo de amigos ia para o rio em manda, no verão; esperavam uns pelos outros; todos desejam o sucesso do parceiro… e por aí diante. Até que achámos que a nossa afirmação se devia pela exclusão dos menos qualquer coisa! E a vida fez-nos a vontade com requinte.

Olhámos com saudade as pegadas que fizemos, sabemos de cor os donos daquelas marcas no tempo, porque elas ficaram tatuadas na alma de cada um, mas achamos uma ingenuidade retomá-las. Não é ingenuidade, é pouca inteligência e medo de falhar.
Não se trata de recuperar literalmente os heróis do passado, procurando que eles nos façam novamente felizes, mas apenas restaurar a fórmula de sucesso. Não encontramos ninguém em quem confiar? Todos nos parecem maus e egoístas? Temos receio de fazer papel de tontos? Convém lembrar que o grupo que nos fez felizes não foi escolhido a dedo. Nele havia todo o tipo de camarada e na altura nem os achávamos nada de especial, todavia não eram…  egoístas, medrosos, traiçoeiros. Pois… temos mais medo daquilo em que nos tornámos que força e coragem em buscar aquilo que desejámos.
Ontem escrevi que para ser diferente é preciso coragem e para fazer diferença necessitamos de muita competência. Nunca descobriremos se temos ou não competência para voltarmos a «nós» se não tivermos coragem de tentar.

GAVB