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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

UMA CONTAGEM SINISTRA QUE NUNCA MAIS ACABA


Três, seis, dez mortos. Depois vinte, vinte e sete, vinte e nove pessoas que perderam a vida. Trinta e um, mais um e outro ainda. Desligo o computador, mas é impossível aquietar a alma, porque ainda não acabou. Percorro o olhar triste dos muitos com que me cruzo e sinto a derrota silenciosa da gente dorida. Ligo a televisão agora – “trinta e seis mortos confirmados, mas ainda há os desaparecidos e os feridos graves”.
E cada vez que o contador sinistro se mexe é mais um soco brutal no corpo exaurido, ensanguentado, destroçado que é Portugal.

Já não suporto mais ouvir desculpas indignas, nem aproveitamentos políticos, nem explicações transcendentais. É capaz de ser um pouco de tudo, mas isso agora importa-me pouco. Depois de Pedrógão, essa impossibilidade que foi possível, as mortes desta madrugada não podiam ter acontecido… mas aconteceram.
Não preciso de uma proteção civil que me mande desenrascar, de um governo que mande os bombeiros para casa com temperaturas constantemente acima dos 20 graus, só porque o calendário diz que estamos em Outubro. Então, se estiver a chover em Agosto, não abro o guarda-chuva? E se o calor invadir os dias de Dezembro não dou um belo passeio pela praia?  

Importam-me pouco as condolências, os funerais de estado, as belas exéquias, as preocupações de quem tinha apenas de garantir que não tínhamos de nos preocupar. 

Dizem-me agora que não voltará a acontecer. Realmente não: não há mais pinhal de Leiria para arder, não há mais como recuperar as vidas que se perderam, não há mais confiança num Estado que não sabe proteger a vida dos seus cidadãos.
GAVB


domingo, 13 de agosto de 2017

CAMPEÕES EUROPEUS DA PIROMANIA


Há um ano, Portugal rejubilava com o primeiro Campeonato Europeu de futebol ganho por uma seleção portuguesa. Um título há muito desejado e que encheu de orgulho toda a nação. Infelizmente há outras áreas em que somos campeões europeus (e, quem sabe, campeões do mundo...) - a dos incêndios florestais é a mais evidente.
Ontem, um amigo brasileiro procurava, estupefacto, um comentário meu acerca da seguinte notícia: https://www.sapo.pt/noticias/economia/ja-arderam-122-mil-hectares-desde-janeiro-30-_5979f880d112255733dd2648.

 Não sabia que lhe responder, mas senti uma grande vergonha. «Um terço!!!»  Como é possível!?, tendo em conta a pequenez do nosso território no contexto europeu, as muitas autoestradas que temos no território nacional, os propalados brandos costumes portugueses.
Acho que todos nós sabemos que mais de 80% dos incêndios florestais, em Portugal, tem origem criminosa e todos temos a sensação que passam impunes. 

Sim, a prevenção é mal feita; sim, há enorme descuido e desleixo na limpeza das matas públicas e privadas; sim, a proteção civil é ineficaz; sim, a secretaria da administração interna parece uma barata tonta na coordenação; sim, faltam meios aos bombeiros… tudo isto e mais alguma coisa são causas verdadeiras dos muitos incêndios que existem em Portugal e da enorme área ardida no território nacional, desde que haja uns dias de calor e vento, mas não a causa principal. 

A causa principal é que existe cada vez gente absolutamente doente, que não ama o seu país e tem verdadeiro prazer em vê-lo arder. Essa gente é portuguesa, vive no meio de nós e até é capaz de cantar o hino e chorar com os golos do Ronaldo, mas quando chega o Verão não tem pejo nenhum em destruir mais de 120 000 campos de futebol de floresta; não lhe dói a aflição dos vizinhos que perdem o magro pecúlio angariado durante uma vida, que perdem meios de subsistência, casa e outros haveres; não lhes pesa as mortes nem o sofrimento.
Como diria o meu amigo brasileiro, infelizmente, Portugal tem muitos portugueses que não gostam do seu país e até são capazes de o pôr arder.

GAVB

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

DOIS ANJOS ÀS PORTAS DO INFERNO


No domingo passado escapei, por pouco, a uma situação angustiante, potencialmente perigosa, e que me deixou muito revoltado.
Pouco depois do almoço, seguia descontraidamente para Aveiro, quando uma simples aviso nos painéis de informação da A29 me deixou sobressaltado: devia sair, na última saída antes da A25, pois a autoestrada estava cortada devido a incêndio. 
Quando cheguei à saída indicada, encontrei uns pinos na autoestrada a indicar o desvio, mas nenhum agente policial a impedir o meu avanço nem qualquer viatura da concessionária da autoestrada. Estranhei, mas lá segui pela  N109 até Aveiro, onde passei a tarde e à noite estive assistir à Supertaça de Futebol.

Entretanto, através de alguns amigos que chegaram muito para além do previsto a Aveiro, fui-me apercebendo que centenas de pessoas ficaram presas na A1 (sobretudo) e na A29 (muito menos), cercadas pelo perigo das chamas, pelo calor insuportável – mais de 40 graus - sem nenhuma ajuda da Brisa, entre o pânico e o sufoco.
Em conversa com alguns amigos, vários falaram-me de um casal que distribuía garrafões e garrafas de água pelos automobilistas e passageiros à beira do colapso físico na principal autoestrada do país. Todos louvaram e engrandeceram atitude humanitária daquele casal, mas também comentávamos o perigo em que aquelas pessoas estiveram durante mais de 300 minutos. 
Não apenas o perigo da desidratação, mas também a exposição à ameaça do incêndio. Como é que as autoridades policiais não criar uma válvula temporal de segurança de maneira a tirar aquelas centenas de carros do troço que queriam cortar? Se o fogo saísse fora de controlo dos bombeiros, como fugiriam aquelas centenas de pessoas exaustas, sem grandes pontos de fuga e com autênticas bombas relógio entre mãos?

No meu entender, a Brisa e a Brigada de Trânsito não falharam apenas na falta de auxílio humanitário às pessoas expostas ao calor infernal, mas também em terem exposto toda aquela gente ao perigo, porque do pânico não se livraram elas.
Sobre o casal que passou a toda a tarde de domingo a levar água, calma e esperança àquele inferno que se instalou na A1, há muita gente que jamais esquecerá o gesto tão tocante e sublime ele foi.

Gabriel Vilas Boas