Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta comunismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comunismo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

MARCELO FOI VER FIDEL


Fidel tornou-se na grande atração turística de Cuba. Uma espécie de Torre Eiffel de Paris ou Buckingham Palace de Londres. Hoje, os líderes políticos mundiais vão a Cuba para ver Fidel como quem vai a um museu ou decide visitar um monumento. Faz parte do roteiro de qualquer presidente ou primeiro-ministro visitar esta lenda viva do comunismo mundial.
Desgraçadamente, Fidel tornou-se num fóssil vivo, num dinossauro da política mundial in stricto sensu, ao lado de quem se gosta de tirar fotos, para depois contar aos amigos “Eu estive com Fidel, em Cuba!”
Ninguém vai a Cuba para falar com Raul Castro ou para saber dos cubanos (como eram hipócritas as nossas preocupações com a falta de liberdade dos cubanos em tempos de Fidel, o humano) ou para estabelecer relações bilaterais.
Obviamente, Marcelo nada disse do que conversaram porque não se conversa com um monumento. Sorri-se a seu lado, tira-se fotos, aperta-se a mão, tem-se aquelas conversas cheias de nada.


O grande erro/problema de Fidel aconteceu há quarenta anos, quando era vivo, e recusou viajar, conhecer gente, observar mundo além das ideias que ganhou nas montanhas com Che Guevara.  
Em Cuba tudo cristalizou lentamente: Fidel, o comunismo, a economia e a sociedade. Não lamento a agonia de Fidel e do seu comunismo, porque ambos escolheram o seu caminho, mas tenho imensa pena dos cubanos que passaram anos e anos a ver o futuro cada vez mais longínquo a desenhar-se magnificamente a poucas milhas de distância. 
Ao contrário do que pensa Fidel, o líder cubano não amava verdadeiramente os seus compatriotas nem queria o melhor para eles.
Os cubanos não eram (nunca foram) tontos nem ingratos. Gostavam de Fidel, alguns até do comunismo, mas acima de tudo amavam a liberdade de ver, sentir, conhecer, escolher. Isso só se consegue quando nos permitem viajar, abandonar a "nossa ilha" e conhecer outros lugares, outras pessoas, outras ideias.
Fidel nunca saiu da ilha que criou e onde sequestrou a aqueles que dizia amar. 
Gabriel Vilas Boas.

sábado, 13 de junho de 2015

ÁLVARO CUNHAL, O ROSTO DO COMUNISMO PORTUGUÊS


Passam catorze anos que as ruas de Lisboa se encheram para se despedir de uma das figuras mais míticas da história política portuguesa do século XX: Álvaro Cunhal.
A par de Oliveira Salazar, Cunhal marcou do ponto de vista político, social e ideológico Portugal, durante o século passado. Ele foi o rosto do comunismo português, antes e depois da revolução de abril de 1974, que devolveu a liberdade de expressão e a democracia ao nosso país.

A admiração dos portugueses por Álvaro Cunhal ultrapassa, e muito, aquela que temos pelo comunismo.
Quando Cunhal largou a política ativa, em 1992, deixando a liderança do PCP para Carlos Carvalhas, eu ainda não tinha direito a voto. E a ideia que me passavam sobre o líder comunista era que ele representava os “maus”; a sua hipotética e académica subida ao poder, em Portugal, representaria uma espécie de regresso à idade das trevas, onde a ditadura substituiria a democracia por muitos anos. Cunhal era o anjo negro da jovem democracia portuguesa e os comunistas “comiam” criancinhas ao pequeno-almoço.
Rapidamente procurei documentar-me, formar a minha opinião, com base em factos, e perceber por que Cunhal era tão odiado e… amado! Cheguei a algumas conclusões que ainda hoje continuam válidas para mim.

A maior relevância política de Cunhal foi feita nos tempos da ditadura salazarista, quando a sua coragem intelectual e física se fez sentir ao afirmara a ideologia comunista no seio de uma ditadura fascista. Cunhal enfrentou Salazar e tornou-se a luz que alumiava todos aqueles que procuravam devolver a liberdade de expressão a Portugal. Não se vergou e, destemido, organizou, na clandestinidade, o Partido Comunista Português, ao mesmo tempo que dava esperança a todos aqueles que não se identificavam com a ditadura de Oliveira Salazar.
Foi nessa altura que nasceu o mito Cunhal. Durante essas décadas de escuridão democrática, Álvaro Cunhal granjeou grande parte da admiração que muitos portugueses com mais de quarenta anos ainda hoje mantêm por ele. Essa admiração terminou para muitos, quando, após o 25 de abril de 1974, Cunhal nunca desmentiu claramente a ideia que Mário Soares um dia soube sintetizar: o PCP queria implementar, à força, em Portugal, o comunismo made in URSS, ou seja, levar o país para uma ditadura de esquerda, onde a democracia seria letra morta. Cunhal estava capaz de sacrificar a liberdade e a democracia em prole do comunismo.

Acho que Cunhal estava certo quando disse que o fim do comunismo desequilibrava perigosamente a correlação de forças entre as diversas potências mundiais, mas errado, ao não reconhecer o falhanço do modelo comunista. Cunhal era um homem culto e inteligente e por isso não lhe louvo a coerência ideológica. O modelo comunista tinha colapsado e Cunhal nunca aceitou isso. Ele quis impor o comunismo aos seus compatriotas, mesmo perante a recusa destes, mesmo face a todos os equívocos da ideologia de Marx. Isso não é coerência, isso é teimosia.
Hoje, Cunhal é quase um fóssil histórico-político e é pena. Os mais jovens terão dificuldade em situar corretamente a relevância social, política e histórica do nome mais importante do comunismo português do século XX. Por mim, gosto de recordar o que cada um dá de melhor ao seu país e por isso prefiro lembrar Álvaro Cunhal enquanto grande opositor do ditador Salazar, aquele que manteve viva uma luzinha de esperança num país livre e democrata.

Gabriel Vilas Boas 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

SALVADOR ALLENDE



O Presidente Salvador Allende compreendeu então, e o disse, que o Povo tinha o Governo, mas não o Poder. Frase mais alarmante, porque Allende levava dentro de si uma amêndoa legalista, que seria a semente de sua própria destruição: um homem que lutou até à morte na defesa da legalidade, teria sido capaz de sair pela porta da frente de La Moneda, de cabeça erguida, se o Congresso o houvesse destituído dentro dos parâmetros da Constituição” 
 Gabriel Garcia Marquez



     Para a grande maioria das pessoas que hoje lê este blogue o dia 11 de setembro lembrará para sempre o ataque terrorista da Al-Qaeda às Torres Gémeas em Nova Iorque, que dizimou milhares de vida e organizou o mundo sob o signo do medo. No entanto, o que proponho aos leitores é um mergulho um pouco mais fundo no tempo: 11 de setembro de 1973, Chile.

     O presidente Salvador Allende escolhia a espada em forma de bala e punha fim à própria vida, perante o inevitável triunfo do golpe militar do general Pinochet. O Chile ia mergulhar numa longa ditadura criminosa que durou dezassete anos. 

    Salvador Allende morreu poucos meses antes de eu nascer, por isso só os conheço dos livros de História, das biografias e dos romances. Cruzei-me com o seu nome há mais duas décadas quando Inglaterra e Espanha decidiam o que fazer com o seu carrasco, que, velhinho, entregou o poder na condição de não ser julgado, até porque muito poucos sabiam da profundidade dos crimes que cometera…



     Pinochet fez-me procurar Allende e tenho-o descoberto ao longo destes anos. Tenho de confessar que o admiro. Não propriamente pelas ideias políticas, porque todos me desiludem, mas pela sua conduta cívica, pela sua coerência política, pela persistência e coragem demonstradas. 

     Allende tinha aquilo que definia os heróis da América Latina a meio do século XX: adorava o seu povo, era inteligente, amava a liberdade e a igualdade e pensava que se conquistavam sonhos, direitos e progresso com democracia, socialismo/comunismo e coragem. Infelizmente, acreditou muito na bondade humana. 
 
     Nascido numa família da classe média/alta, teve a oportunidade de estudar, conhecer os ideais marxistas, desde a génese, e a democracia liberal capitalista americana. Como qualquer jovem idealista, quis o melhor dos dois sistemas. Não podia ser doutra forma para quem nasceu num país pobre, cheio de desigualdades e estava sedento por fazer alguma coisa pelos conterrâneos. 


     Lançou-se na política como deputado desde os 25 anos e aos quarenta e cinco já era candidato a Presidente da República. Perdeu três eleições e ao fim de 18 anos conseguiu chegar ao mais alto cargo da sua nação. Marxista convicto, teimou em chegar ao poder pela via democrática e conseguiu-o. Foi o primeiro no mundo inteiro, mas isso não comoveu os EUA, que tudo fizeram para o derrubar como tudo tinham feito para impedir a sua ascensão. 

     Persistente, legalista, convicto dos seus ideais, chegou ao poder e pensou que o mais difícil estava feito. De Moscovo avisaram-no que devia ser duro com os opositores, eliminando-os e asfixiando a democracia, mas Allende rejeitou ignóbil conselho. 

     Resolveu pôr em prática os seus ideais socialistas e aplicá-los à economia: nacionalizou as minas de cobre e passou o controlo das minas de carvão para o Estado, ao mesmo tempo que entregava ao domínio estatal a companhia dos telefones. Interveio nos bancos pra defender os depositantes e não os banqueiros corruptos e fez a reforma agrária, tirando as terras por cultivar aos ricos latifundiários para as entregar aos camponeses. O seu projeto era construir o caminho chileno para o socialismo ou, como diria Frank Sinatra, fazer o caminho à sua maneira. 

     Os americanos, que gostam da democracia do eu mando e tu obedecesses, acharam que aquela democracia vermelha não lhes interessava e traçaram a sua cortina de ferro no hemisfério sul: nada de comunismo por perto, que a liberdade política dos vizinhos só pode existir quando é da mesma cor que a nossa.



       Como não seguiu os conselhos do KGB Andropov, Salvador reinou em democracia, pensando que só a democracia o derrotaria. Nada mais errado!

     A oposição de direita e os EUA uniram-se para prejudicar sua política. Em 4 de setembro de 1972, Allende denunciou em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile.

   A situação económica tornou-se catastrófica Os investimentos privados dos chilenos caíram e o desemprego galopou. A população revoltou-se e passou a protestar em manifestações turbulentas conjugadas com a paralisação dos transportes e do comércio e com inúmeros atentados, que provocaram apagões e danificaram pontes e oleodutos.

   
     Apesar das graves dificuldades económicas, a Unidade Popular de Allende obteve 43% dos votos nas eleições de 1973. Em junho desse mesmo ano, porém, ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de Estado. Três meses depois, no dia 11 de setembro, o governo de Allende foi derrubado pelo exército, liderado pelo general Augusto Pinochet.


     O homem que projetara ser o “Salvador” do seu povo acabou metido numa grande alhada, para a qual a única solução digna que encontrou foi a morte. 
      É difícil encontrar alguém com o espírito de luta, a coragem e a história de Allende. Ele foi um homem que, na verdade, teve o nome marcado na história: democraticamente a esquerda chegou ao poder, e pelas bombas foi apeada do governo.

                                               Gabriel Araújo Vilas Boas.