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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

AUGUSTO PINOCHET - O ANJO DA MORTE


A História escreve, nos anais do Tempo, ironias tão certeiras e profundas que algumas parecem brotar das mãos dum Poeta Divino. Hoje é o Dia Internacional dos Direitos Humanos e, precisamente neste dia, terminou uma das mais infames existências do século XX: Augusto Pinochet. 
Augusto Pinochet viveu longuíssimos noventa e um anos, de uma vida profundamente lamentável, onde é difícil encontrar algo de bom para referir.
O chileno mais desprezível do século XX entrou na História do seu país quando traiu os ideais militares que jurou defender e depôs, através dum golpe de estado extremamente violento, o mítico líder comunista Salvador Allende, a 11 de setembro de 1973.


Durante dezassete anos submeteu o seu povo a uma ditadura militar execrável, onde exercitou os piores defeitos deste tipo de regime: corrupção; atropelo aos direitos humanos; ausência de liberdade de imprensa; perseguição, tortura e assassínio da oposição política; fraudes eleitorais; criação de leis que visavam uma proteção futura dos crimes cometidos; diminuição em 40% dos salários reais dos chilenos; duplicação do número de pobres; o desempregou aumentou 500%...
Na verdade, a realidade ultrapassa a imaginação mais cruel e maldosa, pois  tudo e mais alguma coisa Augusto Pinochet fez aos seus.
Haveria de terminar como viveu: no meio da mais profunda indignidade. Pacientemente os chilenos deixaram que fosse expondo toda a sua abominável personalidade. Em plebiscito, os compatriotas negaram-lhe que se perpetuasse no poder.
 Cobardemente, saiu da cadeira do poder, que ocupou tanto tempo tão indignamente. Negociou a sua retirada para senador vitalício, onde às mordomias materiais acrescentava a impunidade perante os crimes, cuja profundidade se ia descobrindo, mês após mês.


Rapidamente se soube que Pinochet estivera envolvido na “Operação Condor”, na “Caravana da Morte”, na “Operação Colombo”. Esteve ligado a negócios ilícitos, privatizou bens públicos que os amigos compraram a preços irrisórios, fugiu ao fisco, chegou a fazer dinheiro com a fabricação de cocaína em instalações militares!
Em 1998, foi preso em Londres, onde tinha ido por questões de saúde, mas a infeliz pressão da senhora Thatcher impediu que Baltasar Garzón o julgasse em Espanha por crimes contra os Direitos Humanos. Regressou ao Chile e fez-se passar por maluquinho para escapar novamente à justiça. A indignidade, a cobardia eram traços tão vincados na sua personalidade como a sociopatia, a maldade ou a corrupção.
Morreria uma semana após um ataque cardíaco. Acho que o destino e a História esperavam a chegada do dia 10 de dezembro – Dia Dos Direitos Humanos – para colocar uma cruz negra sobre um dos seres que mais espezinhou, humilhou e torturou o seu semelhante.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

SALVADOR ALLENDE



O Presidente Salvador Allende compreendeu então, e o disse, que o Povo tinha o Governo, mas não o Poder. Frase mais alarmante, porque Allende levava dentro de si uma amêndoa legalista, que seria a semente de sua própria destruição: um homem que lutou até à morte na defesa da legalidade, teria sido capaz de sair pela porta da frente de La Moneda, de cabeça erguida, se o Congresso o houvesse destituído dentro dos parâmetros da Constituição” 
 Gabriel Garcia Marquez



     Para a grande maioria das pessoas que hoje lê este blogue o dia 11 de setembro lembrará para sempre o ataque terrorista da Al-Qaeda às Torres Gémeas em Nova Iorque, que dizimou milhares de vida e organizou o mundo sob o signo do medo. No entanto, o que proponho aos leitores é um mergulho um pouco mais fundo no tempo: 11 de setembro de 1973, Chile.

     O presidente Salvador Allende escolhia a espada em forma de bala e punha fim à própria vida, perante o inevitável triunfo do golpe militar do general Pinochet. O Chile ia mergulhar numa longa ditadura criminosa que durou dezassete anos. 

    Salvador Allende morreu poucos meses antes de eu nascer, por isso só os conheço dos livros de História, das biografias e dos romances. Cruzei-me com o seu nome há mais duas décadas quando Inglaterra e Espanha decidiam o que fazer com o seu carrasco, que, velhinho, entregou o poder na condição de não ser julgado, até porque muito poucos sabiam da profundidade dos crimes que cometera…



     Pinochet fez-me procurar Allende e tenho-o descoberto ao longo destes anos. Tenho de confessar que o admiro. Não propriamente pelas ideias políticas, porque todos me desiludem, mas pela sua conduta cívica, pela sua coerência política, pela persistência e coragem demonstradas. 

     Allende tinha aquilo que definia os heróis da América Latina a meio do século XX: adorava o seu povo, era inteligente, amava a liberdade e a igualdade e pensava que se conquistavam sonhos, direitos e progresso com democracia, socialismo/comunismo e coragem. Infelizmente, acreditou muito na bondade humana. 
 
     Nascido numa família da classe média/alta, teve a oportunidade de estudar, conhecer os ideais marxistas, desde a génese, e a democracia liberal capitalista americana. Como qualquer jovem idealista, quis o melhor dos dois sistemas. Não podia ser doutra forma para quem nasceu num país pobre, cheio de desigualdades e estava sedento por fazer alguma coisa pelos conterrâneos. 


     Lançou-se na política como deputado desde os 25 anos e aos quarenta e cinco já era candidato a Presidente da República. Perdeu três eleições e ao fim de 18 anos conseguiu chegar ao mais alto cargo da sua nação. Marxista convicto, teimou em chegar ao poder pela via democrática e conseguiu-o. Foi o primeiro no mundo inteiro, mas isso não comoveu os EUA, que tudo fizeram para o derrubar como tudo tinham feito para impedir a sua ascensão. 

     Persistente, legalista, convicto dos seus ideais, chegou ao poder e pensou que o mais difícil estava feito. De Moscovo avisaram-no que devia ser duro com os opositores, eliminando-os e asfixiando a democracia, mas Allende rejeitou ignóbil conselho. 

     Resolveu pôr em prática os seus ideais socialistas e aplicá-los à economia: nacionalizou as minas de cobre e passou o controlo das minas de carvão para o Estado, ao mesmo tempo que entregava ao domínio estatal a companhia dos telefones. Interveio nos bancos pra defender os depositantes e não os banqueiros corruptos e fez a reforma agrária, tirando as terras por cultivar aos ricos latifundiários para as entregar aos camponeses. O seu projeto era construir o caminho chileno para o socialismo ou, como diria Frank Sinatra, fazer o caminho à sua maneira. 

     Os americanos, que gostam da democracia do eu mando e tu obedecesses, acharam que aquela democracia vermelha não lhes interessava e traçaram a sua cortina de ferro no hemisfério sul: nada de comunismo por perto, que a liberdade política dos vizinhos só pode existir quando é da mesma cor que a nossa.



       Como não seguiu os conselhos do KGB Andropov, Salvador reinou em democracia, pensando que só a democracia o derrotaria. Nada mais errado!

     A oposição de direita e os EUA uniram-se para prejudicar sua política. Em 4 de setembro de 1972, Allende denunciou em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile.

   A situação económica tornou-se catastrófica Os investimentos privados dos chilenos caíram e o desemprego galopou. A população revoltou-se e passou a protestar em manifestações turbulentas conjugadas com a paralisação dos transportes e do comércio e com inúmeros atentados, que provocaram apagões e danificaram pontes e oleodutos.

   
     Apesar das graves dificuldades económicas, a Unidade Popular de Allende obteve 43% dos votos nas eleições de 1973. Em junho desse mesmo ano, porém, ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de Estado. Três meses depois, no dia 11 de setembro, o governo de Allende foi derrubado pelo exército, liderado pelo general Augusto Pinochet.


     O homem que projetara ser o “Salvador” do seu povo acabou metido numa grande alhada, para a qual a única solução digna que encontrou foi a morte. 
      É difícil encontrar alguém com o espírito de luta, a coragem e a história de Allende. Ele foi um homem que, na verdade, teve o nome marcado na história: democraticamente a esquerda chegou ao poder, e pelas bombas foi apeada do governo.

                                               Gabriel Araújo Vilas Boas.