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sexta-feira, 11 de junho de 2021

A MEMÓRIA É O MELHOR LUGAR PARA O AMOR MORAR

Enquanto almoçava com a minha mãe, ela lembrou-me que há 75 anos nascia o meu padrinho, Alberto Magalhães Araújo. 
Aquela recordação não fora premeditada, mas não surgiu por acaso. A minha mãe e o meu padrinho eram irmãos e amigos extraordinários, cujas personalidades se completavam. 


Apesar do meu padrinho ter-se ausentado eternamente há mais de vinte anos, sei que a sua memória habita permanente o coração da minha mãe. E hoje confirmei que a sua memória está afinadíssima. foi essa memória que me fez sorrir tantas vezes ao longo do almoço. Comover também. 


O meu padrinho foi a primeira pessoa que quis ser. Não por ser meu padrinho nem pela família dizer que éramos fisicamente muito parecidos. O que me fascinava era a sua inteligência emocional, a postura cavalheiresca, o prazer de conversa, a cultura que perfumava as suas palavras, a docilidade do seu trato. 


Infelizmente a vida não me permitiu privar com ele os anos que ele e eu merecíamos ter convivido, mas a memória é um afeto persistente  e, por mais que o tempo teime em esticar o Tempo, o afeto que eu e toda a família sentem por ele torna-nos próximos. 

O amor fornece o melhor oxigénio que a memória podia ter. É por causa dele que a memória persiste em cada um como guardiã do nosso melhor tesouro.

Gabriel Araújo

sexta-feira, 19 de abril de 2019

ELES NÃO TÊM FILHOS MAS TÊM O PODER DE DECIDIR O FUTURO DE QUEM OS TEM


















 Recentemente um jornal brasileiro, o Globo, fez um curioso balanço sobre a relação entre quem manda na Europa e a família, especialmente na vertente «ter filhos». Eis algumas conclusões.


MACRON, o presidente francês, não tem filhos.
A chanceler alemã, ANGELA MERKEL, não tem filhos.
A primeira-ministra do Reino Unido, THERESA MAY, não tem filhos.
O primeiro-ministro italiano, PAOLO GENTILONI, não tem filhos.

MARK RUTH, da Holanda, não tem filhos.
STEFAN LOFVEN, da Suécia, não têm filhos.
XAVIER BETTER, do Luxemburgo, não tem filhos.
NICOLA STURGEON, da Escócia, não tem filhos.
JEAN-CLAUDE JUNCKER, presidente da Comissão Europeia, não tem filhos.


Ou seja, um grande parte das pessoas que tomam decisões sobre o futuro da Europa não tem nenhum interesse direto nesse futuro. 
Como pode ser então sensível às políticas de família, às questões ambientais, à harmonização entre vida do trabalho e a vida familiar?
Ter filhos, constituir família parece uma coisa suburbana, fora de moda, um empecilho num mundo apenas pensado e feito para o «aqui e agora», onde só o «eu» conta.
Os europeus andam a escolher gente que pode saber muito de finanças, de economia ou estratégia política, mas pouco sabe de PESSOAS, de VALORES, de FAMÍLIA. 
As coisas só fazem sentido porque existem pessoas. 

sábado, 25 de março de 2017

É BOM ESTAR EM FAMÍLIA, MAS À MINHA MANEIRA


Quer quem a tem, quer quem a já não tem, acha os momentos em família dos mais belos e gratificantes da vida. 
A importância da família na vida de cada um é incomensurável. Apesar desta unanimidade, são muitos os casos em que a relação familiar é insatisfatória. Por que é que tal acontece? Há várias razões, algumas mais recorrentes que outras: desgaste emocional; sobreposição da vida profissional sobre a vida afetiva e familiar, diferentes conceções de educação dos filhos, surgimento de outros interesses pessoais, sociais e afetivos; sistemática imposição do interesse individual.

A família é uma ideia coletiva que amamos e acarinhamos, mas pela qual não estamos dispostos a fazer grandes sacrifícios, que na verdade nem deveriam ser sacrifícios. E não é a ideia de sacrifício que nos assusta (fazemo-los tantas vezes por coisas insignificantes), mas temos a certeza que a família pode aguentar mais aquele soco no estômago. Ela não se vai embora, ainda que ande zangada.

O problema não é bem o telemóvel como no passado não era a televisão ou o negócio inadiável – versão intemporal do culpado. A questão é que vemos a família só na perspectiva do receber e raramente do dar. Por isso, quando não temos a expectativa de receber algo de interessante, levamos um gadget qualquer que nos distraia. 
Obviamente a culpa é sempre do outro: não nos cativa, não nos surpreende, não sai do seu mundinho egoísta e repetitivo, não repara nas nossas necessidades. 
Até são razões válidas, todavia contam apenas metade da história. O lado B é parecido, mas tem-nos como réus.

A família é uma construção permanente e única. É muito mau sinal que tenha apenas a marca distintiva de um dos lados, porque isso sugere desde logo alguma abdicação ou anulação. O ideal é que constitua uma espécie de heterónimo coletivo, onde todos se sintem confortáveis, amados, realizados e com vontade de estar e participar. 
Não me parece que isto seja uma utopia, um conjunto de belas palavras, pois há famílias que o conseguem pôr em prática.

No entanto, antes de tudo é preciso querer estar com aqueles com quem partilhamos a mesa do jantar, além do convencional. E querer é mais determinante que qualquer convenção ou conveniência.
GAVB

terça-feira, 3 de maio de 2016

FILHOS SIM, FAMÍLIA TALVEZ


A sociedade portuguesa está a mudar os seus comportamentos, as suas opções, a sua mentalidade. Um dado recente do INE refere que, em 2015, um em cada seis bebés nascidos eram filhos de pais não casados e que não viviam em comum.
Repararemos que as condições (não casados e não vivem na mesma casa) são cumulativas e aplicam-se a bebés, ou seja, há uma opção consciente destas mulheres e homens em terem filhos apesar de não serem casados, não viverem juntos e não haver perspetivas de o serem.


Partindo do princípio que a esmagadora maioria dos nascimentos ocorridos no ano anterior foram planeados, estes dados permitem-nos duas grandes conclusões: há um enorme desejo das mulheres e homens portugueses  serem pais, apesar de todos os obstáculos; a mentalidade social quanto aos comportamentos está a mudar.

Claro que a crise económica fez desaparecer muitos homens jovens de Portugal nos últimos oito anos; claro que há muito desemprego que adiou casamentos; claro que há muitas mulheres no limite de idade fértil que são impelidas a tomar uma decisão pouco ortodoxa quanto à maternidade, mas parece-me que estes dados refletem algo mais do que isso. As condicionantes já se verificaram há três décadas e o «fenómeno» living apart together não ocorria.

O que se está a passar então? Muitas mulheres e homens tomaram consciência da importância de serem pais para a sua realização plena como pessoas e decidiram concretizar esse anseio independentemente de haver casamento ou não, de haver vida em comum ou não.
O que antes parecia uma ideia «amalucada», com tudo para dar errado, acabou por se tornar numa solução possível para a incerteza económica, social e afetiva em que muitas relações caíram.
Se o que tem de ser tem muita força, o que não se pode mais adiar tem de se concretizar. O período fértil de uma mulher não dura eternamente e por isso muitas decisões ousadas tiveram de ser tomadas.

A constatação de que alguns casais divorciados conseguiram proporcionar aos seus filhos uma educação minimamente coerente e equilibrada deve ter decidido alguns a arriscar uma solução de maternidade/paternidade nada convencional. E ainda bem que o fizeram, porque a maternidade/paternidade é das realizações mais plenas que o ser humano pode experimentar e não deve ser inibida por qualquer convencionalismo social ou comportamental.
Obviamente ninguém tinha imaginado este projeto de vida, mas, desde o bíblico Samuel que já sabemos que “são insondáveis os caminhos… da felicidade”.

Gabriel Vilas Boas