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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O CONSUMISMO COME O CÉREBRO

Hoje é dia BLACK FRIDAY. Provavelmente o dia do ano em que mais apetece consumir. É já uma data iconográfica.
Para mim é curioso ouvir quase sempre falar dos “direitos do consumidor”, quase nunca dos deveres. Isto acontece porque o consumidor é a parte fraca. Até já tem direito a dia para lembrar os seus direitos. Quanto aos deveres, ele cumpre na perfeição: consome até se consumir.
Consumir já nem é pecado. Tornou-se doença e dependência. Já nem é alvo de censura, mas de compreensão, tal é a impotência com que o enfrentamos. 
Consumir é uma droga legal. Tão legal que muitas economias plantaram o seu sucesso em cima dela. É claro que isso desequilibrou sociedades em geral e o indivíduo em particular, mas isso não interessa nada às máquinas registadoras com duas pernas e muitas mãos. Como são magnânimos e inteligentes permitem o dia do consumidor que, lá no fundo, apenas lhes presta homenagem.



Há mais de cinquenta anos, Kennedy criou o dia procurando que aos americanos fosse garantido o direito à informação, segurança, escolha e o direito a ser ouvido. Portugal só em 1996 consagrou esses direitos, em lei. De lá para cá a DECO tem sido das associações mais ativas em Portugal na sua defesa.
Claro que sei que consumir é uma necessidade humana, claro que reconheço a importância dos direitos dos consumidores estarem plasmados em lei. No entanto, a questão, para mim, transborda o campo legal. É sociológica.
O consumismo é o ato de comprar o que não se precisa, com o dinheiro que não se tem, para impressionar pessoas que não se conhece, a fim de tentar ser aquilo que não se é.
A sociedade ocidental (e agora também a oriental) tornou-se numa sociedade consumista. Uma sociedade de mercado, onde o dinheiro parece ser o único valor que conta, só existe se houver alguém que consuma porque sim.

Isso aconteceu quando o consumismo comeu o cérebro das pessoas. A vaidade e a futilidade fizeram o resto. A mais suprema das ironias é que consumir passou a ser chique, desejável, recomendável. Enfim, uma virtude. É ver a estratégia económica das cidades e até de países como Portugal: “Bom, bom é que venham cá e consumam muito”. É uma ideia de desenvolvimento económica errada, porque depende dos outros. É uma ideia socialmente egoísta que apenas vê o seu interesse. Jamais produzirá sociedades justas, quanto mais felizes ou ricas.
O consumismo é altamente destruidor. Destrói o planeta e o equilíbrio do Homem com a Natureza. Mina o apetite pela descoberta, pela experiência e nesse sentido atrasa a ciência. Mas a mais importante destruição é a do ser humano. Dos valores aos sentimentos a devastação é imensa. O melhor exemplo disso é o Natal, onde a hipocrisia e o consumismo estão a construir uma obra-prima digna do diabo.

O consumismo transformou os valores do ser humano ao entrar-lhe no âmago. Hoje, as pessoas são descartáveis como as coisas, porque as encaramos como objetos consumíveis tal e qual como uma peça de roupa que usamos uma ou duas vezes antes de a pôr definitivamente de lado. Já reparámos que consumimos despudoradamente os outros?
               

Não podemos deixar que o consumismo tome conta do espaço do amor, da amizade, da partilha, pois abrir-se-ão feridas enormes na alma que nos derrotarão com mais contundência que uma doença mortal.
O que temos que fazer é simples: deixar de comprar o que não precisamos. Ter a inteligência suficiente para distinguir entre a necessidade e o desejo.
Precisamos urgentemente de voltar a ter a parcela de liberdade que alienámos. Ela não está perdida, está no “prego”, à espera que tenhamos a coragem de a resgatar.  

GAVB

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PARA QUE SERVE UM PRESENTE DE NATAL?


Todos os anos assisto à expectativa de uns, ao lamento de outros, às críticas ao consumismo de muitos, mas a verdade é que o Natal institucionalizou as “prendas”. Quase tão ou mais obrigatórios do que o bacalhau, as batatas ou o presépio, os presentes de Natal já fazem parte do senso comum da sociedade.
Desde já declaro que gosto de receber e dar presentes no Natal. Faço-o com convicção e prazer, tanto no ato de oferecer como de agradecer. Compreendo as críticas ao excessivo consumismo e mercantilismo deste ato nobre de trocar presentes, no Natal, porque também o sinto e me desgosta.

Sei perfeitamente que as motivações de cada um, no ato de oferecer um presente de Natal, são diferentes de pessoa para pessoa, mas custa-me ouvir todos os anos os constantes lamentos de vários amigos e conhecidos acerca dos presentes de Natal.


Afinal, para que serve um presente de Natal? Para mim, sempre foi claro que os presentes de Natal servem para, num momento único e singular do ano como é o Natal, mostrar a minha amizade, amor, gratidão e reconhecimento com todos aqueles que me são mais queridos. Claro que de ano para ano esse grupo vai mudando, mas nunca fiz disso um drama. Sempre me recusei a dar um presente por convenção, porque “parece mal não dar”, porque “se dei a um tenho de dar a outro”. Isso quebraria a essência do próprio ato, na minha perspectiva. Talvez por isso me faça uma certa confusão aquela ideia: “No Natal, só dou presentes às crianças.” Gosto de crianças como gosto de adultos. Não gosto de convenções misturadas com sentimentos. Nunca me causou qualquer constrangimento que a lista de Natal contemplasse mais adultos do que crianças ou vice-versa. Sempre me preocupei é que lá estivessem as pessoas de quem gosto muito, de quem sou mais próximo, com quem compartilho momentos únicos e pessoais.

Nesse sentido, encaro a escolha dos presentes com alguma exigência. Não pode ser qualquer coisa. O presente de Natal tem que ter sobretudo um valor afetivo e, por isso, cada presente é escolhido em função da pessoa a quem se destina. Não me preocupa o valor monetário, até porque normalmente não são presentes caros, mas sim que a pessoa que o recebe perceba quanto a estimo, através daquele objeto/símbolo.
Dir-me-ão que há outras formas de manifestarmos a nossa amizade, amor ou apreço por alguém que não envolvem troca de presentes. Completamente de acordo, mas eu gosto de incluir presentes na lista de possibilidades. O dinheiro que gasto com os presentes de Natal é só uma pequena parte daquele de que disponho para gastar da maneira que melhor me aprouver e os amigos e familiares mais chegados são muito mais do que uma pequena parte de mim.
O que é fundamental, no que toca aos presentes de Natal, é gostarmos de presentear os outros e termos bem resolvida na nossa cabeça as razões por que o fazemos. Se é fantástico percebermos, através de um pequeno presente, quanto carinho e amor pôs nele quem no-lo endereçou também é penoso receber algo, apenas por convenção ou porque podíamos “reparar” ou “levar a mal”.
O Natal e o prazer de presentear e ser presenteado são muito bonitos para serem estragados com motivações tão… cinzentas.

Gabriel Vilas Boas 

domingo, 15 de março de 2015

CONSUMO OBRIGATÓRIO


Num tempo algo longínquo, consumir era uma atividade tão natural que nem se chamava consumir. As pessoas comiam em restaurante, compravam roupa, sapatos, viagens, serviços de vária ordem e tudo corria razoavelmente. Entretanto consumir tornou-se um prazer e rapidamente viciou toda a gente.
Como acontece com todos os vícios, o consumo instalou-se gostosamente na nossa vida e tornando-a mais agradável e mais fácil. O problema dos vícios é a dependência. Em pouco tempo consumir tornou-se um hábito difícil de abdicar e quase todos começámos a consumir de uma maneira compulsiva e irracional.

Nessa altura acordámos para os “direitos do consumidor”, porque o consumidor se perdera no labirinto da sua dependência e agora havia apenas que controlar a doença.
É neste estado de doentes crónicos de “consumite aguda” em que vivemos. A Deco é o hospital a que recorremos quando abusamos da dose de créditos aos consumo ou alguém nos drogou com uma qualquer oferta imperdível que nos levou à perdição económica.
A Deco bem tenta fazer pedagogia consumista, mas apenas consegue controlar algumas das garras do agressor.

Apanhados na rede psicológica, duma sociedade, cujo modelo económico assenta num consumismo irracional, lutamos para nos manter informados dos nossos direitos de consumir. E, como diria Pedro Abrunhosa, “hoje é o nosso dia”.
Hoje clamamos contra a sociedade consumista como se dela não fizéssemos parte, lamentamos a dependência como se não fossemos nós os dependentes, achamos o “monstro” invencível como se ele não existisse apenas na nossa cabeça e nos nossos hábitos.
Acho que o consumismo deixará de ser um problema assim tão relevante quando voltarmos a ser senhores das nossas escolhas, quando consumir voltar a ser uma coisa tão natural como não consumir e, sobretudo, quando a noção que cada um tenha de felicidade pessoal não esteja conectada com a ideia de consumir.
 Consumir há muito deixou de ser uma escolha e passou a constituir uma obrigação social. Isso tem-nos causado grande pressão psicológica e um enorme desconforto afetivo. É tempo de comprar apenas aquilo que queremos, de aprender a dizer “não, obrigado”, ainda que possamos perfeitamente adquirir aquele objeto ou serviço e ele seja interessante.
Consumir é hoje um ato de inteligência afetiva. E a melhor maneira de evitar consumições com tanto consumismo é não permitir que ele seja a razão e o coração das nossas vidas.
Gabriel Vilas Boas