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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PRESENTE COM TALÃO DE TROCA



Pode dar muito jeito que o presente venha com talão de troca (especialmente se não sabem o nosso número da roupa), mas o talão retira toda a beleza e simbologia ao presente. Nessa altura, o presente pouco mais é do “pega lá neste dinheiro e compra o que te apetecer”. Ora isso já fazemos nós quando temos um dinheirinho extra.
Como ligaremos um presente a um momento e a uma pessoa se aquilo que temos não é a ideia original do nosso amigo, marido, familiar, mas uma troca de conveniência que fizemos?

Ainda que não gostemos especialmente dele, um presente marca-nos, toca-nos, pois ficamos a saber como o outro nos vê, como pensou em surpreender-nos agradavelmente, como tentou pôr um sorriso no nosso rosto. Mesmo quando foi desleixado e comprou qualquer coisa sem sentido, fica a recordação desse desleixo. Quando procedemos à troca até isso se vai.

Os únicos presentes que recordo são aqueles que revelavam quanto aquele amigo(a) estava atento aos meus gostos e desejos, bem como à minha maneira de ser.
Sempre que dizemos a um filho(a) “Aqui tens o catálogo da Toys r us – escolhe o que quiseres!”, destruímos por completo a magia de receber um presente. Não foi o pai que lho deu, foi ele que o escolheu. 
O pai ou mãe possivelmente até lhe dizem que nem querem saber o que ele vai escolher, desde que escolha e não os aborreça. 
Aquele filho jamais sentirá que alguém esteve atento aos seus gostos, que alguém pensou nele além da tradição. Quando o pai, por azar, lhe voltar a pagar um conjunto de bonecas que ela já teve há dois anos, perceberá quanto inútil foi ter usado o cartão de crédito do pai em vez do seu coração ou da sua sensibilidade.
Um presente é um afeto e os afetos não têm talão de troca, só de retribuição.
GAVB

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PARA QUE SERVE UM PRESENTE DE NATAL?


Todos os anos assisto à expectativa de uns, ao lamento de outros, às críticas ao consumismo de muitos, mas a verdade é que o Natal institucionalizou as “prendas”. Quase tão ou mais obrigatórios do que o bacalhau, as batatas ou o presépio, os presentes de Natal já fazem parte do senso comum da sociedade.
Desde já declaro que gosto de receber e dar presentes no Natal. Faço-o com convicção e prazer, tanto no ato de oferecer como de agradecer. Compreendo as críticas ao excessivo consumismo e mercantilismo deste ato nobre de trocar presentes, no Natal, porque também o sinto e me desgosta.

Sei perfeitamente que as motivações de cada um, no ato de oferecer um presente de Natal, são diferentes de pessoa para pessoa, mas custa-me ouvir todos os anos os constantes lamentos de vários amigos e conhecidos acerca dos presentes de Natal.


Afinal, para que serve um presente de Natal? Para mim, sempre foi claro que os presentes de Natal servem para, num momento único e singular do ano como é o Natal, mostrar a minha amizade, amor, gratidão e reconhecimento com todos aqueles que me são mais queridos. Claro que de ano para ano esse grupo vai mudando, mas nunca fiz disso um drama. Sempre me recusei a dar um presente por convenção, porque “parece mal não dar”, porque “se dei a um tenho de dar a outro”. Isso quebraria a essência do próprio ato, na minha perspectiva. Talvez por isso me faça uma certa confusão aquela ideia: “No Natal, só dou presentes às crianças.” Gosto de crianças como gosto de adultos. Não gosto de convenções misturadas com sentimentos. Nunca me causou qualquer constrangimento que a lista de Natal contemplasse mais adultos do que crianças ou vice-versa. Sempre me preocupei é que lá estivessem as pessoas de quem gosto muito, de quem sou mais próximo, com quem compartilho momentos únicos e pessoais.

Nesse sentido, encaro a escolha dos presentes com alguma exigência. Não pode ser qualquer coisa. O presente de Natal tem que ter sobretudo um valor afetivo e, por isso, cada presente é escolhido em função da pessoa a quem se destina. Não me preocupa o valor monetário, até porque normalmente não são presentes caros, mas sim que a pessoa que o recebe perceba quanto a estimo, através daquele objeto/símbolo.
Dir-me-ão que há outras formas de manifestarmos a nossa amizade, amor ou apreço por alguém que não envolvem troca de presentes. Completamente de acordo, mas eu gosto de incluir presentes na lista de possibilidades. O dinheiro que gasto com os presentes de Natal é só uma pequena parte daquele de que disponho para gastar da maneira que melhor me aprouver e os amigos e familiares mais chegados são muito mais do que uma pequena parte de mim.
O que é fundamental, no que toca aos presentes de Natal, é gostarmos de presentear os outros e termos bem resolvida na nossa cabeça as razões por que o fazemos. Se é fantástico percebermos, através de um pequeno presente, quanto carinho e amor pôs nele quem no-lo endereçou também é penoso receber algo, apenas por convenção ou porque podíamos “reparar” ou “levar a mal”.
O Natal e o prazer de presentear e ser presenteado são muito bonitos para serem estragados com motivações tão… cinzentas.

Gabriel Vilas Boas