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sábado, 21 de abril de 2018

PENA DE MORTE PARA QUEM VIOLAR RAPARIGAS ATÉ DOZE ANOS


Reação brutal do governo indiano à onda de protestos da população, chocada com a notícia da violação e assassínio de uma menina de oito anos.
O caso correu mundo, indignando não apenas a população  indiana (https://setepecadosimortais.blogspot.pt/2018/04/protesto-silencioso.html) mas também grande parte da comunidade internacional. Hoje, o governo indiano, através de uma ordem executiva, decretou “pena de morte para quem violar uma rapariga menor de doze anos”. Se a violação for cometida entre doze e dezasseis anos a pena passa de dez para vinte anos, e se o crime for cometido sobre rapariga ou mulher com mais de dezasseis anos, a pena atinge os dez anos de cadeia,

Embora entenda a necessidade de uma reação enérgica por parte das autoridades, sobretudo depois de ver alguns políticos tentarem defender os criminosos, penso que o governo indiano tinha outras soluções, que não a pena de morte.
O problema não é apenas criminal, mas também cultural. Só em 2016 registaram-se quarenta mil casos de violação de menores, muitas vezes cometidos em grupo.

Claro que a pena de morte (a lei ainda carece da assinatura presidencial) é um elemento dissuasor bastante convincente, mas não terminará com este flagelo que assola uma dos países mais populosos do mundo, até porque a lei só aponta para crimes cometido contra raparigas, menores de doze anos. Parece-me muito mais uma medida reativa e não estruturada, mas o desfasamento civilizacional desta ignóbil tradição indiana é tão grande que se tornou quase obrigatória uma medida tão extrema e tão grave.
Agora resta esperar para ver como será implementada, pois seremos sempre colocados perante dois extremos, quando confrontados com uma acusação de violação de menores, na Índia: ou se pune severamente um crime horrível ou se comete imprudentemente um crime terrível.
A lei hoje aprovada pelo governo indiano pode ser purificadora, mas também pode colocar, ainda mais, a ferro e fogo a sociedade indiana.
GAVB

quarta-feira, 18 de abril de 2018

PROTESTO SILENCIOSO



Aconteceu na Índia, no estado de Jammu e Kashmir, há três meses (17 de Janeiro), mas só agora se soube: uma menina de oito anos fora violada e assassinada.
Na semana passada, a população grande parte da população tomou conhecimento do horrível crime, quando um grupo de advogados e ativistas tentou impedir a acusação dos suspeitos.
Reparei em mais este horrível crime por causa da força da fotografia do indiano Ramindder Pal Singh, que ilustra o protesto sentido destas mulheres indianos contra um crime inconcebível.

Num tempo que as palavras são tantas e circulam à velocidade da luz, estas mulheres preferiram amordaçar a boca com fitas negras, numa manifestação de raiva contra os recentes casos de violação de adolescentes e mulheres na Índia, perante a passividade das forças policiais e judiciais.
Há neste protesto silencioso a força da dignidade, a incompreensão pela passividade de quem manda, a raiva pela brutalidade de tais atos, num mundo que se diz evoluído e culto, mas onde ainda abundam exemplo de pura animalidade e maldade.
GAVB

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O FIM DO IMPÉRIO MUGHAL


Há precisamente 160 anos, a 20 de Setembro de 1857, o xá Bahadur Shah Zafar (1775-1862) rendia-se às autoridades inglesas, na Índia, e punha assim fim ao Império Mughal. 

Durante esse ano de 1857 rebeldes indianos puseram em questão o poder inglês no território indiano e o rei de Deli tornara-se numa figura icónica para os rebeldes.
A sua rendição pôs termo à denominada Revolta Indiana e, mais do que isso, ao Império Mughal. O velho xá «reinava» sobre um pequeno território pobre e pequeno, constituído apenas pelo Forte Vermelho de Deli, mas era um homem muito respeitado e extramente culto. Poeta e calígrafo, o último rei da dinastia Mughal formou na corte um centro de saber e literatura urdu.

Infelizmente os acontecimentos políticos e a falta de grandeza e nobreza de quem representava o poder inglês na Índia não permitiram um fim digno ao rei de Deli. O capitão William Hodson tornou ignóbil o ato da rendição de Bahadur Shah Zafar, depois de anteriormente já ter mandado fuzilar os filhos do xá.
O último rei da dinastia Mughal foi julgado, condenado e exilado na Birmânia, acabando por morrer numa prisão de Rangum. No entanto, tornou-se numa fonte de inspiração para os futuros nacionalistas indianos que viam em Bahadur Shah ZZafar um exemplo da revolta pacífica e digna contra a arrogância e prepotência inglesa na Índia.
A postura do rei de Deli é um exemplo também para os líderes políticos atuais, que apenas conhecem o exemplo da ameaça, do exercício despudorado da força, da chantagem económica e militar como formas de se imporem. Nada mais errado.

GAVB

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

INDIRA GANDHI


Passam hoje trinta anos e quatro desde que Indira Gandhi iniciou o segundo mandato à frente do governo da Índia, no qual se manteria até ao dia em que foi assassinada.
Indira é seguramente a mulher mais importante da História da Índia. A par de seu pai, Nehru, e de Mahatma Gandhi, faz parte da “sagrada família” dum dos povos mais numerosos do mundo.
Indira não tinha a grandiosidade moral de Gandhi nem a astúcia política do pai, mas política e ação corriam-lhe nas veias duma forma intensa.
Amada pelo seu povo, que a recorda como uma mãe, provou que merecia governar por mérito e não por herança. No entanto, o governo da Índia coube-lhe enquanto herança política do pai e ela não a rejeitou… mas governou “à sua maneira”.



Desde 1966, governou a democracia mais populosa do mundo, com mais de 500 milhões de pessoas que maioritariamente viviam na pobreza. E Indira não virou a cara a nenhum desafio, nem que para isso tivesse de quebrar tabus, privilégios de castas, fazer acordos com deus e com o diabo. Ela era uma mulher de luta, de ação, para quem os fins justificavam alguns métodos menos ortodoxos.
Nacionalizou bancos, iniciou o programa nuclear indiano, acabou com pagamentos indevidos a grupos sociais e étnicos privilegiados, lançou a revolução verde que tornou a Índia autossuficiente, quanto aos cereais, e terminou como milhões de casos de morte por causa da fome que tanto a afligia.

Em termos políticos, Indira era dura. Manteve com o Paquistão uma guerra de que saiu vitoriosa, pois o apoio da Índia fez nascer o Bangladesh, a partir de território paquistanês.
Foi uma lutadora feroz. Governou durante onze anos, perdeu as eleições de 1977, mas voltou a ganhar em 1980. Sucumbiria apenas perante a traição dos seus guarda-costas que permitiram que fosse assassinada a 31 de outubro de 1984.
Nem sempre as atitudes políticas de Indira foram louváveis. Esteve particularmente mal quando instituiu o estado de emergência, perante acusações de fraude eleitoral. Nesse tempo, Indira reduziu as liberdades civis, perseguiu a oposição, cortou a eletricidade aos jornais que lhe eram hostis, fez aprovar leis especiais sem permitir grande discussão...
No entanto, devemos olhar para a seu legado como um todo e o saldo, a meu ver, é muito positivo. Melhorou a vida dos milhões de pobres, governando para eles e com eles, impôs-se externamente e afirmou, definitivamente, a Índia como uma potência mundial.


Gabriel Vilas Boas

domingo, 12 de outubro de 2014

PRÉMIO NOBEL DA PAZ 2014 - MALALA E SATYARTHI



“Algo que eu posso aprender com as crianças é a transparência. Elas são inocentes, diretas e não têm preconceitos.” Kailash Satyarthi

Este ano, o Comité Nobel norueguês atribui o mais importante dos prémios Nobel à jovem paquistanesa Malala Yousafzai e ao indiano Kailash Satyarthi, invocando a luta de ambos "contra a discriminação de crianças e jovens e pelo direito destes à educação”.
Foi uma atribuição justa e bonita, quase poética. Desde logo pelo mérito dos laureados, depois, porque conseguiu a virtude de unir um indiano e uma paquistanesa, uma adolescente e um homem maduro. Simbolicamente, o prémio deste ano une gerações, aproxima povos desavindos e reafirma a inclinação do Comité do Nobel por personalidades que dedicam a sua vida ao ativismo cívico.
Malala é a paquistanesa que, aos doze anos, teve a coragem de denunciar os tenebrosos planos do regime talibã para as raparigas da sua região, que passavam por lhes vedar o acesso à escola. A denúncia pública e mundial desta retrógrada e indigna ideologia quase lhe custava a vida há dois anos. Internada à pressa num hospital de Birmingham, Malala salvou-se in extremis e tem prosseguido a sua luta pelo direito de muitas raparigas que em todo o mundo lhes vêem negado o direito à educação mais básica. A mais jovem vencedora do Nobel da Paz tem aproveitado o interesse mediático à sua volta para lembrar a todos que ainda há muitos milhões de crianças que não têm direito a um livro, uma caneta ou um professor. O seu famoso discurso nas Nações Unidas, no dia em que completou dezasseis anos, fez tanto lembrar Nelson Mandela.


“Vamos pegar nas nossas canetas e nos livros. Elas são as nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução.”

Já o pouco mediático Kailash Satyarthi tem uma vida inteira dedicada às crianças, impedindo que muitas delas caiam no tráfico ou nas garras do trabalho infantil.
Ao longo de mais de três décadas desenvolveu um trabalho extraordinário, através do movimento Bachpan Bachao Andolon (BBA), que em inglês será algo como “Save the Childhood”, criou mais de 350 aldeias-modelo, em 11 estados da Índia, onde as crianças vão à escola todos os dias e participam no governo da aldeia, através do debate de temas cívicos ou movimentos juvenis. Nestas aldeias, há a garantia que as crianças estão protegidas do trabalho infantil.


Satyarthi tem lutado muito para que as crianças do seu país estejam na escola até aos 14 anos de forma gratuita e usufruindo dum escola pública e de qualidade. Esta luta não tem sido nada fácil, até porque muitas escolas indianas não têm as infraestruturas adequadas a raparigas adolescentes e por causa disso muitas desistem de estudar. Mesmo assim este ativista indiana não desistiu e procurou pela ação e pelo protesto “salvar” mais crianças 85.000 crianças do tempo e da circunstância em que nasceram. 
Satyarthi diz, e bem, que “A pobreza não é desculpa para a exploração infantil”. A esta ideia acrescenta outra com a qual também estou totalmente de acordo “Eu sou amigo das crianças. Não penso que ninguém as deva ver como objeto de pena ou caridade.”


O direito das crianças à educação é antes de mais um direito humano. A atenção e o esforço que fazemos para que ele seja dado às crianças não é um especial favor que lhes fazemos, porque elas, “coitadinhas”, são pequenas, pobres e indefesas. Fazemo-lo porque elas têm direito a isso. E esse direito não é, não pode ser, relativo. Se um país tem possibilidades económicas deve proporcionar aos seus cidadãos o mais alto nível de qualificações possível ao mais baixo custo, porque, como diz Malala, “a educação é a única solução”.

A paz de muitos milhões de crianças começa na garantia duma escola, dum professor, dum livro. A paz, a prosperidade e a liberdade do mundo, na próxima década, construir-se-ão com as crianças que puderam ser crianças.
Gabriel Vilas Boas

sábado, 12 de julho de 2014

QUEM QUER SER MI(BI)LIONÁRIO?


    Quando a poucas semanas do Natal de 2008 Danny Boyle fez estrear nos EUA o seu “Quem quer ser Milionário” (ou “Quem quer ser um Bilionário?”) as críticas foram bastante severas e ninguém apostaria um dólar que três meses mais tarde o filme sairia da festa do cinema, em Hollywood, com a estatueta de melhor filme de 2008. 

    O filme conta a história do jovem Jamal Malik, oriundo duma família dos bairros de lata de Mumbai, Índia, prestes a ganhar o prémio de 20 milhões de rúpias no programa "Quem Quer Ser Um Milionário?" - feito que nenhum participante conseguira até então. Visto por toda a população através da televisão, Jamal acaba preso por suspeita de fraude. Como seria possível um rapaz que morou toda a vida na rua ter conhecimento suficiente para vencer o jogo? Teria ele roubado? Ou seria apenas sorte? Para provar a sua inocência, Jamal começa a contar a sua história e com ela vai justificando cada uma das respostas que o levaram até à pergunta final, mostrando como até o conhecimento está espalhado pelo quotidiano duma maneira surpreendente. Simultaneamente, Jamal relembra a sua infância, onde assumem particular importância o seu irmão e a grande paixão da sua vida, a jovem Latika.



    Quando o filme chegou às salas de cinema, o veredicto popular surpreende toda a crítica. De semana para semana cresce uma onde gigantesca de satisfação com o filme do realizador inglês. A crítica é obrigada a reparar novamente na película de Danny Boyle e começa a encontrar-lhe méritos onde antes via defeitos. 

     Na minha opinião, o filme é muito mais que a fácil exploração da história dum miúdo dos bairros de lata de Bombaim, cujo caminho em busca da felicidade e em fuga da miséria o leva à edição local do concurso "Quem Quer Ser Milionário". O público que encheu as salas e derrotou a crítica, viu no filme de Boyle o retrato dum realismo sincero. 

     É certo que o filme vai buscar os mitos heróicos e amorosos mais conhecidos e usados em cinema e transporta-os para o mundo atual, através duma história pouco convencional onde se mistura a história passada de Jamal com o momento presente, numa fusão bem conseguida. 

      De vez em quando o público precisa que lhe contem uma história onde triunfa a bondade do espírito humano e o herói de coração puro vence todas as adversidades. É uma espécie de redenção, de catarse colectiva que de tempos a tempos sente necessidade de fazer.



     E quando pressente que há autenticidade e verdade na “história” que lhe contam, deixa-se arrebatar. Foi o que aconteceu com "Quem quer ser Mi(bi)lionário?" 

     Entretanto a onde cresceu durante todo o inverno, não só na América como na Europa, e transformou-se num tsunami que rendeu oito Óscares na noite mágica de Hollywood: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado, melhor edição, melhor fotografia, melhor banda sonora, melhor mistura de som e melhor canção original.

     Tal como na vida, também no cinema nem sempre as cartas estão marcadas e, por vezes, há momentos e circunstâncias que transformam por completo a vida duma pessoa ou dum filme.

Gabriel Vilas Boas