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sábado, 5 de dezembro de 2015

STEVE JOBS, O Filme


«Steve Jobs» é um dos bons filmes que atualmente são exibidos nas salas de cinema portuguesas. Para isso muito contribuiu a realização de Danny Boyle e a excelente interpretação de Michael Fassbender. No entanto o que mais intriga o espetador durante as duas horas deste filme é que este não foi feito para glorificar Steve Jobs como um dos maiores cérebros tecnológicos do século XX. Saímos da sala de cinema um pouco perplexos e incrédulos: “Não fazia nada a ideia que Steve Jobs fosse assim!”

O filme de Danny Boyle nasceu e cresceu no meio da polémica, por causa do argumento de Aoron Sorkin. Ele baseia-se na biografia de Steve Jobs assinada por Walter Isaacson e expõe um Steve Jobs com uma ambição desmesurada, instável e, por vezes, inaceitável; egocêntrico; incapaz de agradecer publicamente a colaboração de todos aqueles que que o ajudaram a trilhar o caminho das estrelas. Um Steve Jobs com muita dificuldade em lidar com o reconhecimento tardio da filha e outros dramas familiares.
Claro que esta versão não podia agradar à viúva de Jobs, que tentou por todos os meios impedir que o projeto da Sony avançasse, mas em vão. Este «Steve Jobs» mostra o ponto de vista do co-fundador da Apple, Steve Wozniak, que acusou Jobs de se apoderar do seu talento. Há dois anos, no primeiro filme realizado à volta da figura de Steve Jobs, intitulado “Jobs”, Wozniak havia criticado fortemente a linha usada, referindo que a película apenas servira para endeusar Steve Jobs e esquecia quem o tinha feito uma estrela.

Neste filme de Danny Boyle vingou a tese de Wozniak e diante de nós surge um Steve Jobs visionário, mas que não sabia executar as suas ideias. Esse trabalho fora feito por muita gente anónima da Apple cujo mérito nunca foi reconhecido por Steve Jobs, como fica por de mais evidente durante este filme.
A excelência deste filme não é perturbada pelo polémico ajuste de contas de Wozzniak porque a realização ficou nas mãos de Danny Boyle, realizador experiente e galardoado. É ele que consegue condensar uma vida tão cheia e tão polémica em três momentos emblemáticos que fizeram a história de Apple e de Steve Jobs: os bastidores do lançamento do Macintosh em 1984; os bastidos do lançamento da empresa NeXT, doze anos depois; os bastidores do lançamento do IPod, em 2001.

Michael Fassbender domina o ecrã. É ele que transmite, com um sentido fortíssimo, a mente de um homem que esteve bem à frente do seu tempo.
Danny Boyle idealizou um filme sobre bastidores, os bastidores dos momentos mais decisivos da vida da Apple e de um dos seus fundadores. E é aí que tudo se passa, com exceção de um ou outro flashback. Em última análise, a dupla Aoron Sorkin (argumentista) /Danny Boyle (realizador) propõe um conto filmado através de palavras: as conversas de Jobs com a sua fiel colaboradora Joana Hoffman (Kate Winslet); de Jobs com a filha que demorou a reconhecer; de Jobs com os seus colaboradores; de Jobs com John Sculley, o CEO da Apple que o despediu. Tudo isto feito de um modo intrigante e elaborado, que permite ao espetador analisar o homem para lá do génio.
Pode ser injusto ou apenas uma visão subjetiva, mas no final, fiquei com a ideia que Steve Jobs foi “apenas” um génio, mas não um homem genial.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 12 de julho de 2014

QUEM QUER SER MI(BI)LIONÁRIO?


    Quando a poucas semanas do Natal de 2008 Danny Boyle fez estrear nos EUA o seu “Quem quer ser Milionário” (ou “Quem quer ser um Bilionário?”) as críticas foram bastante severas e ninguém apostaria um dólar que três meses mais tarde o filme sairia da festa do cinema, em Hollywood, com a estatueta de melhor filme de 2008. 

    O filme conta a história do jovem Jamal Malik, oriundo duma família dos bairros de lata de Mumbai, Índia, prestes a ganhar o prémio de 20 milhões de rúpias no programa "Quem Quer Ser Um Milionário?" - feito que nenhum participante conseguira até então. Visto por toda a população através da televisão, Jamal acaba preso por suspeita de fraude. Como seria possível um rapaz que morou toda a vida na rua ter conhecimento suficiente para vencer o jogo? Teria ele roubado? Ou seria apenas sorte? Para provar a sua inocência, Jamal começa a contar a sua história e com ela vai justificando cada uma das respostas que o levaram até à pergunta final, mostrando como até o conhecimento está espalhado pelo quotidiano duma maneira surpreendente. Simultaneamente, Jamal relembra a sua infância, onde assumem particular importância o seu irmão e a grande paixão da sua vida, a jovem Latika.



    Quando o filme chegou às salas de cinema, o veredicto popular surpreende toda a crítica. De semana para semana cresce uma onde gigantesca de satisfação com o filme do realizador inglês. A crítica é obrigada a reparar novamente na película de Danny Boyle e começa a encontrar-lhe méritos onde antes via defeitos. 

     Na minha opinião, o filme é muito mais que a fácil exploração da história dum miúdo dos bairros de lata de Bombaim, cujo caminho em busca da felicidade e em fuga da miséria o leva à edição local do concurso "Quem Quer Ser Milionário". O público que encheu as salas e derrotou a crítica, viu no filme de Boyle o retrato dum realismo sincero. 

     É certo que o filme vai buscar os mitos heróicos e amorosos mais conhecidos e usados em cinema e transporta-os para o mundo atual, através duma história pouco convencional onde se mistura a história passada de Jamal com o momento presente, numa fusão bem conseguida. 

      De vez em quando o público precisa que lhe contem uma história onde triunfa a bondade do espírito humano e o herói de coração puro vence todas as adversidades. É uma espécie de redenção, de catarse colectiva que de tempos a tempos sente necessidade de fazer.



     E quando pressente que há autenticidade e verdade na “história” que lhe contam, deixa-se arrebatar. Foi o que aconteceu com "Quem quer ser Mi(bi)lionário?" 

     Entretanto a onde cresceu durante todo o inverno, não só na América como na Europa, e transformou-se num tsunami que rendeu oito Óscares na noite mágica de Hollywood: melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado, melhor edição, melhor fotografia, melhor banda sonora, melhor mistura de som e melhor canção original.

     Tal como na vida, também no cinema nem sempre as cartas estão marcadas e, por vezes, há momentos e circunstâncias que transformam por completo a vida duma pessoa ou dum filme.

Gabriel Vilas Boas