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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TABERNA CHECA

A minha curiosidade por conhecer a Taberna Checa, em Guimarães, já tinha algumas semanas. No início de Julho, quando estive na cidade para a badalada “Noite Branca”, organizada pela RFM, tive a oportunidade de conversar com o dono, Carlos Sampaio, que me apresentou demoradamente a casa, os pratos, as especialidades e me desafiou a voltar para conhecer algumas das melhores cervejas europeias, pois a sua carta ostenta mais de quarenta referências, na maioria internacionais.



Esta semana cumpri a promessa e fui almoçar à “Goulash House”, o apelido carinhoso desta Taberna que traz até ao Minho os sabores tradicionais da Europa Central. Lá fui atenciosamente recebido pela dona da Taberna Checa, que obviamente me convidou a provar o prato que dá fama maior à casa: o Goulash – uma broa deliciosa recheada com um caldo de carne de boi, cebola e paprika. Come-se com um colher e deve ser acompanhado por uma cerveja de eleição, como por exemplo a Gulden Draak ou a Pilsner Urquell ou então algo mais suave como a budweiser.


O Goulash é um prato com história. A sua origem remonta ao século IX, quando as tribos nómadas do centro da Europa, em especial os guardadores de bois – gulyas – procuravam um tipo de comida adequado ao seu estilo de vida. Nessa altura eles comiam uma espécie de sopa rica em carne cozinhada e molho picante. Apesar de ainda hoje se discutir se o goulash é uma sopa ou um prato principal, o certo é que aquilo que podemos provar em Guimarães é um prato principal. Saborosa carne, picante, aromática, forte e muito nutritiva. Entre o povo checo acreditava que esta sopa real ou prato lendário ajudava a aliviar o stresse e a curar doenças.
Ora stressado é algo que ninguém fica na Taberna Checa. Além da decoração em tons de azul e cinzento, a lembrar as tradicionais tabernas checas, quem não se deixar seduzir pelo goulash porque não é fã de carne, tenha a versão vegan – goulash vegetariano. Quem já provou e quer outras experiências checas, além das cervejas, pode optar pela Klenit Freska (uma espécie de espetada mista com batatas e salada) ou a Klenote Kure (broa recheada com carne de frango e mistura de legumes).

Para quem preferir pratos made in Portugal, a Taberna tem uma variedade apreciável de hambúrgueres tradicionais e uma panóplia de bifes assinalável, provando os muitos pontos comuns entre a cozinha checa e portuguesa. Nesse caso, talvez não seja má ideia experimentar uma cerveja artesanal de chocolate. É um bocadinho cara, mas toda a gente sabe que a qualidade paga-se.
A Taberna Checa é aquele sítio onde se vai para confraternizar com os amigos, onde se é soberbamente atendido e onde desfrutamos de uma experiência gastronómica internacional. 
A dois passos do Museu Alberto Sampaio, da Torre de Alma, e do mítico largo da Oliveira, o melhor é ir...

GAVB

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

GUIMARÃES PATRIMÓNIO MUNDIAL (I) - LARGO DA OLIVEIRA



Passam amanhã treze anos que a UNESCO considerou Guimarães Património da Humanidade. A distinção que enche de orgulho os vimaranenses deve-se em grande parte ao seu maravilhoso património arquitetónico e histórico, todo ele ligado ao berço da nacionalidade portuguesa.

Entre as diversas maravilhas que a cidade de D. Afonso Henriques apresenta, gosto particularmente do Largo da Oliveira. Durante séculos, foi o coração vimaranense e muitos reis, nobres e priores da Colegiada, ali deixaram gravada, na pedra a marca da sua personalidade e do seu zelo. 
Muita gente conhece a história dos monumentos que emolduram este discreto Largo cheio de carácter. 

Do lado nascente, a igreja de Nossa Senhora da Oliveira está assente sobre fundações de um primitivo mosteiro, do século IX. Fundada pela Condessa de Mumadona, este Mosteiro, dedicado a Santa Maria de Guimarães, foi reconstruído pelo Conde D. Henrique e foi instituído em Colegiada pelo primeiro Rei de Portugal D. Afonso Henriques.




Ainda no Largo da Oliveira deparamo-nos com o Padrão do Salado, alpendre gótico erguido no reinado de D. Afonso IV para comemorar a Batalha do Salado, em 1340.

Atentemos com mais pormenor no Padrão do Salado, que foi mandado levantar no ano 1342 pelo nosso Rei D. Afonso IV, para comemorar a participação portuguesa na Batalha do Salado.
É um monumento muito bonito, com uma abóbada de pedra, apoiada em quatro arcos em ogiva que por sua vez repousam em quatro colunas ou pedestais, lavrados e emoldurados ao gosto românico. Sobre estes arcos ficam aqueles alçados triangulares em forma de cunha ou agulha, que dão ao monumento o aspeto peculiar. No vértice dos arcos, as armas do Rei D. Afonso IV, estão gravadas em cada uma das paredes. Na base do cruzeiro, no lado norte, há um escudo das armas reais portuguesas.
Este padrão foi considerado monumento histórico de segunda classe pela Associação dos arquitetos civis e arqueólogos e, todos os anos, a 14 de Agosto ainda é feita uma procissão comemorativa da batalha de Aljubarrota.





Classificado como Monumento Nacional, os antigos Paços Municipais do Concelho situam-se no Largo da Oliveira. 
A sua edificação iniciou-se, ainda, no reinado de D. João I, tendo sido alvo de uma profunda remodelação no século XVIII. O rés-do-chão do edifício é formado por um alpendre aberto, cuja arcaria é de cariz gótico, estabelecendo ligação entre o Largo da Oliveira e a Praça de Santiago. O segundo andar, fechado por janelas, é coroado por ameias, resultantes da reforma a que foi alvo no início do século XVI. De destacar a escultura do século XIX de grandes dimensões que se encontra no centro da fachada principal, uma representação proveniente do antigo edifício da alfândega e que segundo a tradição simbolizaria o duplo contributo dos vimaranenses nas conquistas em África. 


Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 2 de maio de 2014

FERNANDO TÁVORA


Fernando Távora (1923-2005) foi um dos maiores arquitetos portugueses. Ao longo de várias décadas assinou algumas obras emblemáticas da nossa arquitetura.
                Desde cedo, Távora entendeu a arquitetura como uma expressão cultural enraizada no devir dos povos, um trabalho que traduz a inteligência dos sítios e da atividade humana que os transforma.
Podemos dividir a obra deste famoso aquiteto portuense em dois períodos: num primeiro, que compreende os anos 50 e 60 do século XX, em que evidencia a afirmação dos valores modernos; e num segundo período (anos 80 e 90), em que os valores tradicionais emergem como estruturantes nas suas propostas arquitetónicas.

                A sua intervenção no Convento de Santa Marinha da Costa, em Guimarães, é um projeto crucial no percurso de Fernando Távora. Realizada ao longo de quase uma década (1975-1984), consolida uma metodologia de projeto e permite uma passagem do primeiro para o segundo período da sua obra.
                A Pousada de Santa Marinha da Costa era um edifício cuja génese remota ao século IX e que se foi transformando ao longo do tempo até se fixar como convento no século XVIII. Após um conjunto de adaptações e transformações, sucedeu-se uma fase de degradação, que só terminou quando Fernando Távora projetou a transformação do edifício numa pousada.
                Fernando Távora começou por definir as essências históricas do edifício, projetando-as novamente, acrescentando aquilo que achou necessário. Essa reconstituição essencialista do edifício obrigou a demolir aquilo que era espúrio e a repor aquilo que considerava erradamente arruinado pela história. Para Távora, a sua intervenção no edifício da Pousada de Santa Marinha da Costa não pára nem começa a história daquele edifício, antes constitui apenas mais uma etapa da sua história dum processo e futuro abertos.

                Fernando Távora desenhou para a Pousada vimaranense um corpo novo de quartos, em forma de” L”, que não afeta nem dialoga com a estrutura preexistente.
                Do exterior, podemos observar um plano cuja caixilharia já não remete para qualquer ideia de transparência ou de mobilidade ou de manifesto estrutural, mas para uma racionalidade grave e telúrica duma proposta arquitetónica que se soma à história do edifício.

Gabriel Vilas Boas