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segunda-feira, 17 de julho de 2017

QUE PERFEITO É O TEU CORAÇÃO


Para a Sofia


Quando uma gaivota me acordou
E me trouxe o céu de Lisboa
No belo desenho do seu voo
Pude ver o céu do teu olhar.
Ele é uma asa que voa
E se estende até ao mar.




Que perfeito coração
Trazes no teu peito!
O Meu amor na tua mão
Sente-se completo e satisfeito
Porque é perfeito o teu coração.


Se um qualquer sonhador
Daqueles que sabem tão bem
As leis da dor e do amor
Outro sonho me prometesse
Dir-lhe-ia que os deuses não sabem
Que o sonho já acontece
E todos os dias me enternece.



Que perfeito coração
Trazes no teu peito!
O Meu amor na tua mão
Sente-se completo e satisfeito
Porque é perfeito o teu coração.

domingo, 16 de julho de 2017

VAN GOGH ALIVE: UMA EXPERIÊNCIA MULTISSENSORIAL


Para quem gosta de Van Gogh é como dar chocolates aos sentidos; para os outros é viver uma experiência surpreendente e gratificante, muito além do esperado.
A Van Gogh Alive digital Exhibit é uma exposição sobre o famoso pintor holandês que põe ao serviço da pintura o poder da tecnologia.
No espaço da Cordoaria Nacional, mesmo em frente ao moderníssimo MAAT e ao aprazível Tejo, as mais emblemáticas obras de Van Gogh são projetadas em telas gigantes colocadas nas paredes e no teto de uma sala larga, ao mesmo tempo que uma relaxante música nos atira para dentro das pinturas de Van Vogh e algumas bailarinas exibem os seus dotes artísticos e nos convidam a relaxar nuns reconfortantes pufes. 

Entretanto a mente viaja pela extraordinária beleza dos quadros naturalistas e expressionistas de Van Gogh.
A grandiosidade e beleza dos quadros projetados sentam-nos literalmente e por lá ficamos vários minutos até saciarmos os sentidos e o espírito. Conversamos, refletimos, meditamos e sorrimos bastante. Tentamos perceber a técnica, a paixão pela cor, a sensibilidade comovente do autor tão fabuloso quanto incompreendido e desprezado em vida.

Depois levantamo-nos e vamos recolher alguma informação sobre os principais quadros do pintor. A Vinha Encarnada, o Quarto de Vincent em Arles, o Autorretrato Com A Orelha Ligada, A Noite Estrela Sobre o Reno, a Esplanada à Noite, o Campo de Trigo Com Corvos, o Autorretrato, os Lírios, Amendoeira Em Flor, Noite Estrelada, Retrato do Doutor Gachet, Girassóis.



Em todos eles vamos perceber um talento puro ligado e uma alma delicada. É então que voltamos à sala principal e tornamos a olhar com atenção aquela panóplia de cor, tons e formas e entendemos melhor que esta exposição tenha já percorrido três dezenas de cidades e encantado centenas de milhar de pessoas por toda a Europa. 

GAVB

sábado, 15 de julho de 2017

O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

Francisco Geraldes, jovem jogador de futebol do Sporting, luta há vários meses para convencer o exigente treinador Jorge Jesus a dar-lhe uma verdadeira oportunidade de se impor na primeira equipa do clube leonino.
Geraldes é talentoso, irreverente e um provocador, o que não se deve confundir com “tipo que tem manias”. 

Há uns meses foi apanhado pela objetiva de um adepto a viajar de metro, para casa, duas horas depois de se ter estreado a titular, em Alvalade, pela equipa do seu coração. Não foi Francisco Geraldes que publicou a foto no Instagram nem tão pouco se lhe ouviu um comentário sobre o assunto, apesar dos vários elogios que recebeu.

Esta semana, Geraldes foi apanhado pela câmara de um fotojornalista a ler “Ensaio Sobre A Cegueira” de José Saramago, sentado no banco dos suplentes enquanto os colegas realizavam um treino. Mais uma vez, Francisco não fez de propósito, pois quem o conhece minimamente sabe da sua paixão pela pelo futebol e pela leitura.

A atitude do jovem futebolista sportinguista escancarou de espanto a boca de alguns que sempre olharam para os futebolistas como uns broncos que mal sabem pronunciar duas frases decentemente. Pensam mais ou menos o mesmo das top models, numa demonstração de inveja e tontice que apenas merece comiseração.

Os futebolistas, tal como muitos de nós, também lêem livros por prazer, vêem filmes de culto, prestam atenção a documentários, seguem a atualidade e têm opinião formada e sustentada sobre vários assuntos da vida e do quotidiano. Quem convive com alguns mais de perto sabe que muitos deles vão muito para além do “temos de levantar a cabeça” e conseguem alinhar melhor um discurso coerente e argumentativo do que muitos dos seus detratores intelectuais dão um chuto de jeito numa bola.

Geraldes não agiu corretamente ao dedicar parte do seu treino à leitura de “Ensaio Sobre A Cegueira”, porque estava a trabalhar e do seu trabalho também faz parte prestar atenção ao jogo dos colegas para daí extrair os ensinamentos que o treinador quer passar daquele exercício técnico-tático. É possível que seja castigado, até de uma maneira demasiado severa, pelo seu treinador. No entanto, a sua saudável loucura já marcou pontos muito positivos noutras áreas.
Aquela icónica imagem do talentoso médio sportinguista a ler “O Ensaio Sobre A Cegueira” enquanto os colegas treinavam é uma inconsciente provocação ao cego preconceito de muito de nós que pensa e age por estereótipos.

GAVB

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O FAROLEIRO APAGOU A LUZ



O faroleiro apagou a luz
E foi-se embora,
Talvez não mais regresse...
Cansado de tanta demora.

No longo silêncio do Oceano
O marinheiro estende a sua tristeza
Sobre a calmaria das águas.
Está cansado de remar,
De emitir sinais,
Do auxílio que não vem…

A luz apagou-se.
Um frio assassino invade-lhe a alma.
E deixa-o sem reação.
Nenhum porto seguro o seduz
Como a razão sem razão
Daquela luz.
Gavb

quinta-feira, 13 de julho de 2017

LIU XIAOBO: A MORTE CHEGOU ANTES DA PAZ


Morreu o Prémio Nobel da Paz de 2010, o ativista chinês Liu Xiaobo.
Há sete anos, Liu deixava vazia a cadeira do Nobel da Paz, porque as autoridades de Pequim impediram-no de receber o mais nobre prémio que um ser humano pode receber. Sete anos volvidos, Pequim volta ao banco dos réus da opinião pública mundial, por não ter permitido que Liu Xiaobo pudesse ter morrido em paz e em liberdade, permitindo-lhe tratar-se no estrangeiro, do cancro que o vitimou.  
Liu Xiaobo morreu livre e em paz, mas a China e os chineses continuam presos a um regime ditatorial que os diminui a cada dia que passa. Liu foi uma luz que se acendeu no longo mar da China e que as autoridades não souberam aproveitar para mudar de rumo.

Liu tinha a paciência chinesa, a sabedoria da espera e uma bondade infinita. Dedicou a vida a uma luta ainda por vencer, mas da qual sairá sempre triunfador. 
Liu foi das mais belas e poéticas lições de amor à liberdade, à paz e ao seu país que o mundo conheceu nos últimos vinte anos. Por isso, devemos olhar para o seu legado como um farol, uma oportunidade de fazer e ser melhor, pois ainda há muitos lugares e muitos povos que não desfrutam de direitos tão básicos como a liberdade, a democracia, a paz, a igualdade de género ou de classe social.
A tranquilidade e coragem com que Liu aceitou as consequências das suas escolhas mostram-nos que ainda há esperança para a Humanidade, porque há gente com força suficiente para não vergar ao poder injusto, arbitrário e totalitário.
Obrigado Liu Xiaobo, por esta lição de humildade, humanidade, coragem e liberdade que deixas em cada um de nós.

Requiesce In Pace.

gavb

quarta-feira, 12 de julho de 2017

DUZENTOS NOVOS PSICÓLOGOS ESCOLARES: TRAZEM RAÍZES OU ASAS?



A falta de psicólogos nas Escolas Públicas portuguesas é das lacunas mais evidentes e com mais anos de reivindicações. Os problemas são múltiplos e os recursos escassos, porque sucessivos governos sempre acharam que psicólogo é só para gente que precisa de tratamento psicológico, o que está muito longe de corresponder à verdade, embora haja cada vez mais professor a precisar de psicólogo com up grade de psiquiatra.


Hoje, o governo anunciou que despejará sete milhões de euros em forma de 200 psicólogos a contratar, durante o próximo ano letivo. É verdade que fazem falta 500, mas 40% das faltas detetadas ficarão supridas com esta medida.

É uma boa medida, mas temo que seja temporária. O dinheiro para este investimento vem do Programa Operacional de Capital Humano (POCH) e portanto os psicólogos serão pagos por este programa de financiamento e não pelo Orçamento do Ministério da Educação. Os sete milhões são um fundo europeu a que o governo se candidatou. Daqui a um ano, logo ser verá se o governo não dará baixa deste corpo de profissionais altamente qualificado e que as Escolas bem precisam.

Não deixa de ser curioso que, no setor da Educação, sempre que o governo está de algum modo “entalado”, por causa de uma medida incompreensível ou temerária (vide o caso dos professores excluídos do concurso à ultima hora), aparece alguma notícia milagrosa, prometendo uma melhoria futura.

Voltando aos psicólogos, eles são muito necessários nas escolas. O seu trabalho deve centrar-se nos alunos, mas não seria nada tonto que alguns deles pudessem executar algumas tarefas junto dos professores, pois o desgaste psicológico de vários professores recomenda-o em absoluto.



Era muito importante que este fosse o primeiro passo para que dentro de dois/três anos o Ministério da Educação duplicasse o quadro dos psicólogos escolares, pois o seu trabalho exige tempo e conhecimento das realidades locais, escolares e pessoais.
gavb

terça-feira, 11 de julho de 2017

VALTER HUGO MÃE EM AMARANTE (II)


A apresentação de "Homens Imprudentemente Poéticos" foi o pretexto para uma breve e deliciosa conversa com o autor Valter Hugo Mãe. Com simpatia, o escritor de "Desumanização" foi revelando os seus sentimentos sobre aquilo que escreve e o que escrevem sobre ele e os seus livros.

Em Desumanização citou uma frase de Halldór Laxness: “Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.” 
Quanto há do homem Valter Hugo Mãe nesta frase?
Eu fico em pânico com a solidão! Toda a minha vida falhei pelo medo de estar só. A maior parte dos meus erros foram cometidos por querer ter amigos e estar com alguém. Por isso, talvez esta epígrafe me interesse por me acusar, por me denunciar.

Uma leitora e admiradora sua, ao falar do que escreve, disse-me “Valter Hugo Mãe tem muito de Vergílio Ferreira e Afonso Cruz, pela inundação de ideias que os seus livros contêm e pela singularidade da escrita, de onde sobressaem frases que são autênticas obras de arte”. Revê-se, de algum modo, no estilo e na escrita destes dois escritores?
Sim… Vergílio Ferreira é um clássico que eu adoro, sobretudo pela atenção que dá aos mais velhos, a qual me motiva. Há uma disforia portuguesa no Vergílio Ferreira que é uma matéria-prima muito importante e inevitável. É inevitável que sendo nós escritores portugueses lidemos com a questão da tristeza.
O Afonso Cruz começou a escrever muito depois de mim, portanto ele é que tem um estilo Valter Hugo Mãe (risos), mas sim, eu gosto muito do Afonso.


No início do ano, o seu livro para jovens adolescentes, “Nosso Reino”, esteve envolvido em alguma polémica, pois muita gente disse que tinha uma “linguagem sexual inapropriada”. O que mais o magoou nas críticas?
A estupidez magoa sempre. A estupidez deixa-nos frustrados porque estamos sempre à espera de uma resposta mais inteligente. O “Nosso Reino” é um livro sobre um menino que quer ser santo e por isso é todo ele uma longa missa. É um livro tristíssimo, de uma nostalgia profunda; é uma longa auscultação de Deus. Pretende convidar Deus a dar uma prova inequívoca de que a Fé faz sentido e vai salvar esta criança.
Do martírio desta criança fazem parte duas frases que um indivíduo cretino lhe diz para o magoar, para o destituir da sua fé. No fundo, é um indivíduo que representa uma realidade demoníaca, uma destruição do padrão de beleza e dignidade como nós entendemos o cristianismo. Por isso, pegar-se nessas duas frases, que estão ali a representar o Diabo, e fazer-se crer que o meu livro é um livro obsceno é uma má fé e uma burrice, porque se alguém acha que o livro é um chorrilho de obscenidades é porque não leu o livro.

Em Homens Imprudentemente Poéticos há um antes e um depois da “Lenda do Poço”. 
O problema do Homem é mesmo o medo, o medo de se enfrentar?
O problema é uma questão de assunção da sua identidade. Estar dentro de si e não se conseguir inteirar de quem é. É como se nós passássemos a vida a ter partes de nós em gavetas. Como se não aceitássemos a nossa própria plenitude, no seu bem e no seu mal, no adequado e no desadequado.
A “Lenda do Poço” tem a ver com isto: a dimensão moral de sermos amplamente quem somos. Ou seja, até que ponto nós temos obrigação moral – e eu acho que temos – de saber quem somos e vivermos consoante o que somos?
 Ítaro lida com o monstro representando o seu medo e está a lidar consigo mesmo. Ao sair do poço está a regressar à vida, capaz de aceitar o seu erro e a sua virtude; ao conquistar o seu medo, ele consegue consciencializar-se de que o seu erro pode ser válido, de que a sua virtude pode ser válida. Eu acredito muito nisto. Todos erramos. Todos vamos falhar. Nunca saberemos tudo. É legítimo fazermos a nossa vida num caminho de apaziguamento sabendo que ainda falharemos bastante.
gavb