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domingo, 23 de junho de 2019

ARMA QUE MATOU VAN GOGH VENDIDA EM LEILÃO POR PREÇO RECORDE

A arma que Vincent van Gogh, extraordinário pintor holandês do século XIX e uma das figuras incontornáveis da História da Pintura, utilizou para se suicidar foi a recentemente a leilão, sendo comprada por um preço três vezes superior à sua avaliação.
O comprador da «arma mais famosa da História da Arte» permanece incógnito, mas o preço por ele desembolsado, não: 162.500 euros.
O leilão, decorrido em Paris, teve o condão de reacendeu a polémica em torno da morte do icónico pintor, pois não é pacífica a tese de suicídio. 
Um grupo de investigadores norte-americanos defende, desde de 2011, que Van Gogh terá sido baleado acidentalmente. No entanto, para a leiloeira Lefaucheux, o revólver, com um calibre de 7mm, arrebatado por mais de 160 mil euros foi a "arma por detrás do suicídio do pintor", quando este tinha apenas 37 anos, em julho de 1890.

Não deixa de ser curioso que, passado pouco mais de um século sobre a morte deste extraordinário pintor pós-impressionista, ele se tenha tornado, postumamente, numa máquina de fazer dinheiro, quando em vida vendeu apenas um quadro, A Vinha Encarnada,  à amiga e pintora Anna Bosch, negócio intermediado pelo irmão Théo, que durante mais de uma década financiou a sua arte. 
Hoje até o revólver que pôs termo à sua vida é vendido por um preço exorbitante, o que não deixa de nos fazer refletir sobre os estranhos caminhos da fama, da glória e da riqueza que daí advém.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A MORTE DE VINCENT VAN GOGH


«O nosso querido amigo Vincent morreu há quatro dias. (…) No domingo à tarde, partiu para o campo, perto de Auvers, encostou o cavalete a uma meda de feno, foi para trás do castelo e disparou um revólver sobre si próprio. Com a violência do impacto (a bala entrou por debaixo do coração), ele caiu, mas levantou-se; caiu mais três vezes, mas regressou à estalagem onde se hospedara (Ravoux, Place de la Mairie), sem falar a ninguém do seu ferimento. 

Morreu, finalmente, na segunda-feira à tarde, a fumar o seu cachimbo que se recusou a largar, explicando que o seu suicídio fora absolutamente deliberado e que a sua lucidez era total. (…). 
A urna estava coberta com um simples pano branco e rodeada de montes de flores, os girassóis de que ele tanto gostava, dálias amarelas, flores amarelas por todo o lado. Era, como se lembram, a sua cor preferida, o símbolo da luz que ele sonhava ser tanto no coração das pessoas como nas obras de arte.»
Carta dirigida pelo artista Émile Bernard ao colecionador de arte Albert Aurier, em 4 de agosto de 1890.


O artista pós-impressionista Vincent Van Gogh suicidou-se com um tiro no estômago, num campo perto de Auvers-sur-Oise, nos arredores de Paris, a 28 de julho de 1890. Foi o local onde pintou um dos seus últimos quadros, Campo de Trigo com Corvos. O irmão, o marchand Théo (que o encorajara a seguir arte) fora o esteio emocional imprescindível do pintor atormentado e foi em seu auxílio, registando as últimas palavras de Vincent “A tristeza ficará para sempre.” Vincent morreu a 29 de julho, com 37 anos.
Numa carta dirigida uns dias antes à irmã de ambos, Elizabeth, Théo escreveu:
«As pessoas deviam perceber que ele é um grande artista, algo que muitas vezes coincide com ser um grande homem. Com o tempo, isso virá a ser reconhecido e muitos lamentarão a sua morte prematura.»
Théo morreu apenas seis meses depois, demasiado cedo para testemunhar a adulação global de que Vincent e a sua obra seriam alvo.

Vale a pena refletirmos sobre o desespero em que vivem muitas pessoas que nos rodeiam. Muitas delas cometem atos como o de Vincent Van Gogh e só então reparamos na pessoa que vagueou à nossa frente durante meses e percebemos que podíamos ter feito algo para anular aquela angústia.      

quinta-feira, 31 de julho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE VAN GOGH, DE COQUELICOTS, BLEUETS


Vincent Van Gogh, Champs de Coquelicots, 1890, Óleo s/tela, 73 x 91.5 cm.

A 24 de abril, Maria Vilas escreveu um belíssimo texto sobre Van Gogh, pelo que hoje me escuso a incursões sobre a sua extraordinária biografia ou sobre a sua pintura de tensão e suas principais obras de referência.
Na semana em que celebramos o centenário da eclosão da Primeira Guerra Mundial, permitam-me fugir um pouco à temática de sempre e que vos fale de flores. Das flores de Van Gogh. Não, hoje não vos falarei dos célebres girassóis, omnipotentes do amarelo que este pós-impressionista tanto apreciava…mas sim de coquelicots e de bleuets. Dessas simples flores do campo que teimam sempre em crescer, dando esperança e sinais de que a vida continua, sempre, ali, mesmo sob um palco de morte e destruição como o eram as horríveis trincheiras...trincheiras plenas de honra dos jovens soldados em luta por ideais e inundadas de sentimentos tenebrosos e assustadores também.
Hoje, permitam-me deixar convosco em homenagem a todos os soldados mortos na Primeira Guerra Mundial, os bleuets e os coquelicots que Van Gogh tão bem pintou e que tanto alento e esperança deram a todos os que, nas insalubres trincheiras, lutavam pela pátria e pelos seus ideais. É sabido que Van Gogh admirava a cor e a trabalhava como ninguém. Por falta de dinheiro para contratar modelos, pintava sobretudo paisagens ou flores, que explorava numa busca permanente pelo pormenor expressivo e revolto de tensão. Ao fazê-lo, em vibrações de cor, empastelava as telas, que emergiam em relevos imprecisos, também elas a dar sinais de perturbação incontornável e fatal.

"Les tranchées britanniques dans les champs au printemps 1915 étaient remplis de coquelicots », afirmou Francis Ballace, trazendo a certeza e a esperança a centenas de soldados, de que a vida flui, sempre.
 John Mac Crae escreve o poema «In Flanders Fields», que imortaliza esta singela flor que grassa no horror da terra de ninguém.
Estas flores de que vos falo hoje e cujo nome não traduzo (o francês seduz em musicalidade) transformaram-se em símbolos de memória em honra dos soldados da Commonwealth que pereceram na Primeira Grande Guerra.

«In Flanders Fields»
Au champ d'honneur, les coquelicots
Sont parsemés de lot en lot
Auprès des croix, et dans l'espace
Les alouettes devenues lasses
Mêlent leurs chants au sifflement
Des obusiers.

 Nous sommes morts,
Nous qui songions la veille encor'
A nos parents, à nos amis,
C'est nous qui reposons ici,
Au champ d'honneur.


 A vous jeunes désabusés,
A vous de porter l'oriflamme
 Et de garder au fond de l'âme
Le goût de vivre et de liberté.
Acceptez le défi, sinon Les coquelicots se faneront
 Au champ d'honneur.

 De John Mac Crae
Traduction: Jean Pariseau


Champ de Bleuets, Van Gogh, óleo s/tela

Vase aux coquelicots et bleuets, Van Gogh, óleo s/tela

Os franceses fazem o mesmo, com “… les p’tits Bleuets” e surge pelas mãos de Alphonse Bourgoin o poema que não resisto a transcrever:

Les voici les p’tits Bleuets,
Les Bleuets couleur des cieux
Ils vont jolies,gais et coquets,
Car ils n’ont pas froid aux yeux.
En avant partez joyeux;
Partez,amis,au revoir!
Salut à vous,les petits”bleus”.
Petits bleuets,,vous notre espoir!

Alphonse Bourgoin



Deixo-vos com flores de esperança. Até Setembro.

Rosa Maria Alves da Fonseca



quinta-feira, 24 de abril de 2014

VINCENT VAN GOGH

Telas de Solidão

“Não tenho talento para as pessoas.”
 A frase é de Vincent van Gogh, pintor holandês pós-impressionista e um dos artistas mais incompreendidos de sempre, em vida.
Nasceu a 30 de março de 1853, o homem. O pintor, esse, nasceria mais tarde quando, por volta do ano de 1880, numa manifestação “tardia” de paixão e talento congénitos, Van Gogh tomou a decisão irreversível de viver para a pintura. Já da pintura nunca conseguiu viver e não fora o apoio incondicional do irmão Theo que o sustentou dali em diante até ao fim da sua vida e talvez tivesse sido forçado a arredar o seu sonho em troca de uma atividade com retorno. No entanto, aquela generosidade (que ele entendia sobretudo como um investimento) trazia à contraluz a angústia de que a mesma lhe falhasse algum dia, tornada quase terror quando Theo decidiu casar.
Ainda assim viveu quase sempre no limiar da pobreza, muitas vezes apenas com o bastante para comprar primeiro as tintas, depois o pão.

As suas obras estão hoje entre as mais vendidas e admiradas. Em 1990, o seu “Dr. Gachet” (quadro que retrata o médico de personalidade singular que o acompanhou nos últimos meses de vida) foi comprado pela soma recorde de oitenta e dois milhões e quinhentos mil dólares. Contudo, em vida vendeu pouco mais do que um quadro (sendo o mais conhecido “A Vinha Vermelha”, à pintora Anna Boch), o que o enchia de tristeza.

                                                                                             A Vinha Vermelha

 Numa sociedade sem lugar para a diferença, onde o amor se confinava aos opostos (e não era seguro que a sua sexualidade apontasse exclusivamente para o feminino), a vida, ao tríptico trabalhar, casar e ter filhos e a arte a uma estética académica imberbe o suficiente para apreciar a sua pintura expressiva e plena de carácter, nem os seus o perceberam (exceção feita ao irmão Theo). Não entenderam essa forma de pintar feita de pinceladas curtas, soltas e corredias e tintas espremidas quase diretamente do tubo para a tela em empastes sugestivos ou elipses nervosas, onde o traço era assinatura e as cores deixavam de ser reféns da realidade e amarravam as emoções à tela. De tal modo, que a sua mãe vendeu ao desbarato os quadros que Van Gogh deixou na casa dos pais a um adeleiro (que os revendeu pelo equivalente a dez cêntimos a peça) e os que não conseguiu vender… queimou-os!

                                                                                       

                                                                       Retrato de Alexander Reid


Até os modelos se esgueiravam dele, em desculpas, por não quererem ver-se retratados da forma distorcida, quase caricatural, como liam a sua pintura. Quando no final do trabalho lhes ofertava a obra, faziam dela o uso mais inusitado que se possa imaginar, desde servir de tapume a um qualquer buraco a alvo de setas para os filhos brincarem.
Pintava como quem fugia, com uma urgência animal responsável pela quantidade incrível de quadros que nos deixou em apenas dez anos de produção artística. Houve alturas em que chegou a criar um quadro (e até mesmo dois, na fase final) por dia.
Retratou gente anónima e sofrida em quadros tingidos de escuridão, ao gosto naturalista. Mais tarde, influenciado pela luz dos impressionistas, correu atrás das paisagens clareadas pelo sol da Provença, França.
Fixou-se em Arles, deixou-se seduzir pelas possibilidades pictóricas, mas sentiu falta da partilha intelectual que tinha vivido em Paris e sonhou com uma comunidade de artistas. Atraiu para junto de si o pintor Gauguin (outro autodidata), mas foi o começo do fim. As diferenças, conceptuais (Van Gogh defendia a pintura ao ar livre, finalmente possível pela invenção da tinta em tubo, Gauguin protestava que a arte devia socorrer-se apenas da memória e da imaginação) e de temperamento entre os dois agigantaram-se no insistente inverno de 1888 que os obrigou a passar largos dias fechados na pequena casa que co-habitavam. A tensão fermentou até culminar no episódio em que Vincent se descontrolou e seguiu Gauguin de navalha em punho. Daí até à partida inevitável de Gauguin e ao redemoinho de sentimentos de solidão, desespero e alienação que culminou na automutilação da orelha direita do pintor holandês, foi um passo.
A partir dali iniciou um entra e sai de instituições psiquiátricas que em nada o ajudou. Doente (sofreu crises de alucinação e paranóia que o chegaram a deixar inconsciente) e infeliz, só a sua arte não se ressentiu. Fora algumas intermitências coincidentes com episódios de crise da sua doença mental, Van Gogh nunca deixou de pintar, pintou compulsivamente, com o frenesi próprio do desassossego interno que só na arte serenava. É dessa altura a atormentada “Noite Estrelada”, assim como o poderoso grito de solidão que é “Campo de trigo com corvos.”
                                                         Noite Estrelada

Procurou ir sempre ao encontro das pessoas (até no pormenor de assinar “Vincent” nos seus quadros porque os franceses percebiam mal a grafia “Van Gogh”), deu-se em doses desmedidas de amor, mas a sua vida foi povoada de desencontros.
Foi de esperança em desalento e de desalento em esperança até não poder mais.
A 27 de julho de 1890 disparou um tiro sobre si próprio, arrastando um fio de vida durante os dois dias seguintes, até morrer. A sua genialidade resumiu-a Pissarro quando vaticinou: “esta criatura ou enlouquece ou nos deixa a todos muito atrás de si.” 

                                                     Campo de Trigo com Corvos

Deixo-vos com Don McLean e a música – para mim belíssima - que compôs em homenagem ao pintor: “Vincent”. Acompanha-a um desfile de alguns dos mais belos quadros de Van Gogh.

Maria Vilas