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domingo, 5 de fevereiro de 2017

COMO SÃO ADMIRÁVEIS AS PESSOAS QUE NÓS NÃO CONHECEMOS BEM!



A frase é (mais uma vez) de Millôr Fernandes. Reparei pela primeira vez nela quando observei como determinada pessoa era defendida, elogiada até, por pessoas que nada conheciam dela além do nome. “Parecia-lhes”, “tinham ouvido dizer”, “acreditavam no que lhes era dito”.

Sempre pensei que o desconhecimento nos garantisse o benefício da dúvida, mas nada mais do que isso.
A facilidade com que se elogia alguém que não se conhece torna-nos pouco credíveis, ainda que possa ser bastante útil ao elogiado. 
Para o elogiado, somos uns tontos úteis; para quem nos ouve e está habituado a “ver para crer”, não passamos de uns pobres inocentes que se deixam levar pela aparência.

O elogio é um ato nobre, que devemos praticar regularmente, mas sempre com verdade. Não é por simpatizarmos com determinada pessoa, por gostarmos muito dela até, que, automaticamente, ela passa a ser digna de encómios ou mereça de imediato a nossa defesa. O elogio e a amizade são duas atitudes distintas e ambas só são verdadeiras quando não dependem uma da outra. Elogiar um amigo não tem que ser uma ação suspeita, mas um ato de justiça.
Para elogiar ou para criticar é preciso conhecer e… ter coragem para o fazer. 
Tanto o elogio como a crítica engrandecem tanto quem os  faz como quem os recebe; caso contrário, tornamo-nos irrelevantes e apenas chamamos a atenção para os defeitos do outro.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

VIVER É DESENHAR SEM BORRACHA


Esta extraordinária frase de Millôr Fernandes sempre me inspirou, nunca me causou medo.
Quando olho para a vida vejo uma oportunidade, não um sacrifício ou uma rotina. Claro que a vida tem rotinas cansativas e muitas das oportunidades que se nos deparam não têm o brilho sonhado, mas isso só acontece às vezes. Se nos quisermos inquietar um pouco, podemos perguntar à nossa preguiça o que fizemos no intervalo dessas vezes.
No entanto, o meu objetivo não é inquietar o espírito, mas provocar a imaginação. Por isso volto ao desenho. Aquele que se faz sem borracha, onde todas as imperfeições são impressões digitais inapagáveis. E ainda bem que o são. A identidade de cada indivíduo constrói-se de muitas coisas banais, alguns momentos extraordinários e também de experiências traumáticas. Poder retocar a vida, submetendo-a a um photoshop hipócrita é um suicídio de personalidade.

Viver é arriscado? Quando nos demitimos de pensar, quando deixamos de amar, quando perdemos o interesse em aprender, provavelmente sim! Arriscamos torná-la um embuste enfadonho. De contrário, é um prazer imenso.
Há medida que vamos construindo a tela da vida, podemos admirá-la, transformá-la, receber elogios e críticas… só não podemos apagar nada do que fizemos. Apagar algo (por mais doloroso que seja) era destruir um pouco de nós. Não gosto disso.
A vida é para se assumir por inteiro. Uma vida sem erros nem falhas é algo que que soa a fraude. Talvez por isso admire tantos os artistas. Não porque têm a «mania» que são diferentes, mas porque têm a ousadia de serem eles, de se exprimirem com originalidade, sem receio do ridículo, porque não usam o tempo para atacar ou amesquinhar os outros, mas para criar. Fazem-no sem medo da crítica, sem medo do erro.
Viver não é arriscado! Deixar de viver é que é um desperdício. De oportunidade, de tempo, de inteligência, de talento, de sabedoria. Passar pela vida, deixando a nossa página em branco é imperdoável. E, mais importante que os outros gostem ou não do desenho, é nunca largar o lápis, preenchendo cada espaço que o Tempo permite com o traço inconfundível da nossa mão. Afinal, só interessa viver quando somos o único dono do nosso destino, o capitão-mor da nossa alma.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 26 de agosto de 2014

MILLÔR FERNANDES


“O homem é o único animal que ri. E é a rir que ele mostra o animal que é!”





Millôr Fernandes é uma figura incontornável da literatura, do jornalismo e, sobretudo, do humor brasileiro do século XX.
Millôr tinha um especial talento para a tirada certeira, muito bem-humorada e satírica. Pelas redes sociais encontramos dezenas de frases do escritor brasileiro que analisam com ironia e uma boa gargalhada o ser humano em geral e o brasileiro em particular.
Millôr Fernandes era um génio e como todos os génios não cabe num espartilho por muito dourada que seja a gaiola. Escritor, desenhador, tradutor, jornalista, dramaturgo, Millôr deixou a sua marca na sociedade brasileira, pela maneira incisiva com a fotografou em pequenas legendas que ficaram célebres.

Hoje, apenas recordo a sua faceta de dramaturgo. O teatro brasileiro fica-lhe a dever duplamente: enquanto tradutor de grandes textos dramáticos e enquanto criador. Millôr costumava dizer com graça que para “traduzir é preciso ter todo o rigor e nenhum respeito pelo original”. Foi com esse espírito que os brasileiros conheceram o “Hamlet” de Shakespeare, “O jardim das cerejas” de Tchekov, “Assim é se lhe parece” de Pirandello ou a “Antígona” de Sófocles entre mais de setenta peças de autores estrangeiros.
Ao mesmo tempo que lutava contra a ditadura militar nas colunas dos jornais ou criticava instituições estabelecidas e ideologias perenes, Millôr Fernandes criava as suas próprias peças de teatro. Entre 1950 e 1984, escreveu mais de vinte textos dramáticos, todos eles eivados de humor.


No entanto, as comédias de Millôr não buscavam o riso pelo riso. A ironia e a sátira são permanentes na sua obra e estão ao serviço da análise social, cultural e histórica. Ainda recentemente vi, em Amarante, um grupo de teatro amador de Valongo – A Retorta – levar à cena “A História é uma história”, escrita por Millôr Fernandes em 1977. Nesta peça, a História da humanidade é passada em revista desde os primórdios até à atualidade, dum modo muito sintético e muito bem -humorado.
Todavia, o melhor do dramaturgo brasileiro está em peças como “U elefante no caos” (1960), “Flávia, cabeça, tronco e membros” (1963), “É…” (1976) – unanimemente considerada a mais madura peça de Millôr, não só pela crítica como pelo público – e “Os órfãos de Jânio” (1980).
No teatro como na vida cívica, Millôr é fiel aos seus princípios: criticar é uma arte que se deve fazer com humor, ou não fosse ele um brasileiro, povo para quem até o assunto mais circunspecto deve ser levado a brincar. No entanto, essa é uma visão simplista e muito ligeira para caracterizar uma mente brilhante como é Millôr. Ele possuía um agudo sentido crítico, uma cultura multidisciplinar e uma cidadania incorruptível de que não abdicou mesmo quando o Brasil suspendeu a democracia.


A melhor homenagem que podemos fazer a Millôr Fernandes é procurar uma das suas peças e lê-la com atenção. No fim, o nosso espírito pedirá outra fatia “Millôr”, pois Millôr é melhor que sobremesa porque apetece sempre repetir e não faz mal ao colesterol.

Gabriel Vilas Boas