Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Zeca Afonso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Zeca Afonso. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 2 de agosto de 2016

OS VAMPIROS

Em 1963, Zeca Afonso escrevia “Os Vampiros”, um das suas músicas mais emblemáticas, procurando expressar, através da música, a sua revolta e indignação pelo aproveitamento material que um pequeno grupo de pessoas, ligado ao poder económico e político, fazia do trabalho de grande parte da população.
 Por outras palavras, Zeca Afonso criticava a ignóbil exploração de que a população era vítima.
Esta sugestão de exploração é desde logo sugerida pelo título “Os Vampiros” e prossegue no refrão “Eles comem tudo / E Não Deixam Nada”
Zeca escreveu esta canção em plena ditadura salazarista e por isso teve necessidade de recorrer à alegoria dos Vampiros para expressar a sua revolta com o sofrimento, a que o povo era submetido, para sustentar os luxos de uma elite. 
O clima de medo e repressão é visível em expressões como “São os mordomos / Do Universo Todo/ Senhores à força/ Mandadores sem lei” e “No chão do medo/Tombam os vencidos/Ouvem-se os gritos”.


Curiosamente, o padre António Vieira já no seu famoso “Sermão de Santo António aos Peixes” havia aflorado o tema, quando na IV.ª parte repreendia os vícios dos peixes em geral, dizendo que o seu grande problema era que se comiam uns aos outros e, pior do que isso, que os grandes comiam os pequenos, de tal modo que era preciso uma grande quantidade de pequenos para sustentar um grande.
Cinquenta anos depois, o problema da exploração do «pequeno» pelo «grande» continua, com a agravante de que se faz com maior descaramento. Mesmo descoberta a exploração, denunciada a trafulhice, posto a nú o engano, os prevaricadores continuam impunes.

Ainda que a denúncia seja precisa e útil, já não me parece suficiente. A denúncia só faz mossa quando há vergonha ou medo da lei e em Portugal nenhum dos casos se verifica. Talvez a solução passe por uma lenta mudança de mentalidade. A rejeição social de tais atos, o corte afetivo com quem os pratica talvez desmotive alguns. Quando um corrupto coberto de ouro, for, aos olhos da esmagadora maioria, apenas um corrupto desprezível, talvez alguns tenha vergonha em continuar a sê-lo. Precisamos de voltar a ter coisas que não têm preço. 
Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

GRÂNDOLA, VILA MORENA, de Zeca Afonso


Zeca Afonso partiu há trinta e três anos, deixando uma saudade imensa entre os portugueses. Ele era a personificação musical das melhores conquistas do 25 de abril de 1974: liberdade, fraternidade, democracia.
Na década de sessenta e setenta ele foi a voz do povo na luta contra o fascismo, a ditadura, a injustiça social. Sendo assumidamente de esquerda, a sua música estava para além da ideologia e unia pessoas de diversos quadrantes políticos, ideológicos, sociais e geográficos.
Zeca Afonso “fazia” uma música simples, de raiz popular, mas profundamente portuguesa. Há nas suas composições musicais a saudade, a tristeza, a esperança de tempos melhores, assim como a denúncia das injustiças sociais que caracterizavam a sociedade portuguesa do terceiro quartel do século XX.

A sua música era simples sem nunca ser simplória, pois brotava da alma lusitana e nela se reconhecia a esmagadora maioria dos portugueses. As letras comunicavam ideias justas e claras, assumiam posições políticas, denunciavam.
Há muitas canções que ainda hoje são trauteadas por milhões de compatriotas, com emoção. Hoje quero apenas concentrar-me numa “Grândola Vila Morena”. Escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para servir de senha/sinal para o começo da Revolução de Abril de 1974, tornou-se um ícone dessa mesma revolução, pois resumia muitos dos valores que se pretendiam restaurar em Portugal: democracia (“o povo é quem mais ordena”), fraternidade, liberdade.

Poucas canções alcançaram aquilo que “Grândola Vila Morena” conseguiu: símbolo duma revolução sem sangue; emblema da recuperação da liberdade de expressão, fator de união entre um povo demasiado oprimido.
Se reparamos bem, não há nada de excecional na letra ou na música, mas a sua simplicidade refletia a limpidez de alma de um povo que procurava renascer dum longo inverno de privações. O povo português revia-se nela, porque ela traduzia os seus desejos mais intrínsecos e básicos.


Passadas três décadas, não encontro outra música que nos unisse tão profundamente como a composição de Zeca Afonso, nem vislumbro algo que defina tão categoricamente um período social e histórico como o “Grândola Vila Morena”.
No meu entender, o grande segredo da música de Zeca Afonso era a sua raiz popular e despretensiosa, mas que ao mesmo tempo penetrante, ousada. Não havia dúvidas sobre o que queria dizer com os “Vampiros” ou “A Formiga No Carreiro”.
Acho que a música de Zeca Afonso foi mais um fenómeno social que político. A música do Zeca trouxe as pessoas para a rua, acordou-as para a vida e pô-las a cantar o que lhes ia na alma. Talvez não fosse má ideia que os músicos portugueses atuais pensassem nisto:
 Que fotografia musical deixaremos destes tempos de frustração coletiva? 

 Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

AO SOM DE... ZECA AFONSO

No dia em que passam 27 anos da morte de Zeca Afonso, poder-se-á reflexionar sobre a importância da relação entre a palavra, a poesia e a música num determinado período histórico do nosso país. Quando nada era permitido e as vozes incómodas ao regime eram silenciadas pela censura, a música servia para fazer passar uma mensagem, um alerta, um sinal aos mais atentos durante o período do Estado Novo. Nem todos descodificavam as mensagens subentendidas nas letras de muitas canções porque a população era em grande parte analfabeta, inculta e estava muito pouco informada. Nessa época, as canções, com boas músicas e belíssimos poemas escritos por autores como Ary dos Santos, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e José Afonso, entre outros, tinham uma força e um impacto muito grande numa faixa da sociedade mais instruída e descontente com o regime e por isso se considerava que a canção era uma arma.


Zeca Afonso, músico, autor e poeta, foi um dos cantautores que mais marcaram a música de intervenção contra o regime, usando o seu timbre vocal único para interpretar poemas seus e de outros autores, de forma a que, usando termos metafóricos fosse capaz de iludir a censura. Conta-se, que em certos concertos, o refrão da música Natal dos Simples,  mais conhecida como Janeiras, era cantado como “vão parar à pide, vão parar à pide, vão vão vão vão” em vez da letra que todos conhecemos. Escrever um texto, seja prosa ou poesia, nunca é tarefa fácil, mas naquela época, se por um lado era difícil porque era preciso dizer de forma camuflada aquilo que não podia ser dito em alta voz, por outro, havia muitos motivos para escrever, e esse jogo de palavras com certeza ajudou a uma capacidade de escrita que permitiu uma grande  produção de textos e poemas, muitos deles depois cantados, sem que a censura tivesse percebido as mensagens implícitas.
Zeca Afonso teve a felicidade de assistir ao 25 de abril de 74, continuando a cantar até ser  vencido pela doença. Para recordar, e porque este ano se comemoram os 40 anos da revolução, aqui fica para audição, “Os Vampiros” sendo que vampiro era o termo com que se referiam à polícia.
Margarida Assis