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domingo, 11 de novembro de 2018

DADOS A FOLGAR NÃO GOSTAM DO TRABALHO


No último quartel do século XV, quando os povos peninsulares se preparavam para descobrir o mundo que existia para lá da Europa, o cavaleiro alemão, Nicolau Popplau, oriundo da Silésia, viajou pelo continente europeu, entre 1483 e 1486, e fez uma paragem em portugal.
A sua estadia no nosso país permitiu-lhe fazer um interessante retrato dos portugueses, que foi muitas vezes recordado, nos últimos cinco séculos. 

«Os portugueses são entre si e para o seu rei, com exceção da nobreza, muito mais leais que os ingleses; nem são tão cruéis e desasinados como estes. No comer e no beber mais moderados. São mais feios, de cor morena e cabelo preto. Dados a folgar , não gostam de trabalhar e por isso  não dão hospedagem para ganhar dinheiro, nem a nacionais, nem a viajantes. São grosseiros, gente sem bondade nem misericórdia, incluindo a própria corte do rei. [...] Muitos vivem unicamente de pão e água. Há poucas mulheres belas, que parecem mais homens que mulheres, porém têm olhos geralmente negros e formosos; penteiam-se sem exagerados adornos no cabelo, cobrem o colo com um pequeno laço de lã, ou com um laço de seda; deixam mirar livremente a a cara e trazem o vestido e a camisa decotados, de maneira que se pode ver metade do seio; da cintura para baixo trazem muitas saias, por isso o revés do corpo parece garboso e grande como um ganso de São Martinho, e tão volumosos que, deveras o digo, não hei jamais visto coisa assim maior.»

O discurso do alemão é tão desconcertante como ambivalente, misturando elogios e críticas de gosto bastante duvidoso, até porque uma das qualidades dos portugueses mais gabadas externamente é a hospitalidade e, atualmente, o país ganha bom dinheiro com o turismo. No entanto, no meio do texto do alemão ficou cravada aquela frase, "Dados a folgar não gostam do trabalho", que, tenho a impressão, constituiu o fio condutor do pensamento do alemão médio sobre os portugueses. 

Não deixa de ser curioso que a nossa opinião sobre certos povos se baseia em algo tão frágil como a opinião, muito subjetiva, do nossos conterrâneos que, em determinado momento, visitaram um dado país e entraram em contacto com um número pequeno de habitantes desse território. Ou seja, não raras vezes, assentamos a nossa avaliação sobre um povo num preconceito, numa observação magoada ou uma impressão de dois ou três dias. É muito pouco e muito leviano.  

GAVB

sexta-feira, 18 de maio de 2018

FOI CHATO, MAS O CRIME FAZ PARTE DO DIA-A-DIA



A frase é do inenarrável Bruno de Carvalho e só não sofreu a indignação geral, porque do ainda presidente do Sporting toda a indignidade e mediocridade é, infelizmente, expectável. No entanto, aquilo que Bruno de Carvalho teve a coragem de dizer foi aquilo que muitos tiveram a indecência, a canalhice de fazer, durante anos, ao povo português.
Vejamos então…


É «chato», é criminoso que os portugueses em geral, e os funcionários públicos em particular, tivessem de pagar com os seus salários, impostos e empregos a corrupção e os roubos nos BPN, BES, CGD, na EDP, na PT, mas o crime faz parte do dia-a-dia da política portuguesa, desde que vivemos em democracia.

É «chato», criminoso até que o governo tenha congelado as progressões na função pública e além disso se recuse a recolocar os seus trabalhadores no escalão remuneratório devido, invocando a falta de recursos financeiros, quando todas as semanas descobrimos que esta gente nos desfalcou durante os últimos vinte anos em negócios ruinosos, corruptos, criminosos. É chato, mas temos de aceitar que a o crime faz parte do dia-a-dia.

É «chato», criminoso igualmente que tantos hooligans do desporto ou do comentário desportivo, político ou económico se passeiem impunemente pelas televisões, jornais e rádios, insultando a nossa inteligência e dignidade enquanto sociedade, mas temos de aceitar que o crime faz parte do dia-a-dia.

Temos de aceitar a impotência do governo perante os incêndios e os criminosos que os ateiam; temos de aceitar que Salgado continue em casa e um jornalista tenha de lhe fazer todas as vénias entes de lhe fazer uma pergunta pouco incómoda; temos de aceitar a boçalidade de muitos programas de televisão; temos de aceitar uma carga fiscal brutal apesar de já não termos troika nem austeridade; temos de aceitar que… e nós aceitamos.

Na verdade, Bruno de Carvalho é só uma caricatura rasca do que andamos a aceitar há muitos anos. Felizmente para todos os outros, houve um maluco que resolveu vestir a pele de bode expiatório.  Quando daqui a uns dias ele for demitido ou se demitir, haverá um suspiro entre os tontos da nação e um riso pérfido entre os nossos carcereiros. 

Nenhum de nós vai rescindir este contrato de servo de gleba; aliás, renovaremos esta aceitação do crime por mais dez anos, porque, embora, «chato», o crime faz parte do dia-a-dia.
GAVB