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terça-feira, 10 de novembro de 2015

CONSTRUINDO MUROS EM VEZ DE PONTES


Elia Barceló, académica espanhola que vive na Áustria, escreveu no seu conto para crianças “Do Muro Para as Estrelas” algo que devia ser bem compreendido pelos adultos:
“O muro é o símbolo do medo. Os antigos precisavam de muros para se protegerem dos que eram diferentes. (...) Os muros serviam para encerrar as pessoas fisicamente, para lhes tirar a liberdade. (...) Quando olhamos para alguém e desviamos o olhar, construímos um muro. Se olhas o outro nos olhos e sorris, constróis uma ponte. "
Ontem a europa devia ter assinalado os vinte e seis anos da queda do muro de Berlim, mas não o fez com a pompa e a circunstância habituais. A hipocrisia é imensa, mas ainda tem algum receio da consciência coletiva dos povos.


Duzentos anos depois da revolução francesa e 44 depois do fim da segunda guerra mundial, a europa tinha feito as pazes com os seus traumas do século XX, destruindo fisicamente um muro sem sentido, que separava um povo que ansiava estar novamente junto, mas cuja História teimava em não perdoar. Vinte e seis anos proliferam os muros da vergonha, feitos de arame farpado, xenofobia, preconceitos e arrogância, no coração da europa. Não são apenas os 175 km. do muro húngaro, orgulhosamente assumido pelo louco primeiro-ministro Orbán, na fronteira com a sérvia para impedir que os imigrantes sírios cheguem à europa. São também os trinta e dois mil metros de arame farpado que os búlgaros ergueram em tempo recorde para evitar o nefasto assalto dos desvalidos do Médio Oriente.


Já não bastava os muros que separavam as duas Coreias no paralelo 38, a barreira aos imigrantes ilegais no norte de África que Espanha impôs perto de Ceuta, o muro da vergonha da Cisjordânia ou as barreiras que os americanos criaram para quem tentava chegar à América de todos os sonhos, vindo do México. Atá a falida Grécia investiu um pouco da sua enorme dívida na construção de um muro, em 2012, junto ao rio Evros, na fronteira com a Turquia para estancar o fluxo de refugiados sírios. Já raparam que os alvos destes muros são quase sempre gente doutra cor, doutra religião e que é pobre.

Como podemos explicar-nos a uma criança sem nos definirmos como pequenos monstros travestidos de humanos? Somos assim tão inseguros da nossa personalidade que temos medo da diferença? Talvez seja verdade que não conseguimos acomodar todos condignamente cá em casa em pouco tempo, mas a resposta não pode ser o arame farpado, a xenofobia ou até indiferença perante o sofrimento de um povo que se viu obrigado a fugir para não morrer.
Se é este o exemplo que damos aos nossos jovens, daqui a trinta anos, os nossos asilos terão muros tão altos que parecerão cadeias de alta segurança. 
Há muitos muros por derrubar nas tortuosas almas humanas. Talvez com os seus inúteis pedras se possam construir belas pontes. Talvez…

Gabriel Vilas Boas   

domingo, 9 de novembro de 2014

O MURO DE BERLIM





Há vinte e cinco anos caía o muro de Berlim. O ícone mais visível da Guerra Fria desaparecia para sempre.
Durante vinte e oito anos o povo alemão viveu separado por um muro de betão que circundava Berlim em 66,5 quilómetros e tinha quase quatro metros de altura. Um dos seus arquitetos, Erick Honecker, chegaria a presidente da RDA, país que resolveu implementar este autêntico muro da vergonha.
O muro de Berlim não dividia apenas a Alemanha, mas também a Europa e, sob o ponto de vista ideológico, o mundo. Dum lado, o mundo capitalista, doutro crescia o democrático. Esta era a visão vendida a leste. A ocidente, crescíamos com a ideia que o muro dividia o mundo democrático da ditadura socialista.
O certo é que o muro de Berlim simbolizou a ditadura do medo que dominou a Europa mais de três décadas. Cresci com isso e com a corrida ao armamento nuclear. Aprendi que o mundo era a preto e branco, apesar de ser um lindo arco-íris. Por isso, foi com enorme alegria que vivi aqueles dias de novembro de 1989. Duzentos anos após a revolução francesa, a Europa reconquistava novamente o sentido de liberdade e democracia.



Vinte e oito anos foi um tempo demasiado longo para muitas famílias alemãs que viveram separadas por um muro incompreensível. É fácil perceber toda a amargura sentida numa Alemanha que expiava longamente os pecados cometidos durante a segunda guerra mundial. Talvez alguns tenham percebido um bocadinho da dor judaica na segunda Grande Guerra.Esta provação nem sempre foi suportável para muitos berlinenses de leste e alguns tentaram cruzar terra proibida. A ordem era para atirar a matar e por isso calcula-se que cerca de oitenta pessoas tenham perdido a vida, embora o governo de Honecker nunca tenha fornecido dados oficiais.
À queda do muro de Berlim seguiu-se o processo de reunificação que Helmut Kohl fez questão de concretizar o mais rapidamente possível. Fê-lo com grande humanidade e tentando que a desenvolvida Alemanha Ocidental engolisse o atraso económico da RDA, como se um irmão rico usasse a fortuna acumulada em vida para colocar o irmão pobre a viver quase como ele. Foi uma Alemanha unida que construiu o euro que hoje lhe garante a supremacia económica na Europa. Também é porque o muro caiu que hoje Merkel governa a Alemanha.



Além de Khol, os alemães devem agradecer a queda do Muro que os angustiava a Gorbatchev. Foi ele que quebrou o decisivo “brick in the wall” e permitiu aquele abraço por que muitos ansiaram longos anos.
Hoje não há mais muros físicos que apartem os povos, mas crescem outras espécies de ditaduras como a do sacrossanto capital que guetiza povos e os submete a condições de vida muito difíceis. A Europa, onde Merkel manda, é um território onde crescem altos muros que dividem pobres e ricos; é um espaço onde Berlim usa a sua posição dominante a nível económico para impor um ritmo e um estilo de vida que não respeitam a especificidade de cada povo. A solidariedade de Khol não faz parte do léxico de Merkel, que ignora que a História também existe para que aprendamos com ela. E a lição deste muro vergonhoso não foi totalmente apreendida por muita gente que o viveu.




A grande lição que o Muro de Berlim deixou às gerações futuras é que os povos devem concentrar-se em construir pontes de solidariedade, compreensão e respeito, onde qualquer muro pareça sempre absurdo.


Gabriel Vilas Boas