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sábado, 19 de setembro de 2015

A TIRANIA MEDIÁTICA


Os media são o maior poder dos tempos modernos. São eles que impõem a agenda política, social e cultural. Ajudam a criar mentalidades in, destroem e constroem estrelas com uma facilidade assustadora.
O poder dos jornais, televisões e sítios da internet começou quando os poderes clássicos deixaram de fazer o seu trabalho e criaram um vazio que os media souberem aproveitar e capitalizar. Rapidamente os jornais e as televisões apareceram aos olhos da opinião pública como os guardiões do templo; os únicos capazes de defender os fracos, os oprimidos, aqueles que não têm voz. Inebriados pela sua elevada missão, rapidamente passaram de advogados de defesa a acusadores e, finalmente, a implacáveis julgadores.
Respaldados na opinião pública que formataram, passaram a condicionar toda ação daqueles que decidem, mandam ou detêm o poder.

O grande erro foi que o fizeram sem alma, sem convicção nem rigor. O barulho das luzes ativou a vaidade mediática de muitos jornalistas que escolhem uma determinada causa social para cavalgar, apenas porque esta lhes aumenta o share; resolvem atacar determinado político ou figura mediática, porque eles decidiram que ele é culpado. São eles que apresentam a acusação e que o julgam sumariamente nos telejornais, nos programas de debate, na direção que imprimem às reportagens.
Além da impressionante parcialidade e falta de rigor jornalístico com que tratam os factos, o que mais me revolta é o desprezo com que abandonam causas sociais ou o caso particular de um qualquer cidadão que antes fora apresentado como emblemático.

Os juízes sempre se queixaram dos media, referindo que o tempo da justiça não era o mesmo que o tempo mediático, todavia a classe jornalística sorria com desdém e assobiava para o lado, tratando de fazer a justiça que lhe convinha.
O grande problema é que qualquer questão precisa de tempo para ser bem resolvida. Não apenas na justiça como também na educação, na economia, na agricultura, na administração pública. Ao exigirem ações concretas para ontem, os media estão apenas a contribuir para que elas não se resolvam ou fiquem mal solucionadas.

O tempo mediático é aquele fazedor de obra pública que esburaca as ruas das nossas cidades, começa a reabilitação urbana ou lança uma qualquer obra de grande envergadura, mas que ao primeiro contratempo se desinteressa e deixa tudo numa grande trapalhada, bem pior do que estava. O tempo mediático é absolutamente interesseiro e cruel. Expõe o problema, lança as acusações, dá a sua sentença sobre os factos e parte para “outra”, porque aquela bomba jornalística já deu as audiências que tinha a dar. Entretanto, a desorganização causada deixa o cidadão com um problema maior do que aquele que tinha.
Os políticos já perceberam como funcionam estes novos polícias da coisa pública e adaptaram a sua inação ao estilo. A sua pseudo ação segue as vagas informativas. Se o problema for profundo e de difícil resolução, há que marcar umas reuniões para discutir o problema, fingir que se está a estudar a solução e, sobretudo, esperar que o tempo mediático passe e a questão esgote o interesse para os jornalistas. Obviamente, eles sabem que tudo ficará igual ou até pior, mas também sabem que não haverá mais debates na imprensa porque o tema murchou.
As populações ficam então como sempre estiveram: sós! E depois nem se podem queixar que a imprensa não tentou ajudar.
O tempo mediático anda a tirar-nos o discernimento necessário para resolvermos os nossos problemas coletivos e contribui para que nos andemos a enganar uns aos outros.
Gabriel Vilas Boas

sábado, 31 de janeiro de 2015

PEDOFILIA E CASA PIA


Há onze anos a sociedade portuguesa sofreu um autêntico abalo sísmico com a prisão de Carlos Cruz, Jorge Ritto, Ferreira Dinis, Hugo Marçal, Carlos Silvino, entre outros, acusados pelo Ministério Público do crime de pedofilia sobre crianças e adolescentes à guarda da Casa Pia de Lisboa.
Ao fim de sete anos, após uma longuíssima batalha jurídica, os principais arguidos foram condenados, o que acabou por sancionar, no essencial, as prisões preventivas iniciais e o julgamento popular, feitos pelos media, que cravou em Carlos Cruz e restantes arguidos o carimbo de pedófilos.

Agora que a poeira definitivamente assentou, é possível perceber que este foi um processo doloroso, mas essencial para o sistema judiciário português e também para a democracia, pois um dos pilares fundamentais do nosso sistema é a independência da justiça.
Portugal enfrentou um dos fantasmas mais duros da era democrata: um dos seus ídolos televisivos – Carlos Cruz -  era acusado de pedofilia e havia provas mais ou menos concludentes que o deixavam em maus lençóis. É difícil aceitar que uma pessoa com quem simpatizamos cometeu um crime tão odioso, mas havia um bem superior a defender: a verdade e a dignidade daqueles jovens que sofreram abusos e maus tratos, que os marcaram para toda a vida.
Olho para o processo e retenho o essencial: aqueles menores e outros foram abusados reiteradamente durante anos; alguns dos crimes imputados aos arguidos foram efetivamente cometidos por eles; as condenações pareceram-me justas e equilibradas; alguma da dignidade das vítimas foi resgatada; no final, houve um generalizado sentimento de justiça.


Neste sentido, deste processo resulta uma vitória da Justiça em Portugal. Poderosos foram apontados, julgados e condenados. O país foi coeso na afirmação dos seus valores fundamentais, mesmo que isso tivesse custado uma grande desilusão coletiva.
Foi muito importante ter-se ido até ao fim com o processo e proceder a condenações que não pareceram forçadas. Um médico, um embaixador, um advogado, um apresentador televisivo famoso foram condenados, mostrando que a justiça também se aplicava a quem era rico e influente, mesmo quando do outro lado estavam jovens com baixo estatuto social.

Claro também houve erros e excessos. Os mais relevantes e chocantes pareceram-me o julgamento popular e o excessivo tempo que o processo demorou em tribunal. Aceito que o tempo da justiça nunca possa ser o tempo dos media, mas este processo mostrou que a justiça tem de se tornar mais célere para não lançar lama sobre o carácter e a honorabilidade dos cidadãos. Desta vez quem usou todas as escapatórias da lei para adiar o processo saiu a perder, porque viu os tribunais confirmarem o que televisões e jornais nos impuseram, no entanto, nem sempre será assim.
Não é bom que o Correio da Manhã e a TVI tenham de fazer o papel de justiceiros, rompedores dum status quo que protege quase sempre os poderosos. Os excessos de uns são tão condenáveis como as omissões de outros. É preciso aprender, efetivamente, com o que se fez mal neste processo, para que a sociedade possa ter confiança e se orgulhe nas decisões dos tribunais.
Gabriel Vilas Boas