O Centro Comercial representa a modernidade, a beleza atual
e a novidade enquanto Museu nos traz a Arte que se tornou imortal. Parecem mundos opostos, feitos para públicos distintos e ritmos de vida quase inconciliáveis.
O desafio é juntá-los. Respondendo a este desafio, o Centro
Comercial Amoreiras (Lisboa) e o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) decidiram
expor em vários espaços do Amoreiras 31
réplicas de quadros importantes do acervo do MNAA.
Quem for ao Amoreiras entre 4 de Outubro e 5 de Novembro
encontrará cópias de quadros de Düer ( o mais reconhecido pintor do
renascimento nórdico), de Pieter Bruegel, o Jovem; ou do alemão Hans Menling.
Deve ser reconfortante saber que entre uma compra e um café com um amigo
podemos repousar os olhos num “São Jerónimo” ou “A Virgem e o Menino”.
É certo que são réplicas e nenhum verdadeiro apreciador de
arte dispensa a minuciosa observação dos originais, mas esta iniciativa
dirige-se aos “outros”, ou seja, aqueles que raramente vão a um museu e que o
acham o perfeito ícone do passado e algo sem graça. Felizmente, a administração
do Amoreiras acha os quadros do MNAA algo muito fashionable.
Considero muito interessante esta iniciativa conjunta MNAA/C.C.
Amoreiras, desde que ela só tenha um interesse cultural. É importante que o
Amoreiras saiba reconhecer o estatuto social da Arte e trate com classe estas
réplicas de quadros famosos do MNAA.
A Arte e os Museus têm tudo a ganhar quando se abrem ao
exterior. Mostrar as suas joias (ainda que falsas) é a melhor maneira de atrair
o bandido ao seu território. O Centro Comercial pode ser a sedução perfeita
para uma visita guiada aos originais guardados no Museu – uma espécie de
descoberta maravilhosa de um mundo onde o benefício é de quem olha com tempo e
prazer.
Josefa de Óbidos - Natureza-morta com Doces e Barros, 1676, Biblioteca Municipal
Anselo Braamcamp Freire de Santarém
O MNAA – Museu Nacional de Arte Antiga- é mais um dos museus imperdíveis do panorama cultural português. Criado em 1884, possui uma das mais importantes coleções de arte, fazendo parte do seu acervo obras de pintura, escultura e ourivesaria bem representativas do património artístico europeu, africano e oriental.
Este museu destaca-se igualmente pelas exposições que organiza e que suscitam o interesse de um vasto público, sendo por isso um dos mais visitados do país. Exemplo disso é a atual exposição patente no MNAA até 6 de setembro de 2015,”Josefa de Óbidos e a invenção do Barroco português” que promete animar este Verão ou, pelo menos, torná-lo mais terno. No Palácio do Alvor, poderão ser apreciadas mais de 130 obras daquela artista, obras de proveniência diferenciada, como por exemplo, o Museu do Prado, o Mosteiro do Escorial e até de inúmeras coleções privadas, portuguesas ou estrangeiras.
Josefa de Óbidos - Natureza-morta com Doces e Barros, 1676, Biblioteca Municipal
Anselo Braamcamp Freire de Santarém
Sobre a protagonista de hoje, queria apenas dizer que nasce em Sevilha, em 1630;filha do pintor português Baltazar Gomes Figueira e de Catarina Cabrera e Romero, instala-se em Portugal, mais propriamente em Óbidos, em 1634.
Datam de 1647 as suas primeiras pinturas e, em 1676,pinta as suas primeiras naturezas-mortas, que tanto me agradam e de que também vos falo agora. Josefa é uma das responsáveis pela “reintrodução do primado da cor diversificada” e de uma paleta mais colorida, como forma livre de apreender e registar na tela a diversidade da Natureza.
As suas temáticas de eleição eram, sem dúvida, as naturezas-mortas. No entanto, o Cordeiro de Deus, o Menino Jesus Salvador do Mundo ou o casamento místico de Santa Catarina (temas tão recomendados pelos reformadores católicos de então) foram igualmente assuntos recorrentes na sua obra.
Josefa de Óbidos, Natureza-Morta com frutos e flores(c.1670, MNAA)
Em 1684, pinta a sua obra final, um Menino Jesus. Morre em Óbidos, nesse mesmo ano. De Josefa e da sua obra, Miguel Torga, em 1949, afirmou:
“Enquanto um baboso se extasiava diante de um Menino Jesus rechonchudo, que parecia uma trouxa-de-ovos, raspei-me. Raça de portugueses que não dão um pintor que se aproveite.”
Claro que lhe perdoámos o excesso, estaria com certeza num mau dia. Acontece a todos. Uma mulher que atinge o prestígio de Josefa num tempo tão adverso, que se emancipa da esfera masculina tão própria do seu tempo e que, à sua morte, possuía já fortuna e bens consideráveis, graças à qualidade do seu trabalho que lhe granjeia fama internacional, não pintou nunca Meninos Jesus como quem pinta trouxas-de-ovos. As suas figuras não eram figuras terrenas. Propositadamente. Há que entendê-la.
Josefa de Óbidos - Natureza-morta com doces e barros. 1676, Biblioteca Municipal
Anselmo Braamcamp Freire de Santarém
Esta exposição pretende corrigir a ideia (errada!) que se instalou entre nós, de uma “pintora curiosa mas provinciana”, menor, ingénua, quase naif, trazendo para a ribalta a artista culta que foi, bem representativa da arte do seu tempo, reflexo de uma espiritualidade da época, num ondular de tendências pictóricas que passaram pela pintura sevilhana (influência do pai, por certo), pelas experiências de luz, de origem francesa…enfim. A sua obra foi sempre inundada de uma doçura terna, terrena ou divina, que resultou inevitavelmente da sua condição de provincial mulher, mas que foi motor para ultrapassar a monocromia que caraterizava a pintura portuguesa da fase anterior.
O fator geografia (a distância de Lisboa, onde tudo acontecia), a sua educação e devoção religiosas, bem refletidas na sua obra, não a impediram deste toque de modernidade. Zurbáran influencia o seu registo. Tal como ele, Josefa é uma pintora da figura individual, não com grandes preocupações compositivas. A grande pintura da sua época é a que conta a história de Cristo e dos Santos, que ela também retrata e partilha em telas e retábulos.
Mas a pintura de bodegones (termo espanhol para naturezas-mortas), está lá. A atraí-la sempre, talvez as solicitações de uma clientela civil que se sentia honrada pela presença de uma tela de Josefa, a prestigiar lautos jantares, na parede da sala que abrigava felizes comensais à volta da mesa repleta de agradáveis iguarias. O século XVII trouxe autonomia à natureza-morta. A pintura a óleo fez o resto, possibilitando o seu desenvolvimento pois trazia mais rigor ao nível das texturas, dos tons, das velaturas. Mas é apenas após o Romantismo que esta temática ganha reconhecimento (sobretudo com o Realismo e Naturalismo do séc. XIX).Os cubistas apreciam-nas também e Cézanne viu na natureza-morta o meio privilegiado para resolver questões de harmonia e representação espacial na pintura.
Frutas, flores, peças de caça, doçaria, barros e rendas alvas, tudo ela espelhava nos seus óleos, em composições equilibradas, num jogo de dramatismos barrocos, tão ao gosto de então, numa inusitada profusão policromática.
É o ritual da mesa, ancestral, religioso, sagrado que ela representa como ninguém. Sobre a mesa, a toalha alva, branca, em sinal de asseio, de pureza, de sagrado. O simbolismo religioso está presente: assim, se a toalha se estende sobre a mesa, temos o símbolo da “liberalidade de Deus”; por outro lado, se a toalha esconde os alimentos significa a bênção da divindade sobre aquelas iguarias. Josefa de Óbidos ou de Ayala gosta destas significâncias e destes jogos de “cobrir e revelar”, que usa nas suas naturezas-mortas (“Doces e Barros” e “Natureza-Morta: cesto com bolos e toalhas”.
Josefa gosta igualmente de valorar alguns alimentos. O figo é encarado com “doçura”, talvez por ser símbolo de abundância. Tal como a pintura quase poética de Josefa, também a literatura do seu tempo nos deixa retratos ímpares de frutos divinos. Deliciem-se com Sóror Maria do Céu e estabeleçam vocês a ponte entre a sua poesia e a pintura de Josefa. Escolhi para vós dois poemas, que nos falam de frutos que anunciam e quase encerram o Verão. Deliciosos ambos. E deliciosas ambas. Entretanto, oiçam música barroca. A música é ou não alimento da alma?
No fim-de-semana
passado estive em Lisboa, onde, entre outras coisas, visitei a exposição Franco
Maria Ricci, patente no Museu Nacional de Arte Antiga.
Trata-se
duma exposição de enorme qualidade, onde é possível apreciar mais duma centena
de peças de escultura e pintura, do século XVI ao século XX, que nos conduzem
numa encantadora viagem pela arte da representação humana.
O
reputadíssimo colecionador de arte, bibliógrafo, designer e editor, Franco
Maria Ricci trouxe a Lisboa cerca dum quarto da sua heterogénea e heterodoxa coleção
de arte, para o público português admirar cuidadosamente. Foi o que fiz! Guiado
por uma simpática guia do museu que soube suscitar a nossa curiosidade do mesmo
modo que permitiu uma interação muito enriquecedora.
A
exposição está dividida em dez núcleos temáticos, sendo os mais interessantes
aqueles que são dedicados ao classicismo, neoclassicismo e maneirismo. No
entanto, a grande atração desta exposição é uma extraordinária escultura do
papa Clemente X feito pelo mais famoso escultor do Barroco romano: Bernini. A
escultura em mármore transmite toda a serenidade e sabedoria do Papa Clemente
X, com quem Bernini teve uma zanga pública, mas que terminou depois de Bernini
ter esculpido a sua obra-prima. Aliás é a primeira vez que o público português
tem a oportunidade de ver uma obra de Bernini em Portugal.
Mas
nem só de Bernini vive a exposição dedicada à coleção de Franco Maria Ricci. No Museodemos encontrar a “Beatriz” de Canova, “Cristo abençoado” de Fillippo
Mazzola, ou o “Retrato de Marie Madeleine de Vignerod – duquesa de Aiguillon”,
de Jacopo Ligozzi e Phillippe de Champaigne.
Um
núcleo que me chamou particularmente à atenção foi o dedicado às Vanitas. A
ideia da morte, da vanidade da vida, da arte, da beleza, representadas por
diversos artistas de diferentes modos, mas sempre com uma tríade de elementos
comuns: a caveira, a ampulheta (tempo), o livro.
Sem
nos darmos conta passamos mais duma hora a admirar aqueles belos exemplares da
coleção de Franco Maria Ricci. Terminámos na Biblioteca do Museu, excecionalmente
aberta para esta exposição. E o motivo era de todo justificado. Lá encontrámos
duas preciosidades da coleção de FMR: a famosíssima “Encyclopédie” francesa de
Denis Diderot e Jean Rond d’Alembert (1751-72) e a Bíblia tipográfica de
Giambattista Baboni. Ambas foram reimpressas por Franco Maria Ricci, o que atesta
a sua condição de grande editor há mais de cinquenta anos. É na Biblioteca do
MNAA que podemos igualmente admirar algumas capas da extraordinária revistsa de
arte FMR, ciada e editada por Ricci para mostrar obras-primas muitas vezes
curiosas ainda que muito pouco conhecidas.
Até 12
de abril a coleção de Franco Maria Ricci estará patente no Museu Nacional de
Arte Antiga, em Lisboa, depois só visitando Parma, onde Franco Maria Ricci
plantou um extraordinário laribirinto de dois mil bambus e no seu interior
mandou instalar um museu que albergará toda a sua coleção. Abre em maio e
espera o regresso destas preciosidades que por agora esperam os vossos olhos,
em Lisboa.