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domingo, 14 de setembro de 2014

"OS MAIAS", O FILME

O grande acontecimento cultural da semana foi a muito aguardada estreia do filme de João Botelho, “Os Maias”.
Depois de “Os Lusíadas”, a obra maior de Eça de Queiroz é, provavelmente, a mais conhecida e querida pela maioria dos portugueses. Talvez por isso se explique toda a expectativa em volta da película do cineasta duriense. A primeira impressão que me ficou depois de ver o filme é que o filme de João Botelho não desilude, mas não me enche as medidas. É um filme bom, mas não excecional como o romance de Eça de Queiroz.
O filme tem aspetos muito bons, outros situam-se num patamar mais abaixo. Começo pelo que gostei francamente: o extraordinário desempenho do ator Pedro Inês no papel de João da Ega, o alter-ego de Eça. Achei a sua atuação fabulosa! Uma naturalidade impressionante, uma capacidade extraordinária para desempenhar o relevante papel que Eça traçou para João da Ega: sintetizar duma maneira mordaz, irónica e profundamente crítica o ponto de vista de Eça sobre a sociedade portuguesa do final do século XIX. Graciano Dias, no papel de Carlos da Maia, teve um bom desempenho, assim como a belíssima Maria Flor, no papel de Maria Eduarda. No entanto, não posso deixar de notar que esperava bem mais da atriz brasileira, pois esperava que o seu desempenho mostrasse quanto fora irresistível a sua sensualidade e poder de atração junto de Carlos da Maia.

João Botelho consegue com o filme mostrar os costumes da pretensa elite burguesa que gravitava em redor do poder no final do século XIX. Fica bem evidente a Lisboa de ambientes aborrecidos e amolecidos, dos costumes agitados e das mentalidades sombrias, dos cinismos e traições, do glamour postiço, ou seja, tudo o que Eça queria criticar com a sua obra.
Há na primeira parte do filme uma cena dum jantar em casa dos Gouvarinho, onde se discute a situação do país. Nele se vê um Portugal a caminho da bancarrota, esmagado pelos empréstimos, afundado em segredos e atormentado pela tragédia. Aquele momento assenta como uma luva no país que hoje somos, isto é, um país sem sentido nem remédio, onde proliferam os Dâmasos, os Gouvarinhos, os banqueiros Cohen…
João Botelho em nada se afastou do texto queirosiano. Segue o enredo do romance, transpondo-o sem nada lhe acrescentar. Os puristas de Eça acharão muito bem, eu acho que Botelho devia ter sido mais ousado, colocando a história de amor entre Carlos da Maia e Maria Eduarda mais cedo em cena e dando-lhe um enfoque maior e, depois, partindo dela, tratar as cenas da vida romântica enquanto crónica de costumes com uma acutilância maior, talvez com maiores inferências para a atualidade. Talvez o cineasta tenha tido receio de mexer no sacrossanto texto de Eça e que a crítica lhe fosse adversa…
Um dos aspetos muito valorizados pelas primeiras críticas que surgiram acerca do trabalho do realizador português é a utilização das já famosas telas de João Queirós, de dimensões inusuais, como cenário. De facto, com elas, João Botelho recriou o ambiente da Lisboa oitocentista e deu ao seu filme um toque de ópera, organizando-o como um libreto. A opção parece-me muito válida para cenografar Lisboa, já em relação às paisagens do Douro, discordo. João Botelho podia muito bem filmar numa das várias quintas do Douro atual que o recuo à Santa Olávia de “Os Maias” seria automático. Ganharíamos em naturalidade e em beleza.


A opção pelas telas tem, no meu entendimento, uma enorme contrariedade: retira vida ao ambiente. As ruas de Lisboa do filme de Botelho não têm vida, não há barulho realístico, não há pessoas suficientes, assim como não há a luz do dia. O realizador filma muito os interiores… Podia ter recuperado esse défice com as filmagens no Douro, mas optou novamente pelas telas.
Estranhei também a ausência duma banda sonora marcada. Claro que isso seria uma opção de risco, mas quem não arrisca não petisca.
João Botelho apresenta os quadros de Eça, mas não os analisa profundamente, não lhes dá interligação evidente, deixando essa tarefa para Pedro Inês, que se desdobra em várias funções, quase todas elas executadas com grande talento.

Já em relação à definição dos caracteres sociais, o filme atinge plenamente os objetivos. Dâmaso, Cohen, o Gouvarinho são tipos muito bem trabalhados no filme e que podemos ver como arquétipos atuais. Se lhes tirássemos aquela roupa e lhes vestíssemos um fato Armani, nem precisávamos de legendas.
O filme termina com a famosa cena do incesto. Altamente simbólica da amoralidade e do sentimento de culpa que Portugal vive, conscientemente, há mais de cento e cinquenta anos.
Em conclusão, diria que o filme é bem conseguido, mas não excecional, talvez por falta de arrojo. A película do cineasta João Botelho fará muito pelo conhecimento da obra de Eça de Queiroz junto das gerações mais novas e não desiludirá os mais antigos e exigentes admiradores do romancista. Além disso, Eça já merecia que alguém tivesse a coragem de perpetuar a sua extraordinária obra para além dos livros.
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DA LITERATURA

“O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra(…).Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.”
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901

Maria Rosas, Jacinto, Aguarela s/ papel

Cap. 3 «JACINTO»
«No 202, todos os dias às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelos, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toillete, toda de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto sumptuário da civilização e manter nela o seu Tipo.»

Exposição “A Cidade e as Serras”
Maria Rosas
“A Cidade e as Serras” é, de longe, o meu livro preferido, que li e reli vezes sem conta ao longo da minha vida. Tenho um hábito estranho de revisitar aquilo de que gosto muito, como um bom livro, uma música, um filme, que olho e sinto sempre de maneira diferente, em busca de algo novo. Até os meus alunos ( quando os conteúdos assim mo lembram) provam um pouco do 202,com o seu Fonógrafo, o Telégrafo ou o Conferençofone, maravilhas do imparável progresso técnico oitocentista, num tumulto de Civilização.
Assim, no momento em que a Maria João me convidou para a sua vernissage que teve lugar numa das Galerias da famosa Miguel Bombarda, no Porto, exultei. Em primeiro lugar, porque gosto muito da Maria João, desde as tardes de gargalhadas claras que partilhámos nos tempos da faculdade; depois, porque a Exposição recebeu o nome do meu livro de eleição, que se espraia pelo cenário da cidade de Paris, no célebre 202 dos Campos Elísios e por Tormes, a serra alegre de todas as cores, numa viagem de encontro à Natureza e à Felicidade.
Nesta exposição individual, a Maria João ofereceu para nossa fruição dezasseis aguarelas sobre papel que ilustram de modo muito pessoal, cada um dos capítulos do livro. Entrou na personalidade de Jacinto, percorreu Paris e o 202,viajou até Tormes e mergulhou nas serranias únicas de um Portugal vetusto e singular, em cores únicas.
Das suas telas, emergiam aromas, ambientes, cores e sensações indescritíveis, pela mão de Eça que dava o mote para cada uma delas. A sua pintura, alegre, feminina, jovial, transportou-nos para um outro espaço e um outro mundo que ainda vamos a tempo de recuperar, mergulhando nas nossas raízes, na terra, seja ela do Douro, do Tâmega ou do Mondego.

Maria Rosas, A árvore, aguarela s/ papel.
Cap.9
«- É curioso… Nunca plantei uma árvore!
-Pois é um dos três grandes atos sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.»


Não sendo completamente figurativa, a sua obra permite ao público uma viagem incrível pela cor e pela forma, num traço suave de grafismo quase a roçar um não sei quê de pontilhismo que dança connosco e se mistura na retina do observador. Não é possível ficar indiferente ao vendaval de sensações festivas que nos proporciona o olhar, tal como quando viajamos para o Douro. Também aqui, se me perguntam onde me apetece ir em passeio, claro que a resposta se adivinha:-Ao Douro, claro. Não me canso de revisitar aquilo de que gosto muito. Por isso, a aguarela “A caminho da serra”, me seduz e ensina o caminho das mil cores do meu Douro prazenteiro, onde, quem me dera, tal como Jacinto,”…uma terrina a fumegar…o caldo…de galinha que rescendia (...)e o seu perfume enternecia…”.E o arroz de favas, acompanhado de “um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.”

Maria Rosas, A caminho da serra, aguarela s/ papel

Cap. 8 «A caminho da serra»
«- Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem descanso!...à obra! E a caminho!... no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e açodada voz que nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um chefe ordenando, na alvorada, que se levante o acampamento…»

Aqui ficou um apontamento sobre a minha Maria João. Eu, tal como o Zé Fernandes, adoro as minhas amigas ,sobretudo porque sei que tenho poucas. E porque sei que elas são de qualidade superior. Para que conste, a Maria João nasceu no Porto e licenciou-se em Ciências Históricas pela UPT, em 1987.Frequentou o curso de Desenho e Pintura da Cooperativa Árvore, por Aníbal Remo e Mário Bismark, bem como o curso de História da Arte Contemporânea, por Fátima Lambert. Frequentou vários workshops, entre os quais um de ilustração, ministrado por Rui Sousa. Participou em várias exposições coletivas na Cooperativa Árvore, Faculdade de Arquitetura do Porto, Museu do Carro Elétrico e em muitas outras.
Algumas das exposições individuais:
Origami, Olga Santos Galeria, Porto, 2009
Lenços de Namorados, Da Vinci, Espaço Arte, 2011
A Cidade e as Serras, Da Vinci, Espaço Arte, 2012
Está igualmente representada em várias coleções particulares em França, Bélgica, Polónia, Espanha, Brasil e EUA.
Se a quiserem ver, estará numa coletiva, a partir de 8 de março, na Da Vinci, Espaço de Arte, coincidindo com as inaugurações de Miguel Bombarda. Eu não vou faltar.


Rosa Maria Alves da Fonseca