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quinta-feira, 12 de abril de 2018

NOVA PONTE ENTRE O PORTO E GAIA




Qualquer dia o rio Douro transforma-se em túnel, com tanta ponte entre o Porto e Gaia.
Vila Nova de Gaia e Porto devem mesmo ter falta de problemas e não sabem onde gastar o dinheiro. Requalificação dos bairros sociais, habitação a preços comportáveis para jovens portuenses nas principais freguesias da cidade; requalificação dos principais espaços culturais da cidade; baixa dos impostos municipais, pagamento da dívida bancária, redução do IMI… 
Na verdade não falta onde gastar, com critério, doze milhões de euros (custo estimado da obra), mas os presidentes de Câmara do Porto e de Gaia acham que o mais importante é fazer mais uma ponte, para trazer mais carros às duas cidades, mais poluição, mais confusão.

Já não bastavam as que existiam. Que falta de imaginação! Os problemas do Porto e Gaia são outros: Como desentupir a Avenida General Torres, em Gaia?, Que fazer à crescente onda de despejos na cidade do Porto, a fim de criar mais arrendamento para turistas? Como fortalecer a cidade com uma oferta cultural que mantenha a empolgante onda de turismo dos últimos anos? Para quando a requalificação das zonas degradas das duas cidades?

Por outro lado, é sabido que os transportes públicos e privados a operar nas duas cidades dão prejuízos. Ora, construir uma nova ponte só incentiva o uso do transporte privado, quando a tendência devia ser o contrário, até por razões ambientais.
Ainda que posa existir a tentação de patrocinar uma obra que fique para a História, um presidente da Câmara só a deve promover quando ela é imperativa, o que não é manifestamente o caso.
Não adianta criticar os gastos sumptuosos à volta da capital, quando, em menor escala, se procede da mesma maneira.
Todo o dinheiro público deve ser gasto com critério, seguindo uma ordem de prioridades clara e inatacável.
GAVB

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

À GRANDE E À LISBOETA


Não gosto nada de discutir os salários dos outros. Por norma é uma discussão miserabilista, eivada de inveja e que facilmente descamba para a maledicência. No entanto, há casos em que o descaramento e a pouco vergonha no (mau) uso dos dinheiros públicos obriga qualquer um a intervir. É o caso trazido hoje a lume pelo jornal «I», onde se revela os ordenados auferidos pelos assessores e secretários dos deputados(as) da Assembleia Municipal de Lisboa. Reitero que estamos a falar de deputados municipais e não nacionais.

Revela a investigação do «I» que existem 17 assessores de deputados municipais, na Câmara de Lisboa – um por cada deputado – e cinco secretárias. Cada assessor pode auferir 3752 euros por mês enquanto as secretárias podem custar ao erário público 2800 euros mensais. Só em assessores e secretárias, a Câmara de Lisboa gasta mensalmente 77784 euros. Se multiplicarmos este valor por catorze meses, o valor é superior a um milhão de euros.
A maioria dos deputados não tem pelouros, ou seja, não tem efetiva necessidade de assessor ou secretária. Talvez por isso, alguns deputados municipais de Lisboa tiveram a lata de se autonomear secretários ou assessores de si próprios para aumentar ordenado, já de si elevado, pois superior a qualquer dos valores citados.
Um pouco envergonhada, Helena Roseta, admitiu que os “valores são altos”, mas não se comprometeu com nenhuma correção ou proposta nesse sentido.

Não há concurso público para assessor ou secretário de deputado municipal, mas parece haver abundância de dinheiro na CML, ou pelo menos, ordem para endividar como se não houvesse amanhã, porque o governo sempre porá a mão.

Um professor ao fim de 40 anos de serviço, atingindo o topo da carreira, almeja chegar ao nível de um assessor de deputado da CML. O Presidente de uma Câmara como Amarante pouco mais ganha que um assessor de um de um deputado municipal de Lisboa.

Portugal tem 2 milhões de portugueses (cerca de 20% da população) no limiar da pobreza, ou seja, não dispondo de 400 euros mensais para viver. Um assessor de um deputado municipal, em Lisboa, pode dispor dessa quantia para o último fim-de-semana alargado.
Deixa de ser miserabilista discutir os salários dos outros quando aquilo que eles auferem é dinheiro público e é de tal forma injustificado que ofende quem fez uma carreira honesta e dedicada de serviço ao seu país.

GAVB

domingo, 2 de outubro de 2016

OS NEGÓCIOS DA IGREJA PORTUGUESA NÃO FORAM, NÃO SÃO NEM SERÃO FISCALIZADOS


 Que interesse há em aprovar uma lei que tem por objetivo verificar a viabilidade financeira das Fundações, através da sua fiscalização, se depois se isentam as Fundações ligadas à Igreja Católica de se submeter a esse escrutínio? Muito pouco. Não se mata o problema nem a suspeita, além de se beneficiar ilegitimamente um grupo específico da sociedade portuguesa.
Mais uma vez o governo português teve falta de coragem e usou a imprensa para embaraçar a Igreja Católica. E realmente a Igreja Católica parece ter motivos para se sentir embaraçada. Nada justifica que as suas Fundações não se submetam ao mesmo escrutínio de viabilidade financeira que as outras Fundações.

A Igreja Católica já beneficia de benesses excepcionais mais do que devia por causa da Concordata, mas este foi um favor imoral, altamente criticável e suspeito. A Igreja devia ser a primeira a mostrar as boas contas das suas Fundações, a sua utilidade social assim como a sua viabilidade financeira. Tinha essa obrigação moral, tinha essa obrigação legal. Negociar por debaixo da mesa com um governo de direita (tradicional dócil com a Igreja que lhe costuma devolver os “fretes” nas homilias) é uma coisa feia.
Quando se fala de dinheiro, da prestação de contas sobre as ajudas que recebe do Estado, a Igreja portuguesa tem uma responsabilidade ética e moral superior aos restantes grupos sociais.
O governo não pode ter medo da Igreja nem deve usar esta tática de atirar a pedra e esconder a mão. Se há um problema, uma injustiça, uma imoralidade há que enfrentá-la com os poderes que tem: a alteração da lei ou das exceções à lei.
Os jornais também não podem ficar só pela denúncia. Têm que questionar o episcopado, questionar o governo, investigar aquilo que não foi controlado. Não podemos andar sistematicamente a destapar imoralidades e depois não ter a coragem de acabar com elas.
Se o objetivo era envergonhar, amedrontar, condicionar, podem tirar o cavalinho da chuva. Os padres são como o resto da sociedade: sabem perfeitamente assobiar para o lado.

Gabriel Vilas Boas