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sexta-feira, 15 de abril de 2016

ANGELINA JOLIE - Quod me nutrit me destruit



Mais do que uma atriz, produtora ou argumentista, Angelina Jolie é uma celebridade à escala planetária. Graças à sua beleza hipnotizadora, Angelina transformou-se num ícone do jet-set mundial, cuja carreira cinematográfica é apenas uma parte dum puzzle complexo, misterioso e atraente, que milhões de pessoas seguem à distância, com curiosidade e apreensão, como se a vida da atriz norte-americana estivesse permanentemente entre o inferno e o céu.
         
   No entanto, a senhora Pitt não é uma personagem, mas uma figura bem real, cuja beleza nos deslumbra e as atitudes nos inquietam.
  Apesar do óscar de melhor atriz secundária em 2000 pelo seu desempenho em “Sexto Sentido” e três Globos de Ouro entre 1997 e 1999, Angelina não é um monstro sagrado do mundo da representação, embora a sua carreira como argumentista, produtora e atriz indiciem claramente o grande amor que tem à sétima arte.
À boleia do cinema, Jolie tornou-se na celebridade que todas sonham ser quando a sua beleza deslumbrante conquistou Brad Pitt em Mr. & Mrs. Smith e os dois decidiram formar o casal mais glamouroso de Hollywood. A misteriosa e “problemática” atriz conquistou o coração de Mr. Pitt quando concretizou um dos seus maiores anseios – ser pai. Ao contrário do que é comum na maioria das atrizes, Angelina gosta de ser mãe e não vê nisso nenhum problema para a sua carreira. Tem seis filhos, três biológicos e três adotados. Estas três adoções são a marca mais visível de outro traço fundamental da personalidade da esposa de Brad Pitt: o ativismo humanitário. Embaixadora da Boa Vontade do Acnur em 2013 não foi um cargo oportunista para figurar num curriculum conveniente. Angelina interessa-se verdadeiramente pelos desprotegidos e pelos órfãos e não fica somente pelas palavras. Há um mês foi vista num campo de refugiados sírios, na Grécia, porque ela sabe que a sua imagem ainda tem o poder de constranger.

No entanto, já nessa altura Angelina Jolie se tinha tornado no foco da notícia. Não por causa do efeito das suas ações humanitárias ou desempenho fabuloso nalgum filme, não por causa de algum arrufo com Brad Pitt ou porque a sua beleza continuasse a brilhar intensamente, mas por causa da sua saúde.
Há poucos dias, Angelina Jolie foi internada de urgência, pois tinha chegado a uns inaceitáveis e perigosos trinta e cinco quilos de peso. Depois de ter retirado seios e ovários dada a sua propensão para ter cancro, a Angelina mais jolie do planeta tem de lutar contra a anorexia. Só que ao contrário do cancro, o principal problema é a sua teimosia paranoica em não se alimentar devidamente.
E Angelina é uma personalidade difícil de vergar e convencer. No meio daquela beleza arrebatadora, daquela doçura de mãe, daquela energia humanitária contagiante, há uma permanente sombra negra – qual Maléfica – que nenhum Mr. Smith, por mais Pitt que seja, consegue fazer desaparecer.
Desde a infância que é assim. Como se tudo o que consegue ou ganha estivesse à espera daquela reconciliação com o pai e consigo própria que teima em adiar. Veremos se ainda vai a tempo, porque mais importante que ser “jolie” para os outros é ser “angelina” para si.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 28 de junho de 2014

MALÉFICA



   Mesmo as histórias mais perfeitas, em que tudo acaba bem e os heróis têm o final que todos desejam, têm o seu lado B. A Maléfica é o lado B do clássico da Disney “Bela Adormecida”. Aqui a protagonista é uma vilã – Maléfica – que, traída pelo amor da sua vida, lança-se numa demanda vingativa tão grande que só a beleza dum amor puro consegue aplacar.
  A fada Maléfica (Angelina Jolie) vive em Moors, uma terra recheada de criaturas mágicas que faz vizinhança com um reino humano. Quando o humano Stefan (Sharlto Copley) trai Maléfica, cortando-lhe as asas, para se tornar rei, a fada decide proteger Moors a todo o custo e vingar-se de Stefan com uma maldição sobre Aurora (Elle Fanning), a princesa recém-nascida. Com os anos, Aurora revela-se muito diferente do que Maléfica esperava, mas pode ser tarde para corrigir o seu erro.

   A Maléfica interpretada por Angelina Jolie não é a personificação do mal que podíamos estar à espera. Ela é capaz dos comportamentos mais antagónicos: revelar-se bondosa e tirana, vingativa e justa. As reações e os diferentes estados de Maléfica provam que a sua alma é humana, destinada a comportar-se impulsivamente, o que a torna muito mais aceitável aos olhos do público que assim se pode rever nela em alguns trechos do filme. Esta dicotomia entre heroísmo e maldade mostra uma tendência cada vez mais vincada na filmologia atual para mostrar as razões que levaram os vilões a tornarem-se maus, como se houvesse sempre uma explicação para o mal que praticam. No fundo, é a destruição da ideia tão infantil de que o mundo é a preto e branco. Talvez por essa razão, Maléfica nunca chega a ser tão má quanto alguns momentos sugerem que possa vir a ser e o humor abunda muito mais do que se imaginaria.


  A reviravolta na história amplifica a utilidade de Angelina Jolie como protagonista. A voz suave e enternecedora contrasta com o tom ameaçador e endiabrado de algumas falas. Jolie encarna bem o papel de Maléfica e tem uma atuação de grande valor.
   Os efeitos visuais à volta da protagonista são muito trabalhados, até em demasia para aquilo que esta história exigia. O mais eficaz efeito especial em Maléfica é, contudo, a majestosa e sarcástica Angelina Jolie como uma fada princesa enganada e vingativa que vai espantar audiências, especialmente as adolescentes. A figura escultural de Jolie e a sua cara memorável foram realçadas com a magia dos efeitos especiais. As suas bochechas verdadeiras não são tão exageradas, aquele brilho verde nos seus olhos é artificial, e ela na realidade não tem cornos. Mas a sua postura régia, a dor interna e o orgulho ferido, e a qualidade de vilã brincalhona é a cara de Angelina Jolie.
   A região mágica de Moors é maravilhosa e deslumbrante; o reino humano, por outro lado, é menos surpreendente e simpático, parecendo, no entanto, o mais artificialmente fabricado.
   O realizador Robert Stromberg procura propiciar o conflito e os momentos da ação, mas são os momentos calmos e de maior ternura que mais fazem pelo sucesso de Maléfica, até porque são envolvidos pela orquestra de James Newton Howard. 



   Angelina Jolie faz um trabalho digno de nota a retratar a anti-heroína, traída e humilhada. Mesmo quando a história caí em momentos já banais em filme, ela mantém o seu domínio com confiança. Elle Fanning faz um trabalho razoável como Aurora e Sharlto Copley está inesquecível num papel fraco; as três fadas (Lesley Manville, Imelda Staunton e Juno Temple) sobressaem pouco… O brilho do filme está todo na atriz principal.
   Maléfica é um filme que oferece uma versão alternativa ao popular conto infantil de Charles Perrault e uma interpretação deliciosa de Angelina Jolie, que sugere que o amor é muitas vezes uma armadilha e que inculca a ideia de que as famílias que construímos à medida que crescemos podem ser mais significativas do que aquela em que nascemos.

Gabriel Vilas Boas