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quarta-feira, 15 de junho de 2016

O LABIRINTO DE VENEZA


Veneza não é uma ilha, mas um arquipélago de 118 ilhas, separadas por 160 canais que são atravessado por mais de 400 pontes.
O Grande Canal é a artéria principal e nas suas margens foram construídos os mais belos edifícios da cidade. Uma centena de palácios do Renascimento e da época barroca foi erigida pelos ricos mercadores venezianos e mostra a importância que estes comerciantes assumiram quando Veneza se abriu ao mundo exterior.
A partir do ano 1000, a cidade afirmou a sua supremacia no mar Adriático e, mais tarde, em todo o Mediterrâneo. Aqui foram criados várias lojas comerciais até que, nos finais do século XVII, os fluxos continentais suplantaram os fluxos marítimos. Nessa altura, Veneza desapareceu da cena comercial internacional.


Hoje, o desaparecimento pode vir a ser total: a Sereníssima poderá ser engolida pelas águas, vítima das inundações que se multiplicam por causa do alargamento dos canais, do enfraquecimento do solo veneziano e da subida do nível do mar (seis mm por ano).
A beleza labiríntica de Veneza evoca em mim o esplendor perdido da humanidade. Em cada recanto da alma humana há um tesouro escondido que corre o sério risco de perecer às mãos da boçalidade moderna: o materialismo, o egoísmo, a falta de civismo.
Por detrás de cada palácio, de cada museu ou teatro há uma história onde o talento se uniu ao sonho e à riqueza para criar sítios mágicos. Também em cada ser humano existe uma alma capaz de produzir belos monumentos de solidariedade, generosidade, amizade. No entanto, a maioria da humanidade afunda-se num labirinto de incompreensão e ódio, a uma velocidade bem superior à de Veneza.
gavb

domingo, 2 de março de 2014

CARNAVAL - A AVENTURA DOS SENTIDOS

O Carnaval é um acontecimento social, cultural, económico e artístico que não deixa ninguém indiferente. É assim há vários séculos, em vários pontos do globo, irradiando uma força impressionante que vai muito além das circunstâncias ou dos tempos.
Talvez porque o Carnaval revela algumas dimensões humanas que temos que esconder durante quase todo o ano e que, por dias/horas, podemos exibir porque no “Carnaval ninguém leva a mal”.
O Carnaval é o tempo do prazer do corpo, do exibicionismo, do disfarce, da crítica social e pessoal, da cor da dança. Uma amiga minha costuma dizer que é “pecar sem ser pecado”. Essa ideia está presente duma maneira mais evidente no Carnaval do Rio de Janeiro e dum modo mais subliminar no Carnaval de Veneza. Em Portugal, o Carnaval é dominado pela ideia de crítica social e política.
            De qualquer forma, parece-me evidente que é um momento de libertação do corpo e da mente. As sociedades e as pessoas precisam disso.
            Curioso também notar que o Carnaval é um fenómeno de cidades. No Brasil, o Rio, em Itália, Veneza e em Portugal, temos Ovar e Torres Vedras.
            Estamos perante Carnavais totalmente diferentes, o que vai ao encontro das características psicológicas de cada povo.


            No Rio de Janeiro, onde o Carnaval atrai um milhão de turistas, domina o samba. Tudo – as coreografias, os trajes - é vivido duma maneira muito profissional e apaixonada. Há quase como que um campeonato de escolas de samba e o povo sente a festa como uma extensão de si. Impossível qualquer lei ou decreto abolir o Carnaval no Brasil. O Carnaval faz parte do ADN brasileiro. Ano após ano, o mundo rende-se a esta festa de que os brasileiros são os principais intérpretes.


            Em Portugal, é um pouco diferente. O povo gosta de ver, não de participar. A vergonha sobrepõe-se à vontade de extravasar as sensações do corpo. Por isso temos um Carnaval de crítica social. Rimos dos políticos, das pretensas figuras públicas, de alguns defeitinhos que temos. Mas qualquer intempérie nos afasta do corso. Infelizmente não somos um país de Carnaval.



No entanto, o Carnaval que mais admiro e mais me seduz é o Carnaval de Veneza. A máscara é muito mais que um disfarce. É beleza pura, sedução irresistível, vaga alusão ao interdito sem castigo que Casanova imortalizou. O Carnaval de Veneza cria uma atmosfera de mistério a que ninguém fica indiferente. Depois temos o requinte dos vestidos e fatos a lembrar festas de palácios antigos. O Carnaval de Veneza é um baile de máscaras a céu aberto que atrai centenas de milhares de pessoas à bela cidade italiana dos canais e das gôndolas.

 Gabriel Vilas Boas