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segunda-feira, 24 de junho de 2019

VATICANO ADMITE PADRES CASADOS

No Sínodo para a Amazónia, a realizar em Outubro, o Vaticano debate, em Roma, a ordenação de homens casados, em áreas isoladas da Amazónia, Brasil.

A abolição do celibato na Igreja Católica não está prevista a curto ou médio prazo, mas a escassez de padres na América Latina pode abrir a porta a outras soluções. 
Para já trata-se apenas de uma proposta, mas tem a «bênção» do papa Francisco e promete causar celeuma, quando o outono chegar.
Ainda que esta potencial medida se destine apenas à Amazónia, onde a escassez de sacerdotes é por de mais evidente, é óbvio que a possível exceção, ao ser admitida, abre a porta a uma ampla discussão sobre um dos temas fraturantes dentro da Igreja.

Os críticos do padre Francisco podem dizer que o papa argentino parece atrair confusão e polémica, enquanto os seus defensores argumentarão que, para Francisco, não há temas-tabu e é preciso solucionar os problemas do quotidiano da Igreja de Cristo. 

Como é bom de ver, não se trata «apenas» de uma medida «ad hoc», mas de iniciar o debate sobre o celibato na Igreja Católica. Embora pense que o abolição do celibato não resolve por si só (longe disso) o problema da falta de padres na Igreja de Roma, acho que o Vaticano devia abrir a discussão do tema, dentro do seio da Igreja, ou seja, permitir que os cristãos de todo o mundo se pronunciem. Bem sei que a Igreja não está habituada a esta democracia, mas os tempos modernos não permitem mais decisões autocráticas. Elas estão definitivamente condenadas ao fracasso. 
Aguardemos por Outubro, porque a temperatura vai, por certo, subir no Vaticano.
GAVB

quarta-feira, 4 de maio de 2016

VATICANO LEAKS



O jornalismo de investigação volta ao fulgor do final século passado e começa a pôr em cheque os podres poderes do mundo que caem sempre na mesma tentação. Enquanto por todo o mundo, vários jornalistas trataram de pôr ao sol as offshores do Panamá, onde todas as fortunas mundiais se escondiam dos impostos que os pobres tinham de pagar, em Itália, o jornalista Emiliano Fittipaldi investigava a fundo as finanças do Vaticano e descobria material nojento e putrefacto que resolveu mostrar ao mundo através do seu livro “Avareza”, publicado novembro de 2015, em Roma, e cuja tradução para português está há poucos dias disponível.



Fittipaldi esteve esta semana em Lisboa para falar do seu livro, onde factos assustadores são apresentados com pormenor e sustentação documental.
Fittipaldi revela que alguma da cúria vive no mais pornográfico luxo à custa das esmolas que os crentes de todo o mundo canalizaram para os pobres. 

Alguns números:
- em 2012, as esmolas confiadas à Igreja Católica para ajudar os pobres totalizaram 53,3 milhões de euros, mas nem 30% deste valor foi gasto em obras de caridade. A Cúria romana gastou mais de 40 milhões do enorme bolo de generosidade para satisfazer os luxuosos prazeres de cardeais, para comprar ações, para investir em imóveis como se de uma agência financeira se tratasse;
- A Santa Sé possui obrigações, ações e ativos financeiros em seu nome ou por conta de terceiros controlados por si, que excedem os oito mil milhões de euros!!!
- o cardeal Bertone vive num apartamento luxuoso pago com dinheiro do Vaticano e chegou a desviar 200 mil euros destinados a um hospital pediátrico para aplicar em obras de remodelação do seu apartamento;
- o Banco do Vaticano é altamente suspeito de participar em ações de «lavagem» de dinheiro (dinheiro proveniente do tráfico de armas, da droga ou da prostituição)
- o Vaticano que recolhe cêntimo a cêntimo por todo o mundo em nome da pobreza mundial, possui mais de cinco mil prédios espalhados pela europa. Só em Inglaterra as suas propriedades estão avaliadas em 25,6 milhões de euros; na Suiça, o valor sobe para 27,7 milhões de euros e no conjunto França/Itália atinge astronómicos 342 milhões de euros!


E como reage o Vaticano às acusações de Fittipaldi? Não as refuta no conteúdo, mas coloca o seu autor em tribunal por "revelar informação confidencial que põe em perigo os interesses da Santa Sé”.
 Quando não se consegue matar a mensagem, mata-se o mensageiro.
Que vergonha para a Igreja! Que vergonha para o Papa Francisco! O Vaticano está a reagir a estas acusações da pior maneira possível. A única maneira de reagir era mostrar contas, revelar interesses, explicar para onde vai o dinheiro que, com dificuldade, milhões de crentes confiam aos padres de cada paróquia.
O problema da seriedade económica é tão ou mais relevante que o cancro da pedofilia dentro da Igreja católica. E este foi e é um problema monstruoso dentro da Igreja Católica, cujos tentáculos obrigaram Bento XVI a abdicar. Francisco só tem um caminho: o da verdade pura e crua. Depois há que tomar medidas duras e implacáveis.
Fittipladi diz que o Papa Francisco quer acabar com estas práticas mas não quer que o escândalo se saiba em toda a sua extensão. Pensa mal o Papa Francisco. Como muito bem sabe qualquer sacerdote, a força do arrependimento está na plena assunção da culpa. Assumir a culpa só enfraquece a Igreja numa fase inicial, pois o efeito principal será o da purificação.
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

ESCOLA DE ATENAS, de Rafael


Rafael foi um pintor e arquiteto italiano cujas obras encarnam o protótipo do renascimento, devido ao seu equilibrado classicismo e à sua perfeita aplicação de perspectiva, da composição e da luz.
Em Roma pintou um dos mais famosos ciclos de frescos nas salas do Vaticano, encomendados pelo Papa Júlio II, mas foi o seu sucessor, Leão X, que se tornou no grande mecenas de Rafael. O seu estilo pessoal exerceu uma enorme influência ao longo de toda a história da arte, incluindo o neoclassicismo com Ingres.
O quadro que hoje vos proponho é um fresco. Talvez o mais conhecido fresco de Rafael: A Escola de Atenas.

Trata-se de uma obra que foi alvo de múltiplas interpretações, mas a mais adequada é de Wölfflin, que afirmou que apenas se podem reconhecer algumas das personagens representadas. A composição possui o mesmo formato semicircular que "A Disputa”, visto que ambos são frescos para decorar o teto das salas.
O centro da composição é presidido pela presença de Platão e Aristóteles. O primeiro traz nas mãos o Timeu e o segundo a Ética. Ao mesmo nível e à esquerda, vemos a figura de perfil de Sócrates, abaixo da qual aparece Pitágoras, representado como um homem idoso ajoelhado e escrevendo um livro, enquanto um rapaz lhe segura uma tábua onde se encontra escrita a teoria da harmonia.
Na zona direita da obra e voltado para o observador, vemos o astrónomo Zoroastro, um homem de barba espessa que segura uma esfera celestial com a mão direita. Diante dele vemos uma personagem, que exibe uma coroa e uma esfera do mundo, que foi identificado como Ptolomeu. Outra das representações corretas é a do homem que apareceu sentado de lado nas escadas, adivinhando-se a sua forte musculatura, que sempre se pensou ser Diógenes.
O resto das figuras presentes não foram identificadas por falta de elementos objetivos. É interessante observar a genialidade de Rafael Sanzio através das representações das figuras clássicas e das suas vestes, elemento que serve ao artista para criar uma gama cromática muito rica.

Como já foi referido, um dos elementos centrais deste fresco de grandes proporções (770 cm) é Aristóteles, que é colocado de frente para o observador e com um pé ligeiramente avançado. O célebre ateniense aparece vestido com uma túnica azul, ou seja, da mesma cor que o céu que se adivinha pela luz que penetra na sala.

Como mera curiosidade, chamo a atenção para o canto inferior direito, onde ao mesmo nível que Pitágoras aparece Euclides, debruçado e de perfil, cuja túnica arroxeada traz uma inscrição na parte de trás em que vemos escrito: R.V.S.M. (Raphael Urbinas Sua Manu).