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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO, SABEDORIA


Informação há muita, o conhecimento é pouco e a sabedoria uma raridade. Esta é a sensação com que fico muitas vezes quando ligo a televisão, ouço a rádio, leio jornais ou converso com algumas pessoas.

A informação circula com facilidade e velocidade inusitadas e dá-nos a falsa sensação de conhecimento. Muita da informação que existe é falsa ou imprecisa ou incompleta. Comemo-la com sofreguidão, em diagonal, sem o cuidado de verificarmos a sua consistência. 

Como ocupamos demasiado tempo na inútil tarefa de absorvemos o máximo de informação, não dedicamos o tempo suficiente ao conhecimento e, por isso, deixamos de ter capacidade de «perceber» aquilo que nos põem à frente do ecrã. Falta-nos estudo, tempo, reflexão para adquirir os conhecimentos necessários, em determinadas áreas, para poder entender a muito informação, que nos chega de todo o lado. Falta-nos conhecimento até para rejeitar aquela informação que é apenas embuste uma mão cheia de nada.
O acesso à informação é muito fácil, mas o conhecimento exige esforço, por isso é que há muita informação mas parco conhecimento. Também por isso muitas discussões se tornam estéreis ou até absurdas, pois os seus intervenientes não sabem do que falam e limitam-se a debitar opiniões alheias.

A sabedoria é um estádio superior ao conhecimento. Só o atinge quem sabe o que fazer com a muita informação e qualificado conhecimento que dispõe. Diria que o primeiro ato sábio está em saber selecionar corretamente a informação, sem constrangimentos de nenhuma espécie. Também revela sabedoria aquele que resolve aprofundar e atualizar os seus conhecimentos, mas a fase mais difícil é saber conjugar boa informação com riqueza de conhecimentos e tirar conclusões certeiras, aplicando-as à vida.


Aprender a refletir. Eis um desafio que a sociedade da informação em bruto nos coloca. Precisamos de tempo e paciência. Ora, tempo e paciência parecem dois conceitos tão démodé… tal como a sabedoria.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A SABEDORIA DO PARVO

 O relógio já há muito ultrapassara as 19 horas, mas a praia estava cheia de gente a saborear um pôr-de-sol delicado e deslumbrante. Três amigos caminham ao longo do mar. Já decidiram que não voltam para a água embora os 24º sejam uma provocação… Trocam piadas, provocações, frases espirituosas à espera que a conversa pegue fogo.
Filosoficamente cada um costuma falar de uma realidade que lhe é próxima à espera que os outros entrem no jogo.
A conversa seguia agradável e ligeira, algures entre a procura da Felicidade e a Sabedoria humana, quando resolvi provocá-los:
- Sabem, o Miguel Esteves Cardoso costumava dizer que para se ser feliz é preciso ser-se um bocado parvo!
  Ela acrescentou em forma de resposta:
- Só um bocadinho?!
- Sim, só um bocadinho, porque se excedermos a parvoíce conveniente, passamos a parvalhões e depois aparece alguém a dar-nos notícia da figura que estamos a fazer e lá se vai a felicidade.   
  Ela voltou à carga:
- O melhor é fingirmo-nos de parvos?        
Depois dele ter dado uma sonora gargalhada, retorqui:
- Isso é batota, não vale! Tu sabes que estás a fingir. Não ignoras os factos, fazes é de conta que não os conheces. No entanto, já somaste dois mais dois, já avaliaste comportamentos, já te fizestes as perguntas incómodas que se impunham e viste a escuridão encobrir a luz.

Foi então que ele resolveu entrar na conversa.
- Não conseguimos ser só “um bocadinho parvos”!
- Nem nos tornar parvos! – Acrescentou ela.
Pois não! – Conclui. – A parvoíce sábia é uma espécie de descanso que damos à mente; uma nota de crédito que passamos às falhas humanas de cada dia. Mais dia menos dia também vamos precisar de um empréstimo com spread igual.
Por momentos voltámos a ouvir o mar, o som das bolas de borracha nas raquetes de madeira, o chapinhar de duas crianças que corriam perto de nós.
- O vento está a ficar mais fresco! – Disse ela!
Não estava nada, mas todos concordámos convenientemente. Estávamos já a exercitar esse “novo” modo de ser feliz ou pensávamos apenas como era pequena a nossa nota de crédito?

Gabriel Vilas Boas