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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

JOSÉ SARAMAGO, O NOBEL DA LITERATURA


Durante esta semana a Academia Sueca vai anunciando os laureados com os diversos Prémios Nobel. Para os Portugueses o certame ganhou uma especial relevância no ano de 2008, quando, num dia de outubro como o de hoje, foi anunciado o nome de José Saramago como Prémio Nobel da Literatura. A notícia encheu de júbilo os Portugueses que sentiram no êxito de Saramago um orgulho enorme
O escritor nascido na Golegã teve um percurso literário nada vulgar e uma intervenção cívica, social e política sempre muito polémica. Amado por muitos, criticado por alguns, Saramago nunca deixou ninguém indiferente à sua literatura, à sua ideologia e à sua intervenção política.
   Ainda que seja impossível esquecer o Saramago comunista e ateu, hoje apenas quero centrar-me no Saramago escritor.
     José Saramago é um escritor fantástico. Multifacetado, começa a escrever tarde, pois se excetuarmos o seu romance inicial, Terra do Pecado (1947), as suas publicações iniciam-se na década de setenta, quando o escritor já tinha passado os cinquenta anos. Nessa década, Saramago escreve sobretudo poesia e crónicas, a que não serão alheias as profundas transformações sociais e políticas que varrem a sociedade portuguesa e de que o escritor quis ser protagonista através da escrita.

   O melhor de Saramago acontece na década de oitenta. É nessa década que produz o imortal “Memorial do Convento” e também os excelentes “Jangada de Pedra”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Levantado do Chão” e História do Cerco de Lisboa”.
  O escritor português mostra toda a sua densidade narrativa e qualidade literária pegando em datas, acontecimentos, lugares, monumentos que fazem parte da nossa História coletiva para abordar temáticas como a relação do Homem com o transcendente e com a religião, o papel da Igreja Católica na sociedade portuguesa, a noção de pecado no mundo ocidental, a coragem/cobardia de diversas personagens históricas, a capacidade de abnegação do povo português.  
   A sua escrita era como a sua ideologia: polémica. Saramago começou por ser o excêntrico que punha vírgulas no lugar dos pontos finais; era o artífice barroco que trabalhava a frase, o período ou o capítulo de maneira laboriosa, surpreendente e bela.
     Mantinha com a Igreja Católica portuguesa uma relação de amor/ódio, que mais cedo que tarde o trouxe para a discussão pública e política. Acho que Saramago sempre o desejou. Não sei se por estratégia de marketing se por divergência ideológica profunda….
     A celeuma que o tornou conhecido entre aqueles que não o liam habitualmente ou que não o liam de todo aconteceu no início da década de noventa com “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, quando a Secretaria de Estado da Cultura vetou politicamente o livro, recusando-se a indicá-lo para a disputa dum prémio literário. O livro não tinha a dimensão literária dos anteriores, mas a polémica política deu-lhe asas mediáticas. Os livros que se seguiram – “Todos os nomes”, O Homem Duplicado”, “Ensaio sobre a Cegueira” (adaptado ao cinema pelo conceituado realizador brasileiro Fernando Meirelles) confirmaram um escritor maduro, seguro e sedutor nas suas propostas literárias. O melhor de Saramago chegava depois dos setenta. Prémio Camões em 1995, alcança a glória com o Nobel da Literatura em 8 de outubro de 1998.



    Goste-se muito ou muito pouco, a literatura lusófona deve muito a Saramago, pois a distinção da Academia sueca pôs-nos no mapa da literatura mundial.
   E já era mais do que tempo que uma língua que produziu um Camões, um Fernando Pessoa, um Eça de Queirós, uma Sofia de Mello Breyner, um Miguel Torga ou um António Lobo Antunes pudesse ser distinguida com um Prémio tão relevante como o Nobel da Literatura.

Gabriel Vilas Boas  

quarta-feira, 18 de junho de 2014

JOSÉ SARAMAGO


Faz hoje quatro anos que morreu José Saramago, o único escritor português a receber o Prémio Nobel da Literatura. Os últimos anos de vida do grande escritor nascido na Golegã foram uma enxurrada de prémios e reconhecimento público pela sua obra e pela sua escrita, de tal modo que ele não se tornou apenas num grande vulto da literatura, mas também numa das grandes figuras da História de Portugal.
          José Saramago teve uma vida e carreira marcada pela polémica. E ele gostava e aproveitava-se dessa celeuma que o envolvia. O homem que usava vírgulas em vez de pontos finais, gostava de enfrentar a Igreja Católica, provocando e desafiando, tinha prazer em afirmar-se comunista e criticar as opções políticas e ideológicas dos governantes do seu país e não renegava a rivalidade com António Lobo Antunes.
          A atribuição do Nobel da Literatura trouxe-lhe um reconhecimento e uma autoridade literária e social que nenhum outro escritor português teve nas últimas décadas. Esse prémio internacional encheu o ego nacional e tornou-o num herói até daqueles que pouco ou nada o leram. No entanto, a sua obra é superlativa e merece os encómios com que foi mimada.

        Único escritor português a receber o prémio Nobel da Literatura, José Saramago configura um caso ímpar na literatura nacional. Este escritor autodidacta iniciou a actividade profissional como serralheiro mecânico. Até 1976, quando decide dedicar-se em exclusivo à criação literária, foi tradutor, diretor literário e colaborou em vários jornais e revistas: crítico literário na Seara Nova, principal responsável pelo suplemento literário do Diário de Notícias e diretor-adjunto do DN.
          A aparente simplicidade da escrita de José Saramago é servida por um estilo muito próprio, marcado por frases e períodos compridos e por uma forma muito sua de utilizar a pontuação. O fluxo da sua escrita nem sequer é alterado pelos diálogos que surgem inseridos na narrativa. Estas são apenas algumas das características que o levam a ser considerado por muitos críticos como um mestre no tratamento da língua portuguesa.

          Muito escritor ganhará em ler José Saramago atentamente. Há-de aperceber-se que a naturalidade ou o artifício, a transparência ou o mal-entendido, a desarmante singeleza ou um requinte de perfídia, são outros tantos efeitos lúdicos, atingidos com recursos inesperadamente simples, à nossa espera no vasto areal do idioma. 


Antes da consagração máxima internacional, José Saramago tinha já recebido os mais prestigiados prémios literários nacionais: prémio Camões, em 1995; prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de escritores, em 1993; prémio de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 1995.
A publicação das suas obras em várias línguas tornou Saramago no escritor português mais internacional do fim do século XX. Exemplo disso são as declarações do cineasta Frederico Felini que descreveu Memorial do Convento como uma das mais interessantes obras que alguma vez lera. O italiano Azio Corghi foi mais longe, ao adaptar para a ópera a obra do escritor português que esteve em palco, no Scala de Milão, com o título Baltazar e Blimunda, em 1990. O mesmo autor adaptou a peça de teatro In Nomine Dei para a ópera com o título Divara.
Nas palavras dos membros da Real Academia, a atribuição do prémio justificava-se sobretudo pelo estilo assinalado “… por parábolas assentes na imaginação, na compaixão e na ironia e que continuamente nos possibilitam uma apreensão da realidade ilusória.”. De resto, estas características estão presentes no romance Ensaio sobre a Cegueira quando escreve: “se podes ver, vê. Se podes ver, repara.”. Quando recebeu o prémio Nobel, a sua obra encontrava-se já editada em países como Espanha, Itália, França, Bulgária, Estados Unidos, Japão, México ou Rússia.
Hoje a sua obra é difundida, com grande amor e carinho, através da Fundação José Saramago, que tem como presidente o grande amor da vida do escritor, Pilar del Rio.

Gabriel Vilas Boas