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domingo, 12 de julho de 2015

QUANDO DEIXAS DE CONTAR


Normalmente é um grande choque, porque não estavas a contar, que já não contasses para nada nem para ninguém. Acontece aos velhos, aos pobres, aos doentes, aos pouco influentes e até aos adolescentes, mas o problema destes é que ainda não contam.
Como és dotado de raciocínio e sentimentos, não podes deixar de notar e de te entristecer, mas de pouco te vale. Deixaste de ter valor económico e por isso quase todos te lembram quanto dispensável és. És passivo social e quase todos lamentam a tua presença, quase que diria a tua existência.
Começarão por dizê-to através de metáforas, depois por respostas ríspidas e ações concertadas, para que percebas que já não tens lugar. No autocarro, na bicha do supermercado, nos sítios glamourosos. Também não deves ter direito a coisas comuns e inerentes à tua condição de cidadão. Vá lá, uma ou outra, mas porque são magnânimos contigo, porque têm sentido humanitário, porque são boas pessoas. Todavia não deves abusar, importunando a alegria dos outros com a tua presença desnecessária, ridícula e decadente de eterno pedinte de atenção.

Deves saber sair de cena, o mais silenciosamente possível, sem resmungos nem reclamações.
Caso não tenhas reparado isto sempre foi, mais ou menos, assim e está constantemente a acontecer. Talvez a diferença, agora, é que essa coisa chamada educação nos fez, a todos, ter mais consciência disso, mas não mudou o essencial: continua a praticar-se e tem cada vez mais adeptos. Aliás, deixou a esfera pessoal e caminha despudoradamente pela via institucional. Ao longo dos séculos existiu também entre povos, quando os seus governantes tinham uma dimensão pequenina do conceito de Humanidade.
Nestes dias, o conceito chegou, finalmente, ao autoproclamado primeiro mundo. Os gregos perceberam finalmente que são os feios, pobres e maus da zona chique da União Europeia e já ninguém esconde a vontade de os atirar borda fora da mesa euro. Estão velhos, doentes e consomem demasiados medicamentos. Não interessa já o que dizem e as suas razões, o que prometem fazer e até mesmo o que farão. Querem-nos fora! As humilhações constantes a que têm sido sujeitos tem como único objetivo levá-los a sair pelo seu próprio pé, admitindo que não são dignos de tão honrosa companhia.


Estamos fartos de ver este filme no nosso dia-a-dia, na maneira como os velhos são maltratados por toda a gente. Lamenta-se o gasto com os medicamentos, os centros de dia, os hospitais, as reformas. Tudo o que eles fizeram ou ganharam em prole da sociedade, que os rejeita agora, nada conta e foi esquecido.
Quando isto acontece o melhor é não resistir e manter a dignidade. Sair pelo próprio pé, mudar de rota e desenhar no mapa da nossa vida outro caminho para a felicidade. Fora de hipótese deve estar qualquer desistência ou falta de fé nas nossas capacidades, porque os casos de sucesso são vários.   
Somos uns tristes e uns coitados. Séculos e séculos de evolução humana, cheia de ciência, realizações e nobres sentimentos, fizeram-nos avançar muito pouco em relação às leis da animalidade.
Resta o triste consolo de uma certeza: o dia em que deixas de contar chegará, inexoravelmente, para toda a gente.
Recusa que sejam os outros a dizer-to. Nunca deixes de contar para ti!
Gabriel Vilas Boas 

domingo, 28 de junho de 2015

VENDER A ALMA AO DIABO… OU NÃO!


Soube-se durante a semana que passou que os partidos que suportam o governo português farão votar daqui a cinco dias (3 de julho) um Projeto de Lei que prevê uma taxa moderadora de sessenta euros para as mulheres que pretendam abortar.
É uma ideia que mexe um pouco com a minha sensibilidade! Então a direita portuguesa, paladina e defensora da moralidade e dos valores da família, está a vender uma vida humana a sessenta euros?

A dignidade não tem preço, mas isso não se aplica a gente hipócrita. Sempre suspeitei que os defensores acérrimos do «não» à interrupção voluntária da gravidez, nas primeiras dez semanas de gestação, por vontade da mulher, apresentavam argumentos que não coincidiam com a maneira como viviam e procuravam apenas impor o seu modelo moral. Pelo meio lançavam mão de todo o tipo de fundamentos, entre os quais se destaca o icónico “é proibido, mas pode fazer-se” de Marcelo Rebelo de Sousa, que os Gato Fedorento tão bem glosaram. 

Oito anos depois, cai a máscara à direita em Portugal. Afinal, a vida humana sempre vale alguma coisa, vale sessenta euros. Aguardo, curioso, o que as famosas associações pró-vida e a Igreja portuguesa terão a dizer. Espero a indignação, a revolta, os debates públicos, os prós e contras da praxe! Na verdade, não espero nada disso, porque PSD e CDS só são confiáveis na arte de cobrar impostos.


Ao mesmo tempo, o glorioso mundo da tecnocracia empurrou a Grécia para fora do Euro, ao propor-lhe um acordo leonino, uma nova versão de uma relação feudal em que os gregos seriam os novos servos da gleba dos vampiros bancos alemães.
Talvez seja verdade que os gregos adorem gastar o dinheiro dos outros, talvez seja verdade que fogem aos impostos com mais astúcia que os nossos políticos fogem da prisão, mas acho que o governo de Tsipras foi corajoso e leal para com o seu povo ao dizer «Não» ao acordo e na decisão de propor um referendo.
Não foram eleitos para se vergar ao poder do dinheiro; não ganharam as eleições para continuar com a política de austeridade sem resultados nem futuro que a troika impõe. Como também não foram eleitos para sair do Euro só porque o Syriza sempre defendeu isso!
Através do referendo devolvem, integral e claramente, o futuro da Grécia aos gregos. Se quiserem o Euro, terão de aceitar uma austeridade sem fim; se quiserem mudar de vida, terão de viver com uma moeda muito desvalorizada, com fortes restrições ao consumo internacional e, sobretudo, terão de se fazer à vida, mudando de paradigma comportamental, nos vários setores da vida grega.

Mais tarde ou mais cedo, teríamos de chegar aqui! Ainda bem que o Syriza de Tsipras coloca tudo em pratos limpos, porque ambas as soluções causarão dor, mas o horizonte de esperança é bem diferente em cada uma delas.
Há uma semana vi encenada uma peça de teatro de Nikolai Gógol em que o protagonista Tchítchikov tentava comprar almas mortas e isso causava perplexidade. Em Portugal, nada causa estranheza, nem quando se negoceia a vida daqueles que hão de nascer. Os mercados bolsistas dizem que se chama “negociar futuros”, eu acho que é vender a alma ao diabo.

Gabriel Vilas Boas