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sábado, 5 de outubro de 2019

PROFESSOR: REERGUER-SE, REINVENTAR-SE, REJUVENESCER

Quando observo a minha profissão através dos olhos apressados do cidadão comum, não posso deixar de sentir uma amarga tristeza, ao perceber naquilo que nos tornámos aos olhos do outro: um velho sábio, zangado com o mundo, desfasado da realidade, resmungão e cansado, vivendo de prodigiosas glórias passadas. 
Não gosto nada do retrato, mas a verdade é que ele apenas se acentua com o passar do tempo.

Quais os desafios que se colocam ao professor atual?

Em primeiro, a classe docente precisa de rejuvenescer. Muitas salas de professores caminham para lares da terceira idade, mas o pior é o afastamento mental em relação aos alunos, aos encarregados de educação, à realidade social e cultural que rodeia a Escola. Mais facilmente os alunos sentem comiseração pelos seus professores do que admiração. 
Os alunos precisam de uma classe docente intergeracional, mas a sociedade faz pouca pressão sobre o governo para que este assuma e renovação geracional dos professores como uma prioridade.

Outro problema central que os professores precisam de enfrentar é reinventar o seu papel na escola e na sociedade. É preciso ser professor de outra forma. Perceber que estamos num mundo tecnológico, que temos de aproveitar, utilizar e rentabilizar e não ignorar ou hostilizar. O tempo do papel, do lápis e da caneta, do quadro negro ou branco, das longas aulas expositivas já passou... ou devia ter passado. Os alunos aprendem muito mais fazendo, experimentando, partilhando com os colegas as aprendizagens que fazem por si. É certo que largar o comando da aulas é muito desconfortável para o professor, mas o caminho é esse.

Por outro lado, o professor português tem de perceber que já não tem o papel social que tinha e que muitos ainda julgam ter. É importante sim, mas não o mais importante! É um par, e não primus inter pares. Além disso, necessita de recuperar muito terreno para repor uma imagem positiva que perdeu há mais de uma década. O professor precisa de fazer sentir a sua relevância, através doseu trabalho, em vez de constantemente estar a reclamá-la como se ela fosse sua por direito natural. Mostrar como a sua atividade pode interagir com o de outras profissões, apresentar à comunidade local e regional o trabalho desenvolvido com os alunos. 

Reinventar-se e reerguer-se! Recuperar o prazer de ensinar, ensinar de outra forma, por mais cansado que se esteja, por mais desiludido e sem esperança que nos sintamos, o caminho só pode ser o da mudança. Paciente e não excluindo ninguém, todavia sem protelarmos mais, porque o tempo urge.

GAVB

domingo, 5 de outubro de 2014

A REPÚBLICA E OS PROFESSORES

HOJE É O TEU DIA! HOJE É O NOSSO DIA!
Há mais de um século nasceu a República. Quem a implementou tinha o sonho de criar um Portugal mais justo, mais desenvolvido e moderno, que pudesse acompanhar a evolução das nações europeias.
Os portugueses aceitaram pôr fim à monarquia, não porque detestassem o seu Rei, mas porque concluíram que este já não faziam parte da solução, mas sim do problema. Os impostos sufocavam os portugueses, o país pulava de empréstimo em empréstimo, afundando-se em dívidas. O povo não tinha saúde pública, era analfabeto e vivia agarrado à mentalidade  eclesiástica do medo.
A República foi uma espécie de tsunami ideológico que sacudiu o país. Com a constituição de 1911, os poderes ficaram definitivamente tripartidos e independentes entre si. As pessoas passaram efetivamente todas a ser  iguais perante a lei, destruindo-se os privilégios de nascimento. Qualquer cidadão podia agora aspirar ao mais alto cargo da nação. No entanto, foi na educação e na relação com a Igreja que a República deixou a sua marca e marcou uma evolução do nosso país. Ao consagrar a liberdade de culto, a República fez de Portugal um país sem religião oficial e por isso não faziam sentido os privilégios da Igreja Católica. Igreja e Estado passavam a seguir caminhos separados. O Estado português passava ser laico.



 

Sou católico convicto e sempre achei bem esta medida republicana. A Igreja não teve uma génese de privilégio e o seu foco sempre devia ter sido o mundo espiritual. A República não impediu o culto cristão católico, apenas o retirou da esfera do Estado, pois não cabe ao Estado regular a relação do indivíduo com o transcendente. No entanto, acho um abuso sem justificação a expulsão das ordens religiosas e a nacionalização de muitos bens da Igreja. Não se derruba uma injustiça com outra injustiça. Se aqueles bens eram ilegítimos, ilegítimo foi nacionalizá-los.
Todavia, a República trouxe muitas outras mudanças positivas ao país. Obrigou as pessoas a registarem-se civilmente, controlando, finalmente, nascimentos, óbitos, casamentos. Permitiu o divórcio, promoveu a igualdade entre filhos legítimos e ilegítimos (Como diria o Papa Francisco, “não há mães e mães solteiras, há Mães”), protegeu e dignificou a condição da mulher, instituiu o descanso semanal, reduziu o horário de trabalho para 48 horas, criou o direito à greve, criou os seguros contra acidentes de trabalho e instituiu o direito à assistência, ou seja, a proteção na velhice e na doença.
Já imaginaram o que seria dum país sem estes direitos básicos? No entanto eles começam a ficar ameaçados, isto é, os fundamentos da República estão em causa.



No entanto, para mim, o grande salto que a República proporcionou à nossa nação foi tornar o ensino primário obrigatório e gratuito. Na altura 70% dos portugueses eram analfabetos, hoje o valor não chega a 7%, o que constituiu uma grande vitória republicana.
Talvez por isso, os professores tenham escolhido este como o seu dia. E fizeram bem. Os professores são um pilar fundamental na Educação de qualquer povo. A Educação dos portugueses nos últimos cem anos deve muito à República.
Passados mais de cem anos desses tempos de esperança e mudança, a República é uma triste caricatura do que quis ser. O país afunda-se em dívidas e os portugueses em impostos, as figuras principais do regime não são parte da solução, mas uma grande parte do “problema” e a Educação gratuita e universal nunca esteve tão em perigo como hoje. Ser professor em 2014 não é um orgulho, uma missão. Quem nos dirige humilha os professores, descredibiliza o bem mais precioso da República.
Como podem os professores ensinar valores como a liberdade, a dignidade, a igualdade, o respeito pela diferença, quando sentem a injustiça com que são tratados?



Muitos milhares de colegas manifestaram-se, hoje, em Lisboa, pela dignificação duma profissão tão relevante em qualquer país. Na sua voz, na sua generosa força de vontade, transportaram a alma dum povo que não quer morrer lentamente. A poucos metros deles, no salão nobre e climatizado da Câmara Municipal de Lisboa, o Presidente Cavaco Silva disse sem rir nem reparar no ridículo: “É urgente uma reflexão séria sobre o regime político português.”, “É preciso entendimentos partidários de curto e médio prazo”.
                Ora, entendimentos partidários são o que mais tem havido e, ao que parece, eles apenas pioraram a situação do país, em vez de a melhorar. O que os portugueses desejam não é mais uma reflexão, mas de ação. Uma ação determinada, justa e que vá de encontro aos ideais republicanos que os nossos queridos partidos se têm encarregado de matar lentamente.
Hoje já nem um feriado a implementação da República merece. E nós, continuamos a merecer a República?  
Deixo-vos com um tema recente de Pedro Abrunhosa que ilustra a mensagem final que vos quero deixar.
GAVB