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sexta-feira, 15 de maio de 2015

QUEM AMANSA A CONSTANÇA?


Há vinte anos, ouvi Mário Soares dizer, perante um auditório de estudantes universitários, que um facto só existe quando passa a ser noticiado. Entretanto o mundo da comunicação evoluiu e hoje todos sabem que os acontecimentos sociais só ganham dimensão para repararmos neles quando se tornam virais no facebook. Ora toda a gente sabe que os vírus nunca espalham boas notícias.
Mais uma vez marcando a espuma dos dias, um vídeo colocado esta semana na rede social mais usada do planeta pôs a população portuguesa a discutir novamente o bullying e a chocante agressividade entre jovens. É uma questão importante que deve ser discutida e analisada pelas famílias portuguesas de forma urgente. No entanto, toda a sociedade deve ter a noção que este problema também lhe diz respeito e que pode contribuir para a sua resolução de uma maneira direta ou indireta.

Treze minutos a levar estaladas sem reagir não é bullying, é uma agressão brutal que se aproxima muito da tortura. É tão difícil imaginar alguém a levar uns tabefes durante vários minutos, sem esboçar grande reação, como conceber que um grupo de jovens comete tão ignóbeis atos sem que em nenhum momento algum deles tenha sentido um pingo de humanidade, culpa, remorsos e tivesse posto cobro a tamanha barbaridade. Parece impossível, mas foi possível!
Como diria Hannah Arendt, hoje assiste-se com frequência à banalização do mal e cenas como as ocorridas há um ano na Figueira da Foz chocam muito pouco os mais jovens. Não deixa de causar espanto que só um ano depois o jovem agredido se tenha sentido agredido o suficiente para se deslocar à PSP e apresentar queixa. Durante um ano, Constança e o seu grupo de gente cool não sentiram culpa nem remorsos nem medo. O que lhes dói hoje é saber-se! Constança conhece finalmente o significado da fama. Para além de ficar a saber que ela tanto leva ao céu como ao inferno, já percebeu que ela se torna incontrolável e é mais destruidora que a humilhação que infligiu àquele rapaz e, possivelmente, a outros como ele.

Ficou também ciente que o mundo egoísta e dominado pela vaidade em que vive haveria de lhe recordar o que ela fez no verão passado. Em cada comentário, em cada notícia, em cada olhar, em cada programa televisivo, em cada piada que já se faz sobre o caso, Constança já sente toda a dor das bofetadas que deu ao rapaz agredido.
Como o seu pai bem disse é uma lição que lhe fica, cruel e dura. Deixemo-la aprender sem acrescentarmos os costumeiros pregos da moralidade hipócrita à sua cruz. Será uma lição intensa mas não durará muito, porque o círculo mediático daqui a breves horas já terá voado para outras paragens.
Constança precisa de aprender algumas coisas sozinha, outras com a ajuda da família, que afinal não a conhecia e outras com a ajuda de toda a sociedade. Se os adultos não valorizam a amizade, o bom trato, a delicadeza, o respeito pela diferença como podem os jovens sentir-se impelidos a tal? Se uma estação televisiva não acha grande mal ridicularizar os defeitos físicos e artísticos de um adolescente, expondo-o perante milhões de pessoas, como podemos ficar admirados que haja mais “Constanças” do que aquelas que supúnhamos?
Gabriel Vilas Boas

    

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PEARL JAM (JEREMY)



Músicas Com História


Hoje toda a gente na Escola e na sociedade está atenta ao problema do Bullying e sensível a todas as manifestações artísticas que evocam o tema e alertam para o problema que muitos jovens vivem nas escolas portuguesas e não só. 

A música é um veículo extraordinário de sensibilização, alerta e, por vezes, resolução de problemas, como o Bullying. Hoje estava a ouvir Pearl Jam e recordei que uma das primeiras músicas da banda – Jeremy – alertava em 1991, ou seja, há 23 anos para o problema. 

A letra da canção inspira-se na histórica verídica dum rapazinho duma escola do Texas que se suicidou em frente aos colegas em consequência dos sucessivos ataques bullying de que era alvo no local onde devia aprender a ser feliz e do desinteresse de que era vítima por parte daquelas que mais o deviam proteger e animar.



Jeremy Wade Delle cometeu suicídio com uma arma de fogo em frente à sua turma de Inglês, na Richardson High School, no dia 8 de Janeiro de 199. Em entrevista concedida em 2009, Vedder (o líder dos Peral Jam) disse que sentiu que "precisava pegar naquela pequena notícia de jornal e transformá-la em algo que causasse uma reação, transformá-la em algo maior."

Delle foi descrito pelos seus colegas de aula como "muito tímido" e era conhecido por sempre aparentar tristeza. Após chegar atrasado à aula naquela manhã, foi-lhe dito que fosse à direção da escola, onde traria uma autorização para entrar na sala. Ele saiu da sala e voltou com um revolver e à frente da turma, anunciou "Senhora, eu peguei o que tinha ido buscar", colocou o cano da arma na boca e puxou o gatilho antes que a professora ou alguém de sua turma pudessem fazer alguma coisa

Comovido pela notícia que lera no jornal, Eric Vedder, escreveu uma composição emocionalmente muito forte e que causou muita polémica, porque também punha em causa e negligência dos pais que nunca se importaram com as humilhações a que o filho era sujeito.


"Daddy didn't give attention (o papá não dava atenção)
To the fact (ao facto) 
That mommy didn't care" (de que a mamã não se importava).


Hoje o tema ainda faz sentido, pois ainda há poucos meses um rapaz, numa escola de Braga, acabou por se suicidar, após longo tempo sujeito a humilhações por parte dos colegas, sem que ninguém responsável na escola tivesse tomado o cuidado de o proteger. 

Hoje convido-vos a tornar ouvir e a ler "Jeremy dos Pearl Jam e a refletir no muito que ainda há a fazer para que histórias como a do pequeno Jeremy só faça parte dum passado longínquo.

Gabriel Vilas Boas