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domingo, 22 de abril de 2018

ALMEIDA GARRETT E VISCONDESSA DA LUZ: UMA PAIXÃO ESCANDALOSA



Almeida Garrett, um dos maiores escritores portugueses de sempre, foi um homem que viveu muito em pouco tempo. Literatura, teatro, política, vida social… Garrett era um homem poderoso, talentoso, apaixonado. 
A parte final da sua vida fica marcada por uma história de amor arrebatadora, intensa e escandalosa com a Viscondessa da Luz, Rosa Montufar, pois esta era casada com o oficial do exército, Joaquim António Velez Barreiros.
No entanto, a condição de casada de viscondessa não impediu os dois amantes de se encontrar vastas vezes numa casa, na zona de Campo de Ourique, centro de Lisboa, onde consumavam a sua paixão.
O que há de verdadeiramente incomum nesta história não é tanto o adultério, mas o facto de ambos terem deixado que ela fosse do domínio público, pois conhecemos algumas das cartas que ambos trocaram assim como é percetível que alguns dos poemas mais sensoriais de Folhas Caídas têm Rosa Montufar como inspiração e destinatária.

Se Garrett começa por escrever: «Como tu estavas linda, terna, amante, encantadora! Que deliciosa variedade há em ti, minha R. adorada. Possuir-te é gozar um tesouro infinito, inesgotável. Juro-te que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que hei-de consagrar até ao último instante da minha vida. Depois de ti toda a mulher é impossível para mim. Que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar
Mais tarde é ainda mais incisivo e percebe-se quanto era correspondido:
«É verdade, amor querido, esta felicidade que nós gozamos, esta liberdade com que de tempos a tempos nos vemos, nos abraçamos, nos beijamos, é imensa, é infinita, minha querida R.»
Garrett, o homem que cuidava da imagem como nenhum outro escritor, não se coíbe de gastar os últimos anos da sua vida vivendo uma paixão arrebatadora, escandalosa, «proibida», que só não é mais icónica na literatura portuguesa porque vinte anos mais tarde Camilo Castelo Branco e Ana Plácido protagonizariam um «Amor de Perdição» ainda mais intenso, polémico, e escandaloso.
GAVB    

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

FALAR VERDADE A MENTIR, de Almeida Garrett






Normalmente, uma criança começa a gostar de teatro na Escola, no contacto que tem com os textos dramáticos que o programa lhe propõe para estudo. Por isso é fundamental que essa escolha seja criteriosa e não perca o adolescente para o gosto pelo teatro. Esse objetivo era atingido quando os alunos, por volta dos 13/14 anos, estudavam “Falar Verdade a Mentir”, de Almeida Garrett. Digo acontecia porque, embora os programas de Português do 8.º ano não tenham sido amputados, do maravilhoso texto, do autor de “Folhas Caídas”, as Metas Curriculares colocaram-no fora de meta e por isso tenderá a ser esquecido, infelizmente!


Falar Verdade a Mentir é uma comédia dum único ato, escrita há cerca de 170 anos, por Almeida Garrett. Em hilariantes e bem dispostas dezassete cenas, o protagonista exercita a arte (e a falta dela) de mentir. Não por defeito, mas por feitio. 



Garrett consegue tratar dum dos piores defeitos humanos – a mentira – dum modo divertido e pedagógico. Sem nunca abdicar da condenação da mentira, o dramaturgo vai passando a mensagem de que a mentira acarreta problemas desnecessários, põe em perigo o carácter e a consideração pessoal daquele que falta à verdade, faz perigar objectivos essenciais na vida das pessoas.



A peça relata a história da jovem burguesa Amália e da sua criada, Joaquina, que têm como objectivo de vida casar com Duarte Guedes (o mentiroso compulsivo) e José Félix, respectivamente. Joaquina acompanha os amos do Porto para Lisboa, onde vive José Félix e onde os dois pares de namorados se reencontram.
Joaquina revela a José Félix que Amália lhe prometeu que lhe daria um dote de cem moedas quando se casasse. No entanto, esse casamento corria perigo, pois o pai de Amália impusera uma condição: não apanhar Duarte em nenhuma mentira. Como Duarte era um mentiroso compulsivo, o enlace das duas jovens mulheres corria o risco de nunca ser… verdade.


Toda a peça é uma sucessão patranhas, tão evidentes quanto desnecessárias, que Duarte vai pregando à noiva e aos espectadores/leitores e que Amália, José Félix e Joaquina tentam transformar em verdades.
Duarte desconhece a condição que o futuro sogro impôs à filha e não consegue estancar o vício da mentira, o que aumenta o dramatismo da situação, pois parece que o pai de Amália está sempre prestes a desmascarar o futuro genro.
Numa tentativa de socorrer Duarte (e salvar o seu próprio casamento), José Félix fez-se passar pelas pessoas que Duarte mencionara nas suas mentiras, como por exemplo, Tomás José Marques, Lord Coockimbrook e general (sendo depois despromovido a coronel) Lemos. Mas, no fim do dia, o pai de Amália descobriu que o seu futuro genro lhe tinha mentido, apesar das suas mentiras terem acabado por serem verdades.

Como Garrett escreveu uma comédia e não uma tragédia, o general Lemos lá convence o pai de Amália a concordar com o casamento da filha, para gáudio de personagens e leitores/espectadores, que apenas desejavam que Duarte aprendesse a lição e emendasse o seu pernicioso vício.

Nesta comédia de enganos e desenganos, a mentira é tratada com benevolência, mas a desaprovação moral e ética são evidentes. Ainda que duma maneira suave e divertida, a comédia não deixa de identificar e tratar as maleitas sociais de cada época. Infelizmente, neste caso, o riso não tem sido censura suficiente.
Gabriel Vilas Boas