Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta A Cornucópia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A Cornucópia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de janeiro de 2016

LUÍS MIGUEL CINTRA, O CRIADOR TOTAL


Luís Miguel Cintra, o criador total do teatro português, está a despedir-se. Lentamente, para ser menos doloroso para todos, mas a estrada do fim começou a ser trilhada.
Há três meses, no meio do outono passado, no final da representação de Hamlet, de Shakespeare (tradução de Sophia de Mello Breyner) anunciou a sua saída de cena por motivos de saúde. O alzheimer vai-lhe corroendo lentamente a memória e ele, melhor do que ninguém, sabe que representar não pode ser um ato frio, mecânico, soprado a partir de qualquer auricular.

Ator, encenador, dramaturgo, Luís Miguel Cintra (LMC) é um homem do Teatro e a ele devotou toda a sua vida. Foram quarenta anos maravilhosos a representar centenas de peças, a encenar outras tantas, a reescrever trechos de peças dramáticas imortais, pois, ao criar teatro, LMC escolheu sempre “interpretar” o texto mais do que "transportá-lo" para o palco.
Um palco onde tudo era trabalhado de uma forma exigente: guarda-roupa (em colaboração estreita com Cristina Reis), iluminação, música, voz, trabalho de ator.
Como para ele o teatro sempre foi um todo, a carreira de encenador começou quase ao mesmo tempo que a de ator. E quanto útil foi ao encenador saber o que era ser ator! A sua predileção sempre foi a atuação e por isso afirma com frequência que gosta de representar tudo aquilo que encena.

Começou por representar a peça “O Avejão” de Raul Brandão, mas foi a fazer de Papa em “Ela” de Genet e a representar “Afabulação” de Pasolini que mais satisfação alcançou enquanto artista criador de personagens, pois os seus papeis permitiram-lhe tocar questões como a liberdade interior, o poder, a autoridade ou a ética.
Como encenador, iniciou-se com o imortal “Anfitrião” de Plauto e depois seguiram-se dezenas de peças onde criou e ensinou ao mesmo tempo, ajudando a formar sucessivas gerações de jovens atores.
Esse amor ao teatro é ainda mais evidente se tivermos em conta que há quarenta e dois anos (1973) fundou com Jorge Silva Melo a Cornucópia – uma das mais antigas e reconhecidas companhias de teatro portuguesas. A Cornucópia anunciava os ventos de Abril e 1974 e, como muitas outras companhias independentes de teatro, juntava atores, dramaturgos e dramaturgos que gostavam de viver em grupo, adoravam representar e não lhes agradava a ideia de criar em função do lucro.

Luís Miguel Cintra pode orgulhar-se de um companhia que antes de mais era uma casa de afetos, onde todos se sentiam confortáveis a representar, pois em palco via-se, antes de mais, pessoas.
Não vale a penas ser nostálgico. Quando se decide parar, ainda que em slow motion, muitos sonhos ficam por realizar. Fazer Dom João de Molière é um deles, o outro era representar uma peça de Wedekind. No entanto, alguns projetos ainda são possíveis. Daqui a duas semanas, sobe ao palco do São Carlos uma ópera encenada por si – O Diálogo das Carmelitas, da dupla Poulenc e Bernanos.
O homem que foi para letras para ser artista prepara o fim. Devagar. Despedindo-se à vez de cada um dos seus “heterónimos” com classe e sabedoria. Há semanas disse que “através do Teatro, teve o prazer de estar na vida com os outros”. O prazer foi e ainda é nosso, Luís Miguel Cintra.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

COMPANHIA DE TEATRO A CORNUCÓPIA



O Teatro Português deve muito ao talento dos seus atores, à qualidade literária dos dramaturgos, à competência dos técnicos, à sagacidade dos encenadores e também ao trabalho perseverante das companhias de teatro. Lutando com falta de meios materiais, com falta de financiamento, com ausência dum público esclarecido, elas são a vela que nunca se apagou e mantém viva a chama do Teatro em Portugal.

Hoje falo-vos duma das mais antigas e reputadas Companhias de Teatro profissionais portuguesas: a Cornucópia. 

Esta companhia lisboeta, com sede na zona do Bairro Alto, nasce do sonho de dois jovens apaixonados da arte de Molière, Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra, que no final de 1973 decidem fundar uma companhia de teatro. No início nem sede própria tinham e mantiveram-se com a ajuda dum pequeno subsídio da Fundação Calouste Gulbenkian.

      

As primeiras peças foram os clássicos de Molière e Marivaux, até porque a censura fascista não os deixava pôr o pé em ramo verde. No entanto, poucos meses após o seu nascimento dá-se o 25 de abril de 1974 e a Cornucópia pôde dedicar-se à dramaturgia contemporânea e à construção de um teatro de reflexão com uma função ativa na realidade cultural portuguesa.

A companhia criou desde o cedo o hábito de criar ciclos temáticos como propostas de reflexão. Um dos ciclos temáticos iniciais foi sobre o cómico e a comédia e incluiu um espectáculo Karl Valentin, um espectáculo Plauto e peças como O Labirinto de Creta de António José da Silva (o Judeu) e Não se Paga, Não se Paga de Dario Fo. 

1980 marca a saída de Jorge Silva Melo da Cornucópia e a entrada da cenógrafa Cristina Reis que se mantém na companhia até hoje.


A partir de 1983 com o espectáculo “Oratória” (montagem de textos de Gil Vicente, Goethe e Brecht) a companhia centrou o seu reportório num tema a que chamou “O Mal Estar do Nosso Tempo”.




A reflexão sobre diferentes temas acabou por estender-se ao próprio teatro como representação da vida. Assim a companhia dedicou a esse tema um ciclo em que incluiu “O Público” de Garcia Lorca, “Céu de Papel” (montagem de textos de Pirandello e Beckett), "Salada" (uma colagem de números tradicionais de palhaços) e "Um Poeta Afinado" de Manoel de Figueiredo.

O Teatro da Cornucópia tem levado à cena alguns dos grandes clássicos de todos os tempos (Gil Vicente, Shakespeare, Wycherley, Tchekov, Strindberg, Beaumarchais, Lenz, Hölderlin, Kleist) e tem abordado textos de muitos géneros. Esta companhia pretende intervir culturalmente na sociedade portuguesa e não abdicar do teatro como terreno privilegiado da criação artística e grande instrumento de pensamento das sociedades. 

A programação mais recente tem dado primazia a dramaturgos com uma escrita mais “radical”, como Beckett, Orton, Botho Strauss, P. Handke, Edward Bond, Genet, Gertrude Stein, Lars Nóren, Brecht, Pasolini, Fassbinder.


Ao mesmo tempo a Companhia procurou inovar, elaborando vários espectáculos a partir de textos não teatrais: de Raul Brandão, “Primavera Negra”; de Francisco de Holanda, “Diálogos sobre a Pintura na Cidade de Roma” e o poema “A Margem da Alegria” de Ruy Belo.

Além disso, procurou sempre atrair encenadores estrangeiros, convidando pessoas como Stephan Stroux, Christine Laurent, Brigitte Jaques, Carlos Aladro ou Ana Zamora, ao mesmo tempo que possibilitou a afirmação de jovens encenadores portugueses como Miguel Guilherme, José Meireles, António Pires, José Wallenstein, Ricardo Aibéo.

Se hoje a Cornucópia tem uma situação económica estável com apoios financeiros públicos e privados e dispõe duma “casa própria”, onde é permitida à companhia a permanente experimentação de espaços cénicos, isso deve-se ao profícuo labor e qualidade demonstrados durante quatro décadas em que muito do melhor teatro feito em Portugal foi produzido pela Cornucópia.



Gabriel Vilas Boas