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sexta-feira, 18 de abril de 2014

A IGREJA DE SIZA VIEIRA

A Igreja do Marco de Canaveses é uma das obras mais conhecidas a nível nacional do arquiteto Álvaro Siza Vieira. Pode-se dizer que a sua excelência provém do feliz encontro entre as características dum programa litúrgico e a abordagem intimista e purificada que caracteriza a obra do arquiteto portuense.
A Igreja de Santa Maria revela, duma maneira feliz, o que marca a arquitetura moderna: economia de meios,  o despojamento, a exposição das características essenciais dos materiais. Podemos verificar o mesmo noutros templos religiosos doutros arquitetos famosos, como é o caso da Igreja de Imatra de Alvar Aalto ou da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, dos arquitetos Portas, Teotónio Pereira e Viera de Almeida.
Na igreja do Marco de Canaveses, o desenho transcendente que Siza costuma fazer dos “objetos” ocupa um lugar verdadeiramente transcendente. Ou seja, os “objetos”, na igreja de Santa Maria, têm um sentido iconográfico: aquilo que se olha é exaltado pelo seu significado. Uma porta nunca é somente uma porta. Por isso, a belíssima porta de acesso – a entrada no templo – anuncia o jogo de escalas que é o programa litúrgico de Álvaro para a Igreja do Marco.

Não é uma igreja onde se dá uma ideia ascensional. Trata-se de uma “igreja salão”. O que caracteriza este edifício é um permanente confronto de escalas, o que sugere a dicotomia entre o humano e o divino. O homem é pequeno e humilde quando cruza a porta do templo, mas nunca abandona a sua condição quando sonda a cidade (espaço exterior) pela longa janela horizontal, desenhada à medida dos seus olhos.
O mobiliário é duma simplicidade total, a ausência de ornamentação parece dum edifício pagão, mas a altura e a luz recolocam-nos na senda do divino.

Mostrando uma sabedoria de mestres, Siza Vieira faz crescer esta igreja, construída no final do século XX, através duma geografia plataformas, escadas e muretes. A igreja tem uma base retangular e é, aparentemente, simétrica e estável. Contudo, na fachada de acesso, um dos corpos avançados é a torre sineira e o outro é o batistério. E ao lado da nave, existe um corpo baixo, onde se situam as salas complementares, que assimetriza a volumetria sem comprometer o volume erguido. No espaço interior, a parede noroeste é curva e oblíqua e cai suavemente sobre os crentes.
Talvez o mais extraordinário e comovente desta igreja seja uma contenção fina que coloca este edifício num patamar logo abaixo dum monumento.
      A Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, tem uma dignidade que inquieta. As paredes são duma brancura que evoca a pureza e o silêncio reina imperialmente. Todos os anos há milhares de pessoas que a visitam.

Gabriel Vilas Boas


sexta-feira, 21 de março de 2014

ÁLVARO SIZA VIEIRA



Qualquer obra de Siza Vieira é um objeto luminoso que foi reinventado pelo arquiteto, ou seja, pacientemente construído.
         Nas suas obras, percebemos claramente quem são os seus clientes, a geografia dos diferentes lugares onde projeta, o tempo que passou nas cidades onde constrói.
É verdade que Álvaro Siza é também as escadas que estreitam, os ângulos agudos que parecem ameaçar, a janela-porta, a curvatura no teto. Mas isso são “acidentes” numa arquitetura cuidadosamente construída.
                Há quem diga, com propriedade, que a sua arquitetura é regra e acontecimento, ou seja, por um lado é modulação, estrutura e padrão e, por outro lado, episódio, usurpação e fuga. Eu não poderia estar mais de acordo.
               
                 Nos seus edifícios somos envolvidos por espaços que sugerem “movimento”, que é sugerido através de ideias de rutura, rotação ou passagem, o que permite vislumbrar a modernidade da sua arquitetura.
              Álvaro Siza Vieira pertence à chamada Escola do Porto de Arquitetura que nos anos 60 e 70 do século XX partilhou uma mesma sensibilidade arquitetónica. A sua fidelidade à Escola do Porto e à arquitetura moderna vê-se nas várias configurações geográficas e temporais que as suas obras apresentam.
                O que causou espanto, a nível europeu, foi a reinvenção inconformista que o arquiteto nascido em Matosinhos fez dessa matriz moderna. Siza não se deixou impressionar com as propostas pós-modernas e utópicas dos seus colegas mais novos. Ele afirmou o seu realismo arquitetónico e isso veio a granjear-lhe admiração e clientes por essa Europa fora.
                As habitações sociais que projetou nos anos setenta do século XX trouxeram-lhe convites para projetos em Berlim e Haia.
                E o que tinham esses bairros sociais de tão extraordinário?
              Siza recriou a habitação social, construindo-a em diálogo arquitetónico com os seus utentes e por isso construiu tipologias inovadoras como recomendavam os grandes sábios da arquitetura moderna, Gropius e Le Corbusier. Tal como o Le Corbusier do anos vinte, Álvaro Siza sempre gostou de planos cegos e do reboco pintado a branco. E isso vê-se nas suas propostas de bairros sociais na altura em que a revolução dos cravos triunfava em Portugal.
            Outro aspeto peculiar da obra deste grande arquiteto português é o desenho do mobiliário e acessórios, à boa modernista. Siza Vieira acha que deve ter o controle geral do “ambiente”. Por isso começou por desenhar esse mobiliário e acessórios, até porque não existia no mercado quem o fizesse segundo o paradigma modernista. Depois a necessidade tornou-se na exigência pessoal a que se impôs.  Para Siza Vieira, o arquiteto deve ser o responsável principal pelos vários níveis de qualidade duma obra, incluindo os objetos de uso diário.
         Outro aspeto que singulariza Álvaro Siza Vieira é o uso do esquisso como processo pessoal, síntese e inventariação. O esquisso permite captar as diversas faces daquilo que o edifício quer ser ou há de ser nas suas diversas etapas. No sentido inverso, podemos concluir que os seus edifícios são o resultado da controlada volatilidade desses bosquejos. O dedo do mestre está na passagem dos esboços para o “desenho rigoroso”. O equilíbrio dinâmico dos edifícios decorre dos esquissos, por referência à arte moderna (assimetria, dissonância, plasticidade). Siza consegue, depois, passar essas qualidades para a construção através dum controle geométrico.
          Siza usa dum modo muito pessoal um sistema de “traços reguladores” que permite impor regras às livres composições modernistas. Ele usa esse traçado regulador como pretexto para a construção de pequenos sinais (linhas de teto, de luz, de pavimento, de muretes – que encarnam a natureza orgânica dos esquissos e são arquitetura). É por coisas como estas que os seus edifícios têm clareza formal. Ele sabe organizar o espaço.
          As obras deste arquiteto são também, muitas vezes, uma experimentação construtiva, pois Álvaro Siza criou a sua própria linguagem construtiva, solidificada nas várias experiências que fez em cada projeto. As últimas grandes obras confirmam temas e processos que lhe são muito caros. Quando é desafiado por um qualquer problema, é dentro do seu próprio universo construtivo que ele vai buscar a solução.
           Talvez, por isso tudo, possamos falar dum a obra grandiosa, moderna, inovadora e, sobretudo, coerente.

"Carteira Profissional": Álvaro Joaquim Melo Siza Vieira nasceu em Matosinhos, em 1933. É o mais famoso, importante e galardoado arquiteto português. Ensinou na Escola Superior de Arquitetura do Porto, mas também em Lausanne (Suíça), Bogotá (Colômbia), Harvard (E.U.A.). Em 1992, o conjunto da sua obra é internacionalmente reconhecido ao ganhar o famosíssimo Prémio Pritzker, atribuído pela fundação Hyatt de Chicago e considerado o maior galardão no mundo da arquitetura. Antes já tinha ganho a medalha de ouro do Collegio de Architectos de Espanha (1988), o prémio Arnald W. Brunner Memorial (Academia Americana de Artes e Letras – Nova Iorque), o Praemium Imperiale da Associação Japonesa de Artes, em Tóquio, entre dezenas de distinções internacionais. Em Portugal também foi amplamente premiado. Destaco as duas vezes em que foi distinguido com o prémio Secil de Arquitetura: em 1996, pelo Edifício Castro e Mello, no Chiado, e em 2000, com a Faculdade de Ciências e Informação de Santiago de Compostela.
           Siza Vieira é um manual de obras de referência. Destaco apenas dez para não ser exaustivo: Casa do Chá Restaurante da Boa Nova, em Leça da Palmeira; Biblioteca da Universidade de Aveiro, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto; Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela), Faculdade de Ciências e Informação de Santiago de Compostela; Museu de Arte Contemporânea – Fundação de Serralves (Porto); Pavilhão de Portugal na Expo 98; Igreja de Santa Maria e Centro Paroquial em Marco de Canaveses; Centro Cultural e Auditório Fundação Iberé Camargo, em Porto Alegre, Brasil; renovação da Avenida dos Aliados (em parceria com outros arquitetos).


Gabriel Vilas Boas.