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segunda-feira, 19 de junho de 2017

UM PARQUE AQUÁTICO DE SONHO E DE INCLUSÃO


Amarante tem um dos parques aquáticos mais imponentes e apetecíveis da Península Ibérica. Todos os anos milhares de pessoas procuram a cidade de Amadeo e Teixeira de Pascoaes para deslizar, em alto estilo, nos escorregas gigantes do parque da RTA.
Talvez não fosse má ideia criar condições para que TODOS pudessem aceder a esta diversão de Verão. Como podem as pessoas com deficiência usufruir do prazer das brincadeiras na água? Não podem, a não ser que vivam no Texas, na cidade de Santo António, onde este fim-de-semana foi inaugurado o Morgan’s Inspiration Island, um parque aquático totalmente adaptado a crianças com deficiência motora.

Custou 15 milhões de euros e foi pensado em função das crianças com deficiência motora e não só: dispõe de cadeiras de rodas impermeáveis para que o público não estrague as próprias; a temperatura da água é regulada a pedido para os visitantes com especial sensibilidade ao frio; as crianças usam pulseiras de alta tecnologia que as permite encontrar rapidamente caso se percam; para as crianças muito sensíveis ao ruído há áreas especialmente silenciosas; cada divertimento aquático tem uma acessibilidade incorporada.

Este magnífico projeto foi idealizado por Gordon e Maggie Hartman, um casal que se inspirou nas necessidades da sua filha, que sofre de vários problemas físicos e cognitivos. Os proprietários tiveram ainda o cuidado de adotar uma política de preços realista e acessível, porque os pais destas crianças são pessoas com altos encargos mensais com os seus filhos. Por isso, as crianças só pagam onze euros e os adultos dezassete.
Este parque existe na América, mas a ideia é facilmente adaptável a Portugal e podia ser acarinhada e desenvolvida, por exemplo, pelos proprietários do Parque Aquático de Amarante. Enquanto pensam no melhor modo de concretizar tão interessante projeto, podiam inspirar-se na política de preços da Morgan’s Inspiration Island e ajustar a sua à realidade portuguesa.

GAVB

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ACESSIBILIDADE E INCLUSIVIDADE NA ARQUITETURA


Acessível e inclusivo são dois conceitos que aparecem frequentemente como sinónimos. Parece-nos importante referir que a noção de inclusividade contém em si a de acessibilidade, sendo a primeira, no entanto, mais abrangente, pois apresenta soluções adequadas à diversidade humana.
O dicionário diz-nos que acessibilidade é a “qualidade de acessível” (COSTA, 1994, p. 33). Por sua vez, acessível é o “que se pode atingir, alcançar ou obter facilmente; compreensível; aberto; comunicativo; tratável” (COSTA, 1994, p. 33). Logo, arquitetura acessível será o espaço edificado, que possa ser atingido, percorrido e usado por indivíduos portadores de deficiência."
 A acessibilidade permite a autonomia e participação das pessoas com deficiência, reduzindo ou eliminando as discrepâncias entre as capacidades e necessidades dos indivíduos e a componente física e organizacional do seu ambiente.


O Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, através do Instituto Nacional para a Reabilitação, refere  que “as acessibilidades constituem uma condição essencial para o pleno exercício dos direitos das pessoas com deficiência e de todas as outras pessoas que experimentam uma situação de limitação funcional ao longo das suas vidas”, sendo que “as acessibilidades abrangem um conjunto muito diverso de realidades que vão desde as ajudas técnicas ao acesso aos edifícios. Atendendo a que sem acessibilidade, as pessoas com deficiência não podem ser autónomas, nem utilizar os bens e serviços existentes na sociedade para todos, tem sido adoptada legislação e planos de acção que obrigam as entidades públicas e privadas a garantir a acessibilidade nos espaços públicos, nos equipamentos colectivos e edifícios públicos, nos transportes, na informação e comunicação, incluindo as novas tecnologias de informação.” (INR).
A acessibilidade é pois “(…) uma questão chave para atingir os quatro objectivos da estratégia do Conselho Europeu de Lisboa: aumentar a competitividade, alcançar o pleno emprego, reforçar a coesão social e promover o desenvolvimento sustentado.” (INR, Plano Nacional de Promoção da Acessibilidade).
Atualmente é comum ver este conceito aplicado em arquitetura, urbanismo, design, tecnologias da informação, transportes entre outros.


Remetendo-nos novamente à definição do dicionário, inclusivo é “ o que inclui ou pode incluir ou abranger” (COSTA, 1994, p. 1007). Portanto as soluções mais inclusivas são benéficas para todos os cidadãos e não apenas para os que apresentam problemas de relação com o meio. No entanto são estes que mais vantagens retiram da sua aplicação pois é-lhes proporcionada uma melhor qualidade de vida, integração social e igualdade de oportunidades.
Podemos dizer que arquitetura inclusiva se define pela elaboração de projetos arquitetónicos que possibilitem o acesso e o uso em segurança de todas as pessoas, a espaços públicos ou privados, qualquer que seja a sua condição física ou nível etário.
Sendo a arquitetura inclusiva um direito de cidadania, este conceito surgiu no vocabulário português recentemente. Uma habitação inclusiva será então, a adequação à diversidade humana, banindo as barreiras arquitetónicas e promovendo o bem-estar e qualidade de vida.

Do ponto de vista da arquitetura acessível, o projeto de uma casa é pensado exclusivamente em função do indivíduo portador de determinada deficiência. Já um projeto inclusivo pressupõe como diz Renata Mello em Arquitectura Inclusiva “(…) uma visão relativamente nova de casa para a vida toda. Esse conceito garante que a moradia suporte mudanças e adaptações ao longo dos anos, de modo que atenda as 
diversas necessidades que cada fase da vida solicita, sem prejuízo ou comprometimento do espaço.”



 Desenho Universal
Recorrendo à definição de Desenho Universal publicada pelo Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, através do Instituto Nacional para a Reabilitação, “Desenho para Todos visa a concepção de objectos, equipamentos e estruturas do meio físico destinados a ser utilizados pela generalidade das pessoas, sem recurso a projectos adaptados ou especializados, e o seu objectivo é o de simplificar a vida de todos, qualquer que seja a idade, estatura ou capacidade, tornando os produtos, estruturas, a comunicação/informação e o meio edificado utilizáveis pelo maior número de pessoas possível, a baixo custo ou sem custos extras, para que todas as pessoas e não só as que têm necessidades especiais, mesmo que temporárias, possam integrar-se totalmente numa sociedade inclusiva”. (INR).
Não podemos confundir o desenho universal com o desenvolvimento de projetos exclusivos para indivíduos portadores de deficiência. O desenho universal apresenta maior abrangência e engloba vários itens como inclusividade, acessibilidade, sustentabilidade, igualdade, competitividade, entre outros.


É consensual que para realizar um projeto inclusivo o seu desenho deve basear-se em sete princípios básicos, sendo eles: “Utilização equitativa: pode ser utilizado por qualquer grupo de utilizadores; Flexibilidade de utilização: Engloba uma gama extensa de preferências e capacidades individuais; Utilização simples e intuitiva: fácil de compreender, independentemente da experiência do utilizador, dos seus conhecimentos, aptidões linguísticas ou nível de concentração; Informação perceptível: Fornece eficazmente ao utilizador a informação necessária, qualquer que sejam as condições ambientais/físicas existentes ou as capacidades sensoriais do utilizador; Tolerância ao erro: minimiza riscos e consequências negativas decorrentes de acções acidentais ou involuntárias; Esforço físico mínimo: pode ser utilizado de forma eficaz e confortável com um mínimo de fadiga; Dimensão e espaço de abordagem e de utilização: Espaço e dimensão adequada para a abordagem, manuseamento e utilização, independentemente da estatura, mobilidade ou postura do utilizador.” (INR).
O conceito de desenho universal é cada vez mais aplicado à arquitetura, resultando na promoção da inclusão social, na contribuição para a adaptabilidade e sustentabilidade.

Teresa Beyer

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ARQUITETURA DE INCLUSÃO

PROJETANDO O FUTURO COM TODOS

A arquitetura é uma arte muito exigente. Necessita de espaço, precisa de recursos avultados, não dispensa o génio. Normalmente tem de lutar ainda com a incompreensão generalizada porque costuma afirmar--se pela rutura com aquilo que existe. É fácil encontrar gente com opinião, difícil é descobrir quem o faça de modo sustentado e dominando as várias perspetivas desta arte.
Eu gosto de olhar para a ideia arquitetónica duma cidade e talvez por isso admire a obra de Oscar Niemeyer, sobretudo o seu trabalho em Brasília. Mas o meu maior fascínio é a maneira como os arquitetos trabalham a relação dos espaços e dos edifícios com as pessoas. Com todas as pessoas. Tenho um particular apreço por aqueles que fazem propostas que têm em conta os cegos, os tetraplégicos ou as pessoas portadoras dum qualquer outro tipo de deficiência física-motora.
Alguns arquitetos já trabalham esses domínios em alguns edifícios públicos. No entanto, parece-me ainda claramente insuficiente. Desde logo porque são poucos os edifícios públicos que procuram promover uma arquitetura de inclusão, mas também porque não há o cuidado de alargar esse conceito às ruas em volta e grande parte do efeito pretendido perde-se. O que adianta um edifício estar preparado para receber uma pessoa de cadeira de rodas se o acesso se faz apenas por escadas? O investimento feito torna-se improdutivo e facilmente criticável. Os arquitetos devem educar os seus “clientes” para a necessidade de promover uma arquitetura inclusiva coerente. Por impositivo legal os edifícios públicos que agora se constroem de raiz já não negligenciam esta valência. E desejável seria que o mesmo se aplicasse às obras de recuperação de edifícios públicos ou privados com uma utilização coletiva.


Acho que podemos e devemos ir um pouco mais longe do ponto em que nos encontramos. O conceito de arquitetura inclusiva deve estar presente na construção particular e pública. As casas que os arquitetos hoje projetam devem considerar a possibilidade de serem habitadas ou frequentadas por pessoas com alguma limitação física ou motora. Há dezenas de pormenores no desenho interior e exterior duma casa que não consideram a existência deste tipo de pessoas. E elas existem. Quase todas as famílias têm um tio, um irmão, um amigo que não vai lá casa porque o acesso só se faz por escadas ou porque uma cadeira de rodas tem dificuldade em circular pelos vários espaços da casa, impreparados para elas.
Se pensarmos que as nossas capacidades físicas se vão degradando ao longo dos anos, percebemos rapidamente que a arquitetura de inclusão dará uma ótima ajuda a quase todos quando a velhice chegar.  
Com o aumento da esperança de vida, a arquitetura do século XXI tem um grande desafio pela frente: prolongar o bem-estar das pessoas nas suas casas o maior número de anos possível e contribuir de forma efetiva para uma sociedade integradora, onde a partilha dos espaços, dos objetos, dos edifícios e dos afetos seja possível para todos.
Gabriel Vilas Boas