Um professor de Francês a
lecionar Português ou um professor de História a lecionar Geografia é só uma
pequena amostra de como as «coisas» serão daqui para a frente na Escola Pública
portuguesa. Todos os dados apontavam para isto e os próximos tempos apenas tornarão mais clara a ideologia governamental (mas não só) para a Educação em Portugal.
Falo em ideologia, mas o mais
correto seria dizer que não há ideologia nenhuma. Numa Escola onde todos passarão
de ano, qualquer um serve para ensinar qualquer coisa. Desde que ocupe as
crianças e adolescentes durante 35 horas por semana e que no final do ano
carimbe a sua transição, está tudo certo.
Se ensina bem ou mal, isso pouco
interessa a quem governa, à maioria dos pais e à grande parte da sociedade. Por
isso, se falta um professor de Francês, avança um de Alemão, que está mesmo à
mão e precisa de umas horas para completar o horário; se já não há professor de Informática, a turma fica com o professor de Educação Visual, que até fez um
workshop na área e sabe usar com alguma destreza vários programas informáticos;
se o aluno não tem professor de Educação Física avança o professor de Matemática, que estava encostada na biblioteca , por falta de turma, e até gosta
de Desporto.
Esqueçam lá isso de contratar
novos professores, de renovar geracionalmente a classe, de dotar a escola de
mais qualidade profissional e académica. Para quê, se os alunos precisam de saber
cada vez menos para completarem ciclos de ensino?
Se os professores pensavam que a
sua hora ia chegar com a falta de professores, por via da reforma de muitos, da
desistência de alguns e do desinteresse das novas gerações de licenciados,
podem tirar o cavalinho da chuva! Como qualquer um serve, as insuficiências de
pessoal qualificado serão sempre colmatadas recorrendo a remendos. Não estará
longe o tempo em que as Escolas contratarão, à semana ou ao mês, qualquer
licenciado inscrito no Centro de Emprego que se disponibilize para ganhar uns
trocos numa escola perto, enquanto aguarda melhor oferta.
Este plano governamental tem
grandes hipóteses de frutificar porque a generalidade dos encarregados de
educação «não quer saber» do que se ensina ou como se ensina. Isso pode ser
facilmente comprovado pelo modo despudorado com cobrem e apoiam à má educação
dos filhos e até os seus pequenos delitos ou crimes, dentro das escolas, com o
beneplácito de diretores, Associações de Pais, Ministério da Educação.
Aqueles pais, com pretensões a
uma Educação com alguma qualidade para os filhos, matriculá-los-ão em colégios
privados, com o Estado a suportar alguns custos, em benefícios fiscais. E lá será
também o último reduto de quem tem alguma paixão pela profissão docente.
A maioria da população continuará
alegre e contente a culpar os professores, mesmo quando a maioria das escolas
velhas e degradadas, propriedade das Câmaras Municipais sem dinheiro para fazerem
obras, já poucos verdadeiros professores tiverem. Não se queixarão da qualidade
de ensino, porque o seu nível de exigência será tão baixo quanto as qualificações
que adquiriram na Escola onde todos passam, mas virão fazer queixa do colega do filhinho que o agrediu depois de semanas a ser enxolhado no recreio ou do professor que pôs o filho fora da sala
porque foi insultado.
Então virá outro profissional da educação e depois outro
e outro e outro ainda, com intervalos de uma semana sem aulas, para se cumprir
as regras de seleção dos candidatos. Nessa altura, todos seremos mais felizes, haverá
uma António Costa qualquer a proclamar que a Educação deu um salto de qualidade,
com a vantagem de tal ter sido feito sem professores. A nova designação será “técnicos
de educação”. Algo genérico, porque sai mais barato e faz o mesmo trabalho
indiferenciado.


