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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

VÉNUS E ADÓNIS, de Ticiano


Ticiano escolheu o amor trágico entre Vénus e Adónis como tema para o seu patrono, o rei Filipe II de Espanha, pois o monarca espanhol era um conhecido apreciador da nudez feminina.
O pintor transalpino concluiu este famoso quadro em 1554, quando Filipe II se encontrava em Londres, pouco tempo depois de ter contraído matrimónio com Maria I, rainha de Inglaterra.
Anteriormente já Ticiano tinha enviado ao poderoso Filipe II uma pintura de Dánae, nua, vista de frente. Numa carta ao rei, o veneziano explicou que tinha pintado, desta feita, Vénus de costas para que que as duas pinturas pudessem ficar juntas, permitindo a Filipe II apreciar a variedade.

Ticiano chamou à pintura uma “poesia”, porque o pintor tratou o tema da mitologia com a mesma liberdade poética concedida ao poeta. Ticiano realçou o conteúdo trágico da história, mostrando uma Vénus agarrada ao caçador, que ignora os seu pedidos e sai para uma caçada de madrugada. Cupido encontra-se adormecido debaixo de uma árvore enquanto os primeiros raios de sol saúdam o dia fatal.
Adónis é o elemento chave desta composição de Ticiano e ignorava a fatalidade que lhe estava destinada.
Quando Mirra enganou o pai e o levou a praticar uma relação incestuosa, os deuses transformaram-na em árvore para a proteger da fúria paterna – Adónis nasceu do tronco. Vénus enamorou-se perdidamente do belo jovem depois de Cupido a ter atingido com a sua flecha. Foi então avisada que o amado morreria durante uma caçada, mas não conseguiu dissuadi-lo de tomar parte dela. A mitologia narra que após a sua morte as rosas nasceram do seu sangue e a anémona das lágrimas da deusa.
Este imponente óleo sobre tela (186x207) expressa um grande erotismo, evidenciado no destaque que o pintor italiano dá às costas e aos glúteos da apaixonada deusa do amor.

Posteriormente foram pintadas várias versões deste quadro, mas a versão principal está (como não poderia deixar de ser) no Museu do Prado, em Madrid.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

"O 3 DE MAIO DE 1808" - FRANCISCO DE GOYA


Num dia em que o mundo reage com consternação, dor, perplexidade e revolta aos trágicos acontecimentos de Paris, em que um grupo extremista islâmico matou doze pessoas, num feroz ataque à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, escolhi, para assinalar o dia da Pintura, deste semana, o quadro do pintor espanhol Francisco de Goya – O 3 DE MAIO DE 1808
A tela de renomado pintor castelhano pode ser admirada no Museu do Prado, em Madrid, e data de 9 de março de 1814, ou seja, tem um século de existência.
Pouco tempo depois da derrota de Napoleão, o Conselho da Regência Espanhola convidou Goya a colocar na tela “as ações ou episódios mais nobres e heróicos da gloriosa insurreição castelhana contra o tirano da Europa”. O artista optou então por realizar duas grandes telas alusivas à revolta de Madrid contra os franceses, ocorrida a 2 de maio de 1808 e sufocada em sangue no dia imediatamente a seguir.
No dealbar do dia 3 de maio foram, efetivamente, fuzilados todos os insurretos do dia anterior e todos os suspeitos de participação na revolta. É exatamente o culminar do drama que Goya representa nesta obra, sintetizando na cena três distintos momentos.
De facto, no quadro do fuzilamento, parte dos compatriotas encontra-se já morta, enquanto outros agonizam e outros ainda se preparam para enfrentar as balas.
Goya desprezou por completo os detalhes porque queria que não desfocássemos a atenção do tema essencial do quadro. Talvez por isso ele empregue uma luz natural na sua tela, realçando o trágico realismo do acontecimento.
Os factos ocorridos na colina de Príncipe Pio estão representados com grande contraste, que reflete a real desigualdade de forças: de um lado os oito soldados de infantaria, representados com o seu fuzil, o uniforme e o chapéu; do doutro, as vítimas, um grupo variado e desesperado, aguardando o fuzilamento.
O artista prefere não representar o rosto dos soldados do pelotão de execução: uniformizados no seu alinhamento militar, estão desprovidos de toda a identidade individual, representando apenas um braço humano que age segundo um vontade superior.


Ao contrário destes executores do terror, os homens que esperam a execução aparecem altamente individualizados nas suas diferentes reações: prontos para a morte, assumem diferentes atitudes. Destaca-se claramente um revolucionário com camisa branca. A associação com Cristo é intencional, até porque as mãos apresentam estigmas. Goya explica assim às gerações futuras que os heróis madrilenos do passado foram uns mártires que pagaram com a vida a ousadia de enfrentar o tirano francês.


Também relevante neste quadro é o frade que Goya coloca, ajoelhado, na primeira fila das vítimas. Através dele o pintor espanhol lembra o importante papel que a Igreja do país vizinho teve na luta contra os avanços napoleónicos em Espanha, pedindo ao povo que resistisse. Só é pena que não o tenha feito em defesa da liberdade, mas porque Napoleão havia fechado conventos e suprimido a inquisição.
Gabriel Vilas Boas