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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

"O 3 DE MAIO DE 1808" - FRANCISCO DE GOYA


Num dia em que o mundo reage com consternação, dor, perplexidade e revolta aos trágicos acontecimentos de Paris, em que um grupo extremista islâmico matou doze pessoas, num feroz ataque à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo”, escolhi, para assinalar o dia da Pintura, deste semana, o quadro do pintor espanhol Francisco de Goya – O 3 DE MAIO DE 1808
A tela de renomado pintor castelhano pode ser admirada no Museu do Prado, em Madrid, e data de 9 de março de 1814, ou seja, tem um século de existência.
Pouco tempo depois da derrota de Napoleão, o Conselho da Regência Espanhola convidou Goya a colocar na tela “as ações ou episódios mais nobres e heróicos da gloriosa insurreição castelhana contra o tirano da Europa”. O artista optou então por realizar duas grandes telas alusivas à revolta de Madrid contra os franceses, ocorrida a 2 de maio de 1808 e sufocada em sangue no dia imediatamente a seguir.
No dealbar do dia 3 de maio foram, efetivamente, fuzilados todos os insurretos do dia anterior e todos os suspeitos de participação na revolta. É exatamente o culminar do drama que Goya representa nesta obra, sintetizando na cena três distintos momentos.
De facto, no quadro do fuzilamento, parte dos compatriotas encontra-se já morta, enquanto outros agonizam e outros ainda se preparam para enfrentar as balas.
Goya desprezou por completo os detalhes porque queria que não desfocássemos a atenção do tema essencial do quadro. Talvez por isso ele empregue uma luz natural na sua tela, realçando o trágico realismo do acontecimento.
Os factos ocorridos na colina de Príncipe Pio estão representados com grande contraste, que reflete a real desigualdade de forças: de um lado os oito soldados de infantaria, representados com o seu fuzil, o uniforme e o chapéu; do doutro, as vítimas, um grupo variado e desesperado, aguardando o fuzilamento.
O artista prefere não representar o rosto dos soldados do pelotão de execução: uniformizados no seu alinhamento militar, estão desprovidos de toda a identidade individual, representando apenas um braço humano que age segundo um vontade superior.


Ao contrário destes executores do terror, os homens que esperam a execução aparecem altamente individualizados nas suas diferentes reações: prontos para a morte, assumem diferentes atitudes. Destaca-se claramente um revolucionário com camisa branca. A associação com Cristo é intencional, até porque as mãos apresentam estigmas. Goya explica assim às gerações futuras que os heróis madrilenos do passado foram uns mártires que pagaram com a vida a ousadia de enfrentar o tirano francês.


Também relevante neste quadro é o frade que Goya coloca, ajoelhado, na primeira fila das vítimas. Através dele o pintor espanhol lembra o importante papel que a Igreja do país vizinho teve na luta contra os avanços napoleónicos em Espanha, pedindo ao povo que resistisse. Só é pena que não o tenha feito em defesa da liberdade, mas porque Napoleão havia fechado conventos e suprimido a inquisição.
Gabriel Vilas Boas


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

JARDINS VERTICAIS

No último artigo fiz referência a uma parede verde, um grande jardim vertical ao lado do edifício de La Caixa de Madrid projetado pelo botânico francês Patrick Blanc (Paris,1953-). Gostava de continuar abordar este tema que faz parte da arquitetura paisagística. É precisamente na incorporação de paisagem e arquitetura que Patrick Blanc apresenta todas as possibilidades do uso da vegetação nos edifícios, afirmando que as plantas não necessitam de terra, só necessitam de água, luz e dióxido de carbono.
 


Patrick Blanc desenvolveu uma técnica que permite que os seus jardins verticais sejam tão leves que possam ser instalados em qualquer tipo de parede, grande ou pequena, interior ou exterior e têm na sua construção três elementos fundamentais: uma estrutura metálica, uma “pele” plástica e uma capa de feltro de poliamida imputrescível. A rega e a fertilização são automatizadas e, funcionam como isolamento térmico e como um elemento purificador do ar, onde milhares de plantas e centenas de espécies se espalham formando uma variada paleta, onde os verdes geralmente dominam.



No intuito de minorar e suprir a falta de áreas verdes nas cidades, beneficiando e tirando partido dos espaços, os Jardins-Verticais têm vindo a ganhar “território” no quotidiano urbano, fazendo a diferença na arquitetura e na decoração.
Qualquer pessoa pode construir o seu Jardim-Vertical de maneira simples, fazendo autênticas “Paredes Vivas” que podem ser construídas em varandas, em salas e até mesmo em cozinhas. Estas “paredes” contribuem para a diminuição dos efeitos da emissão de carbono e para a climatização dos espaços.

 

Teresa Beyer

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A «CAIXA-FÓRUM» DE MADRID



  O edifício da Caixa - Fórum fica no coração da zona cultural da cidade de Madrid, em frente ao Passeio do Prado e ao museu do Prado, entre os museus Rainha Sofia e Thyssen-Bornemisza. 
  O projecto é dos arquitectos suíços Herzog & de Meuron (2001-2007), que contaram com um programa  que determinava a preservação de uma antiga estação eléctrica datada de 1899, um dos poucos exemplos de arquitectura industrial da cidade, com o seu  tijolo classificado e portanto historicamente importante.

  A nova construção mostra os pisos envolvidos em oxidado de ferro fundido, rendilhado que remete para uma cor semelhante ao tijolo abaixo. A aparência escultórica inesperada da forma da Caixa - Fórum espelha a paisagem de telhados dos edifícios da envolvente.
 O edifício distribui-se por sete níveis, dois subterrâneos, uma planta coberta ao nível da rua que proporciona uma continuidade à praça pública e quatro andares acima do solo. O espaço interior é uma verdadeira caixa de surpresas, jogando com os materiais e as formas.

  Da praça coberta, com o tecto revestido de aço inox, sai uma escadaria que acede ao primeiro andar, também ela em aço inoxidável, material usado nas peças triangulares que revestem igualmente todo o vestíbulo.
  As paredes de tijolo são suportadas, por núcleos de betão e estrutura de aço escondidos, pois não existe nenhuma coluna no piso térreo, sendo por isso difícil de perceber onde está o truque. Todo o edifício parece voar sobre a nossa cabeça. De facto constitui uma surpresa para o visitante quando sobe para o primeiro andar, perceber que o chão está pendurado em colunas e tirantes de aço soldados ao segundo piso.
  A eliminação da base do edifício antigo deixou uma praça coberta sob o resguardo de tijolos, que agora parecem pairar acima do nível da rua. Este espaço resguardado sob a Caixa - Fórum oferece um logradouro, um bom local para se estar, sendo ao mesmo tempo a entrada do próprio Fórum.
  O piso (-2) comporta o parque privativo, um foyer auditório, camarins e espaços de instalações e o piso (-1) destina-se ao armazém de obras de arte, duas salas de conferências, foyer e auditório, zona de descarga e carga de obras de arte e arrumações.

  Este, constitui já uma atracção urbana, não só para os amantes da arte, mas sobretudo pela arquitectura do edifício, que atrai inevitavelmente os visitantes pois parece estar em desafio das leis da gravidade.
  Na casa ao lado, há uma grande parede verde, um grande jardim vertical de 24 metros, projectado pelo botânico francês Patrick Blanc.

  O avermelhado dos andares superiores de La Caixa – Fórum contrasta com as plantas na parede, que por sua vez remetem para a paisagem do “Real Jardim Botânico” e do “Passeio do Prado”, que está em frente.

Teresa Beyer