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domingo, 13 de abril de 2014

GERAÇÃO NEM NEM

Uma sociedade é composta de diversos grupos geracionais que, quando bem interligados, formam um todo solidário e com identidade. Cada um tem um papel específico e relevante. Aos jovens adultos cabe a função de criar, desenvolver, arriscar. Em teoria eles transportam consigo todas as ilusões que a idade deve transportar.
Têm formação, têm ambição, querem fazer. E o normal é que concretizem os seus projetos e determinem o rumo da sociedade em que vivem. São eles que carreiam o fogo da esperança, do progresso, do desenvolvimento.
Em Portugal, a geração dos jovens adultos transborda desilusão, que, muitas vezes, se transforma em desespero. A chamada geração “nem nem” (nem estuda nem trabalha) vive angustiada pela falta de horizontes. Investiu como nenhuma outra na sua formação, somando licenciaturas, mestrados e doutoramentos, atualizou-se em formações e encontrou a porta do desemprego como resposta.
Grande parte dos oitocentos mil desempregados que Portugal carrega como uma cruz é jovem. Eles não percebem o pesadelo em que vivem. Estudaram, formaram-se e agora oferecem-lhe empregos indiferenciados e salários miseráveis. Sentem-se impotentes porque não podem decidir nada. Não têm dinheiro para arriscar, não têm poder de decisão nas empresas nem nas instituições, não têm um líder que os imponha. Mas o pior de tudo é que não são um grupo coeso. Cada um está por si. Por isso, apesar de muitos, não conseguem fazer grande coisa por si, no seu país.
O resto da sociedade tem pena, mas diz nada poder fazer. E quem pode fazer, acha a tarefa ciclópica e de resultado imediato quase nulo, tanto que não mexe uma palha pelo aproveitamento destes jovens na economia portuguesa.

Falta visão e sobretudo coragem a quem decide. Há que estancar a sangria de jovens para o estrangeiro. Isso faz-se com medidas e não com palavras. Os jovens precisam de empregos com uma remuneração média bem superior a mil euros. Precisam de ter acesso a habitação barata no centro das cidades, necessitam de apoios sociais para os filhos e para os pais. Carecem que os bancos acreditem nos seus projetos, que os patrões os empreguem, que o governo crie uma fiscalidade que os ampare no início da grande aventura.
Os jovens precisam de ser a prioridade efetiva do país no que diz respeito ao investimento. Têm de ter a ilusão de que vão ser bem-sucedidos e isso depende apenas do seu esforço e determinação.
No meu entender devíamos começar pelo básico: permitir que eles usem nos seus trabalhos as competências que aprenderam na escola e centros de formação. Dirão muitos que só aprenderam teoria ou que aquilo que aprenderam não tem aproveitamento laboral. Acho que é só uma porção da verdade. O mercado global está sempre a criar necessidades às pessoas. Quando elas dão por si estão a querer absurdamente produtos e serviços que há três anos nem imaginavam existir. As empresas devem perceber que os produtos e oportunidades “criam-se”. Nos outros e para os outros. Ora, um jovem com tantas competências acumuladas, com tanta informação disponível, é a pessoa ideal para conquistar mercados, produtos e serviços que nós nem imaginamos que vamos querer.
O jovem é a grande esperança duma sociedade que não quer ficar para trás nem definhar. Não podemos servir-lhe um prato de desencanto que o obrigue a partir triste, amargurado e ressentido.
É a geração nem nem a única que pode criar a sociedade tem tem: tem solidariedade, tem desenvolvimento.

Gabriel Vilas Boas